A tragédia das chuvas esta semana em Minas Gerais – que deixou 72 mortos (65 em Juiz de Fora e sete em Ubá)  e milhares de desalojados e desabrigados  – expõe mais uma vez a urgência do debate sobre o enfrentamento ao ‘novo normal do clima’ no Brasil, sobretudo durante a temporada mais quente do ano.

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que as Regiões Sul e parte do Sudeste — incluindo o sul/litoral de São Paulo, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, onde ocorreram os atuais desastres — registraram um aumento de cerca de 30% no acumulado de chuvas anuais no período de 1991 a 2020, em comparação com 1961 a 1990.

Soma-se a isso outra evidência: o verão é a estação do ano com maior registro de desastres nas últimas três décadas (44%), como apontou um estudo recente da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. Este cenário amplia riscos sanitários e pressiona estruturas públicas e privadas responsáveis por serviços essenciais.

As projeções meteorológicas para o verão de 2026 já indicavam a ocorrência de temperaturas acima da média histórica e volumes elevados de precipitação em diversas regiões do país. Mesmo assim, governos estaduais e municipais não se prepararam para enfrentar os prejuízos materiais e perdas de vidas humanas.

Tragédia anunciada: governador culpa os municípios

Para ambientalistas, o que está acontecendo em Minas Gerais é resultado de uma tragédia anunciada, assim como ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024 e também na Região Serrana do Rio de Janeiro. Segundo Greenpeace Brasil, a ausência de políticas públicas de adaptação e mitigação efetivas para o enfrentamento às chuvas e demais eventos climáticos extremos contribuem para esse cenário devastador.

Dados oficiais do Portal da Transparência de Minas Gerais, por exemplo, apontam que houve uma redução de 96% de investimentos voltados à infraestrutura de enfrentamento às chuvas no estado: entre 2023 e 2025, os valores destinados a essa finalidade passaram de cerca de R$ 135 milhões para pouco menos de R$ 6 milhões.

Questionado sobre a falta de investimentos em entrevista à Globonews na noite desta quinta-feira (26), o governador de Minas, Romeu Zema (PL), preferiu alegar que no governo anterior, do PT, o investimento foi muito menor, sem detalhar números; Também culpou a natureza, admitindo a existência das mudanças climáticas, o que sempre foi motivo de discórdia entre os negacionistas do clima da extrema direita.

Zema ainda jogou a responsabilidade para os prefeitos das cidades atingidas, dizendo que o Estado enviou aos municípios mineiros kits de prevenção de chuvas. A reportagem da emissora apurou que cada kit é composto por uma caminhonete 4 x 4, um notebook, uma trena digital e quatro coletes reflexivos. Como se isso fosse suficiente para evitar ou mitigar os danos causados pelas fortes chuvas, principalmente nesta época do ano.

Impasse político e recursos federais para prevenção em Minas

Lula critica gestão estadual por falta de projetos enquanto tragédia na Zona da Mata soma novas vítimas

O cenário de crise em Minas Gerais ganhou contornos políticos na sexta-feira (27/02). Durante a 6ª Conferência Nacional das Cidades, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o governador Romeu Zema pela ausência de projetos de prevenção a desastres climáticos. Segundo o governo federal, Minas dispõe de R$ 3,5 bilhões via Novo PAC, mas os recursos não teriam sido alocados pelo estado para obras estruturais.

O ministro das Cidades, Jader Filho, reforçou que o montante poderia ter sido aplicado em macrodrenagem e contenção de encostas — intervenções cruciais para cidades como Juiz de Fora e Ubá. O ministro comparou os investimentos atuais, que somam R$ 32 bilhões em prevenção no país, com os R$ 6 milhões destinados pela gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022), aliado político de Zema.

Desastres climáticos não são naturais, diz Greenpeace

Organização lembra que tragédias podem ser evitadas com políticas públicas de prevenção

Para o Greenpeace, desastres em decorrência de eventos climáticos, sejam os de agora em Minas Gerais ou os vistos na Amazônia e nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul recentemente, não são naturais.

Eles poderiam ser evitados com planos e políticas públicas de adaptação climática eficientes nos estados e municípios, com especial atenção para as comunidades periféricas, onde a vulnerabilidade e a falta de políticas públicas é ainda maior, refletindo o  cenário de injustiça climática e racismo ambiental brasileiro”, afirma a coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Leilane Reis.

A ausência de investimentos compatíveis com a dimensão do problema nos municípios e estados destinados às ações e políticas climáticas também é uma barreira para evitar tais desastres. “Sem financiamento adequado para políticas de adaptação e para a implementação de medidas preventivas, as consequências dos eventos climáticos tornam-se mais catastróficas”, afirma Reis.

Diante do atual cenário de agravamento dos eventos climáticos, o Greenpeace Brasil classifica como fundamental que todos os municípios avancem com o desenvolvimento de suas políticas e planos de adaptação climática, alinhados ao Plano Clima, com apoio dos Estados e do Governo Federal.

Apenas 3,28% do orçamento para redução e mitigação de desastres

Destruição em Arroio do Meio no Rio Grande do Sul em maio de 2024 (Foto: Fernanda Ligabue / Greenpeace)

Divulgado em janeiro de 2025, um levantamento do Greenpeace Brasil sobre a destinação do orçamento na Lei Orçamentária Anual (LOA) ao Programa de Gestão de Risco e Desastres mostra que o Brasil planejou, dentre as ações de prevenção nos últimos dez anos (de 2015 a 2025), em média, apenas 3,28% do orçamento federal para obras para redução e mitigação de desastres.

