A busca por segurança jurídica, estabilidade econômica e dignidade tem atraído um contingente recorde de imigrantes ao Brasil. Segundo dados do relatório Refúgio em Números, o país registrou 454.165 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado entre 2015 e 2024 — volume que representa 95% de todo o histórico nacional acumulado até o final daquele período. Diante desse cenário, a articulação entre a iniciativa privada e o terceiro sector surge como uma engrenagem vital para transformar o acolhimento humanitário em independência financeira.
Um dos principais exemplos dessa transformação corporativa vem do setor de serviços. Desde 2015, a Foundever, companhia global de experiência do consumidor (CX), já contratou 2.186 profissionais em situação de refúgio nas suas operações em São Paulo e Curitiba. Atualmente, a empresa mantém cerca de 700 colaboradores refugiados ativos em seu quadro e, como signatária do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), firmou o compromisso de expandir esse número para 1 mil profissionais até dezembro de 2027.
Da capoeira à supervisão corporativa: histórias de resiliência
Por trás das estatísticas, há trajetórias de profissionais qualificados que precisaram interromper planos em seus países de origem devido a crises geopolíticas. A venezuelana Miccel Manrique, que cursava Direito em seu país natal, migrou há 13 anos. Praticante de capoeira, ela guardava uma profunda admiração pela cultura brasileira antes mesmo de cruzar a fronteira. Hoje, atua como analista na Foundever, onde soma cinco anos de casa.
Aqui existe um ambiente muito humano. As pessoas querem conhecer a nossa história, nossa cultura e fazem a gente se sentir acolhido. Hoje, meus filhos nasceram aqui, são brasileiros e eu sinto que esta também é a minha casa”, afirma Miccel.
O crescimento interno também marca a trajetória da administradora venezuelana Richeily Hernandez, de 33 anos. Ao desembarcar no Brasil em 2018 sem falar o idioma, Rich trabalhou como diarista e vendeu bolos de pote enquanto dominava o português. Em 2019, ingressou na companhia como analista de pesquisas e, devido ao seu desempenho, foi promovida a supervisora — cargo que ocupa há três anos.
A Foundever foi meu primeiro emprego formal no Brasil e também o lugar onde me senti verdadeiramente acolhida. É uma surpresa positiva não apenas ter um trabalho, mas também encontrar espaço para crescer dentro da empresa”, projeta Richeily.
Para o CEO da Foundever no Brasil, Laurent Delache, a diversidade cultural gera impactos que superam as métricas tradicionais de responsabilidade social.
Essas trocas culturais no ambiente de trabalho trouxeram mudanças significativas na governança, na cultura e na gestão de pessoas. Estabelecemos uma comunicação mais transparente, implementamos novas políticas contra o assédio e obtivemos melhorias na satisfação e na retenção de talentos. Ganhamos muito ao apoiar esses grupos”, avalia Laurent Delache.
Alinhamento internacional e redes de apoio estruturadas
A estratégia de inclusão da Foundever envolve parcerias com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e a participação direta em frentes humanitárias, como a Operação Acolhida, realizada em Pacaraima (RR) para monitorar e gerenciar os fluxos migratórios na fronteira. A companhia também ganhou projeção internacional como uma das poucas vozes empresariais convidadas a debater a empregabilidade de migrantes no evento Cartagena +40, ao lado de chefes de Estado da América Latina e do Caribe.
O engajamento da empresa soma-se aos esforços do Fórum Empresas com Refugiados. A entidade, que conta com 144 membros de grande porte no mercado nacional, impulsionou a contratação formal de mais de 17 mil pessoas refugiadas e migrantes até 2025 — consolidando um crescimento de 41% em comparação ao ano anterior.
Para sustentar a meta de atingir mil vagas preenchidas por refugiados até dezembro de 2027, a Foundever aposta na criação de comitês internos de diversidade, equidade e inclusão, além do desenvolvimento de novas frentes de negócios que permitam o atendimento em idiomas nativos, como espanhol, francês e inglês.
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ONG consolida acolhimento para núcleos familiares e mulheres
Se a inserção no mercado formal consolida a autonomia, o primeiro passo para a estabilização social depende de um teto seguro. É nesse cenário que atua a ONG brasileira Planeta de TODOS (PDT). Com oito anos de experiência em conflitos migratórios internacionais, a instituição mantém uma casa de acolhimento no Brasil, localizada em Ribeirão Preto (SP).
O programa atual representa uma evolução significativa no trabalho de assistência da ONG. Enquanto, anteriormente, a iniciativa acolhia prioritariamente homens desacompanhados — como um grupo de sete rapazes afegãos que passaram pela estrutura e hoje já estão integrados, empregados e independentes —, a instituição expandiu seu escopo.
O trabalho passou a contar com apartamentos dedicados exclusivamente a núcleos familiares, oferecendo um ambiente apropriado para casais e famílias, além de uma residência exclusiva para mulheres refugiadas desacompanhadas, um perfil que frequentemente enfrenta mais dificuldades para encontrar apoio em redes tradicionais.
Ao longo dos anos, acumulamos experiências importantes com perfis diversos. Decidimos ampliar nossa atuação para acolher também mulheres que muitas vezes ficam no fim da fila do atendimento humanitário por estarem sozinhas, além de estruturar espaços adequados para as famílias”, explica André Naddeo, diretor-executivo do Planeta de TODOS.
A estrutura conta com uma equipe multidisciplinar que oferece suporte psicológico, aulas de português, capacitação profissional e acompanhamento constante focado na promoção da autonomia dessas mulheres e famílias de forma individualizada.
O idioma como a principal barreira invisível
A urgência por um suporte qualificado se reflete nos relatos dramáticos de quem tenta se integrar. A cubana Alietk Monzón, de 47 anos, relembra as dificuldades extremas que enfrentou ao desembarcar no país com a filha antes de receber o suporte adequado.
Deixei meu país para buscar um futuro melhor. Mas a minha experiência chegando ao Brasil foi péssima; passei muita dificuldade, tive que dividir o aluguel de uma casa com 12 homens, sendo só eu e minha filha de mulheres. Saíamos procurando trabalho diversas vezes, mas não conseguíamos, pois não falávamos português”, relata Alietk.
O depoimento faz coro com os de outros residentes cubanos que encontraram na instituição uma rede de apoio essencial, como Yosvany García (44), Claudia Valle (30), Felix Pantoja (35) e Reinaldo Canton (49). Todos apontam o domínio da língua local como o obstáculo mais complexo para a sobrevivência e a conquista de um espaço profissional, mesmo para quem possui qualificação técnica.
Minha maior dificuldade tem sido aprender português. O idioma é uma barreira muito grande para a integração”, afirma Yosvany. Felix, que trabalha na área de informática, complementa que a falta de fluência impedia sua entrada no mercado.
Com o suporte habitacional e educacional recebido, as pessoas assistidas resgatam a perspectiva de futuro e traçam novas metas de vida. “O suporte ajudará na minha integração de uma maneira estável. Ao aprender o idioma você pode estudar, trabalhar e fazer cursos. Quero futuramente trazer minha mãe e minha enteada”, planeja Claudia Valle. Reinaldo Canton resume o sentimento comum: “Meu objetivo é aprender a falar português, conseguir um trabalho e viver como qualquer ser humano merece viver. Todo imigrante deveria ter esta chance.”
Com informações da Foundever e Planeta de TODOS
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