O Dia Mundial da Bicicleta, celebrado nesta quarta-feira (3 de junho), vai muito além da exaltação do veículo como um símbolo máximo da mobilidade limpa. Na capital fluminense, a data acende um alerta crítico sobre a distribuição desigual da malha cicloviária e os severos desafios de planejamento urbano.
A análise é da professora Andrea Santos, pesquisadora do Programa de Engenharia de Transportes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ). De acordo com a especialista, o avanço do uso das bicicletas na cidade esbarra diretamente na vulnerabilidade da segurança pública e viária.
Para que o transporte cicloviário se consolide como uma alternativa viável e em massa, são urgentes os aportes financeiros voltados à expansão e à adequação estrutural das pistas.
O abismo social sobre duas rodas no Rio
Um dos pontos centrais criticados pela pesquisadora envolve os conceitos de equidade e justiça climática inseridos no Plano de Mobilidade Urbana Sustentável do Rio de Janeiro. Na prática, a malha atual prioriza majoritariamente as áreas mais abastadas da capital.
A priorização das ciclovias é para a área nobre da capital. Isso fica muito alinhado para o turismo e para as classes A e B do Rio de Janeiro. Falta investimento adequado para as áreas mais periféricas, para outras regiões que precisam de mais investimento para promover um transporte sustentável por bicicleta. Não pode ser só a questão de ser bonito para turista e moradores da zona sul”, enfatiza Andrea Santos.
Segundo ela, o ritmo de expansão do sistema é lento e carrega falhas históricas de planejamento, deixando desassistidos os trabalhadores periféricos que utilizam a bicicleta como principal meio de deslocamento diário. Procurada para se manifestar sobre os investimentos e as críticas de disparidade regional, a prefeitura do Rio de Janeiro não enviou respostas até o fechamento desta reportagem.
O contraponto: Niterói lidera ranking da América Latina
Cruzando a Baía de Guanabara, o cenário de investimentos em mobilidade ativa ganha contornos de excelência mundial. Niterói conquistou o primeiro lugar na América Latina no ranking das cidades mais amigas da bicicleta do mundo, elaborado pela consultoria internacional Copenhagenize Design Company em conjunto com o Instituto de Tecnologia e Inovação da União Europeia (EIT), considerado o levantamento mais prestigiado do setor.
Desde 2013, o município saltou de 20 quilômetros de vias para cerca de 100 quilômetros de infraestrutura cicloviária integrada, sob a coordenação do programa Niterói de Bicicleta. “A conquista internacional é resultado de um processo que iniciamos estruturando políticas públicas voltadas para a mobilidade ativa e para a transformação urbana”, destacou o prefeito Rodrigo Neves.
Entre os principais destaques estruturais e governamentais do município vizinho estão:
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Integração intermodal: O pioneiro Bicicletário Arariboia, construído ao lado da estação das barcas em espaço antes destinado a carros, atende hoje a mais de 20 mil usuários cadastrados.
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Massificação das “roxinhas”: O sistema público de bicicletas compartilhadas gratuitas, as NitBikes, já superou a marca de 2 milhões de viagens e conta com 150 mil usuários cadastrados. O programa segue em expansão, inaugurando recentemente novas estações em bairros como o Barreto e na Praça da Cantareira.
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Educação nas escolas: O projeto Bora de Bike, promovido pela Secretaria Municipal de Educação em parceria com a ONG Bike Anjo, já capacitou cerca de 500 crianças da rede pública em técnicas de pilotagem segura, cidadania e sinalização viária.
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Engajamento popular: Em maio, o evento Bora de Bike Record reuniu cerca de 10 mil ciclistas no Caminho Niemeyer para um circuito de 15 quilômetros que passou por marcos como o Museu de Arte Contemporânea (MAC) e a Praia de Icaraí.
Para o consultor ambiental e climático da prefeitura e ex-prefeito, Axel Grael, a governança dedicada e a fiscalização contra o mau uso das bikes públicas são essenciais para manter o sistema eficiente e abaixo da média mundial de vandalismo. “Hoje vemos cada vez mais pessoas ocupando as ciclovias. É por isso que a gente recebe prêmios como esse”, analisou.
Educação viária e novos modais
A história das ciclovias cariocas começou em 1991, na reurbanização do projeto Rio Orla, em Copacabana. A malha expandiu-se com as promessas da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92), quando o município adotou suas primeiras metas de sustentabilidade ecológica.
Hoje, agências internacionais de peso como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) chancelam o modal pelos seus indicadores de desenvolvimento. Contudo, para o Rio, o desafio ganhou novas camadas de complexidade com a popularização de bicicletas elétricas e ciclomotores pelas pistas.
Andrea Santos lembra que, além de asfalto e segregação de faixas, a capital fluminense precisa urgentemente de campanhas severas de educação e conscientização coletiva. “É preciso ter a colaboração dos usuários, da sociedade, para reduzir as mortes no trânsito”, concluiu.
Saúde Única (One Health): Cidades sustentáveis e bem-estar
A disparidade entre a lentidão do Rio e o sucesso de Niterói reforça a urgência de se discutir a mobilidade sob a ótica da Saúde Única. Ao integrar de maneira indissociável a saúde humana, a integridade ambiental e o equilíbrio do ecossistema urbano, o incentivo ao uso seguro da bicicleta atua como um agente transformador.
Cidades que investem em infraestrutura cicloviária eficiente reduzem diretamente as taxas de poluição atmosférica — o que diminui a incidência de doenças respiratórias e cardiovasculares — e promovem o bem-estar físico e mental da população de forma equitativa, construindo comunidades mais resilientes às pressões climáticas.
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Com informações da Agência Brasil e Prefeitura de Niterói