O estudo mostra que para ações de defesa civil, que contempla também resposta e emergência, a destinação foi de 37%. O levantamento do Greenpeace traz outros dados preocupantes sobre as ações de prevenção que foram destinados pela LOA nos últimos dez anos, como:

  • Somente 2,1% em média do valor alocado foi para ações de monitoramento, sistemas de alertas e informações sobre riscos de desastres;
  • Apenas 8,4% do orçamento federal foi destinado para obras de contenção de encostas em áreas urbanas;
  • 25% foi para sistemas de drenagem urbana e manejo de águas pluviais em municípios sujeitos a eventos recorrentes de inundações, enxurradas e alagamentos.
  • 6,67% para estudos, projetos e obras para contenção de cheias e inundações

Falta planejamento nos municípios, diz Trata Brasil

Falta de drenagem resulta em alagamentos que afetam a mobilidade urbana e geram prejuízos diretos à população

Durante o verão, é comum a ocorrência de maiores precipitações e chuvas intensas, o que evidencia a vulnerabilidade dos sistemas de drenagem e do manejo de águas pluviais nas cidades. Sem um sistema de drenagem adequado, frequentemente são registrados alagamentos que afetam a mobilidade urbana e, principalmente, invadem as residências da população, gerando prejuízos diretos para a vida das famílias.

Um estudo do Instituto Trata Brasil alerta que, entre os principais desafios para a efetiva integração da drenagem ao saneamento básico, está a necessidade de planejamento adequado por parte dos municípios. No Brasil, a responsabilidade pela operação dos serviços de drenagem e manejo de águas pluviais é majoritariamente do poder público, sendo conduzida, na maior parte dos casos, pelas administrações municipais diretas.

Diferentemente de outros componentes do saneamento básico, como abastecimento de água e esgotamento sanitário, que frequentemente contam com companhias estaduais ou privadas, os serviços de DMAPU são raramente delegados a entidades privadas ou mistas.

De acordo com o diagnóstico do Sinisa (ano-base 2023) sobre o setor, dos 4.958 municípios que responderam ao módulo de drenagem e manejo de águas pluviais do SINISA, 4.909 declararam que a operação do sistema é realizada pela Administração Direta, o que representa 99% do total.

É importante destacar que nenhum município informou a administração privada desses serviços, o que contrasta com os setores de abastecimento de água e esgotamento sanitário”, diz a Trata Brasil.

Para superar os desafios existentes nos sistemas de drenagem urbana e no manejo de águas pluviais, a entidade propõe o planejamento integrado desses serviços com os demais componentes da infraestrutura de saneamento básico.

Os entes responsáveis pela operação da drenagem urbana devem atuar na elaboração e implementação de planos diretores, compreendendo o grau de importância desses serviços para a qualidade de vida da população e a sustentabilidade das cidades”, diz a Trata Brasil.

Verão concentra 44% dos registros de desastres ambientais

Mais de 4,2 mil brasileiros morreram em decorrência de chuvas no Brasil entre 1991 e 2023. Chuvas desalojaram 8,7 milhões de pessoas e causaram ferimentos ou doenças em 654 mil brasileiros

Além dos impactos materiais, os efeitos dos fortes temporais e inundações sobre a população são expressivos. De acordo com o Atlas Digital de Desastre no Brasil (2023), que reúne dados do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, no período, foram registrados 25,94 mil eventos hidrológicos de desastres desde 1991.

Os desastres relacionados às chuvas provocaram 4.247 mortes, deixaram 8,7 milhões de pessoas desabrigadas ou desalojadas e causaram ferimentos ou doenças em cerca de 654 mil brasileiros entre 1991 e 2023.Ao todo. 91,7 milhões de pessoas foram afetadas no período. Somente nos últimos 15 anos, 74% desses eventos estiveram relacionados a chuvas intensas.

O relatório “Temporadas das Águas: O Desafio Crescente das Chuvas Extremas”, da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, mostra que os desastres associados aos temporais aumentaram 320% no país na atual década. Somente entre 2020 e 2023 doram 7.539 eventos climáticos extremos, contra 2.335 na década de 1990. Nesse intervalo, os desastres resultaram em 3.464 mortes e causaram prejuízos superiores a R$ 151 bilhões. 

O estudo revela ainda que 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram ao menos um desastre associado às chuvas, proporção que mais do que triplicou desde os anos 1990. Apenas entre 2020 e 2024, os prejuízos econômicos chegam a R$ 132 bilhões, valor 123 vezes maior do que o registrado na década de 1990.

O estudo foi coordenado pelo Programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Unesco e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Chuvas cada vez mais intensas por conta das mudanças climáticas

O levantamento aponta ainda mudanças no regime pluviométrico brasileiro. Até o fim do século, as regiões Sul e Sudeste podem registrar aumento de até 30% nas chuvas, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar redução de até 40%, de acordo com dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).

O aumento não é apenas em frequência, mas também em gravidade. Os eventos estão mais intensos, mais destrutivos e atingem um número cada vez maior de pessoas”, explica Ronaldo Christofolettimembro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), professor do Instituto do Mar da Unifesp e coordenador do estudo.

Segundo ele, a intensificação das chuvas extremas está diretamente relacionada às mudanças climáticas e tende a se agravar nas próximas décadas. Diante de um cenário de chuvas intensas e eventos extremos cada vez mais frequentes em função das mudanças climáticas, a implementação de soluções eficazes é indispensável para reduzir as vulnerabilidades existentes e garantir a segurança da população.

Para os pesquisadores, os dados reforçam a urgência de investimentos em prevenção, adaptação e planejamento urbano, além da adoção de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) — como jardins de chuva, áreas verdes e sistemas de drenagem sustentável — capazes de reduzir alagamentos, deslizamentos e perdas humanas.

Com Assessorias e Agência Brasil (atualizado em 27/02/26)

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