Dados da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) apontam que os pedidos de asilo no Brasil aumentaram 11% em 2025.  O aumento das solicitações no Brasil acompanha uma tendência que se espalha por todo o continente.  No último ano, as Américas se tornaram a principal região em deslocamento forçado no planeta, superando áreas historicamente críticas como a África Oriental e Austral e o Oriente Médio.

O contingente de refugiados nas Américas alcançou a marca de 22,8 milhões de pessoas, liderado por cidadãos venezuelanos que foram acolhidos, quase em sua totalidade, por outros países da América Latina e do Caribe. O Dia Mundial do Refugiado (20 de junho) funciona como uma data de alerta global.

De acordo com o representante da ACNUR Brasil, Davide Torzilli, mais de 117 milhões de pessoas continuam deslocadas à força no mundo, embora o total geral tenha registrado queda pela primeira vez em mais de uma década.

Proteger uma pessoa refugiada é proteger toda a sociedade. As autoridades de todo o mundo precisam promover autonomia, independência e soluções de longo prazo. Isso significa facilitar o acesso ao emprego formal e ao empreendedorismo, reconhecer qualificações e fortalecer políticas de inclusão”, cobra Torzilli.

Qualificação profissional contra o preconceito

As amigas Anitha, do Benim, e Sylivia, de Uganda (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Uma das grandes barreiras enfrentadas por essa população é o estereótipo de que chegam ao país sem instrução. A comunicadora Anitha Agossou, nascida no Benin, faz questão de desmistificar essa visão enquanto oferece oficinas culturais ao lado da amiga Sylivia Korberwa, de Uganda.

Quando a gente é refugiada, pensam que a gente vem da pobreza, do mato. Mas nós saímos de um lugar de privilégio porque precisávamos vir para cá devido às adversidades, e não por falta de qualificação. Muitas pessoas olham para a gente com desprezo ou medo, mas nós temos educação”, desabafa Anitha, que é formada em Comunicação e Marketing.

Sua amiga Sylivia, graduada em assistência social, trabalhava como bancária em Uganda antes de migrar. Recentemente, ela concluiu o mestrado em Segurança Pública e Justiça na Universidade Federal Fluminense (UFF) (Inserir link da instituição se desejado), onde pesquisou justamente a situação de mulheres africanas imigrantes e refugiadas no Brasil. Hoje, ambas atuam como professoras de idiomas (inglês e francês) na ONG Abraço Cultural.

Feira Rio Refugia celebra cultura e autonomia na Zona Norte

Apesar do crescimento da demanda, a agência avalia que o país avançou em suas políticas nacionais para garantir acesso à permanência legal, ao emprego formal, a serviços essenciais e a oportunidades de inclusão socioeconômica. Este ano, a campanha global da agência foca nas gerações mais jovens para defenderem o direito ao asilo como um bem comum da humanidade, sob o lema: Até Cada Pessoa Estar a Salvo.

No Rio de Janeiro, a data foi celebrada com a realização da feira Rio Refugia, evento coorganizado pela instituição Abraço Cultural, pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Asilo da Cáritas RJ (PARES Cáritas RJ) e pelo Sesc RJ. Criada em 2017, a feira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Estado do Rio de Janeiro pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

O evento ocupou o Sesc Tijuca com uma programação repleta de gastronomia, moda, arte e oficinas mediadas por expositores refugiados de nove nacionalidades: Venezuela, Colômbia, Angola, República Democrática do Congo, Síria, Nigéria, Irã, Cuba e Líbano.

A artesã venezuelana Mili Yanes, que vive no Brasil há 14 anos e obteve a permanência definitiva em 2016, encontrou no país a chance de recomeçar ao lado dos filhos. Hoje, ela já celebra a chegada de três netos nascidos em solo brasileiro. “Eu tenho casa na Venezuela, mas eu sei que o que deixei lá eu não vou mais encontrar. Me identifiquei com o Brasil e criei uma nova vida aqui”, conta a artesã.

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Os desafios do acolhimento na ponta do sistema

O primeiro porto seguro para muitos imigrantes que desembarcam em solo fluminense é o PARES Cáritas RJ. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a instituição realizou cerca de 1,2 mil atendimentos a pessoas de 60 nacionalidades — com destaque para venezuelanos, haitianos e sírios. Ali, eles recebem orientações para regularização documental, apoio psicológico e aulas de Língua Portuguesa.

Aline Thuler, coordenadora geral do Pares Cáritas RJ, aponta que a legislação brasileira de acolhimento é referência internacional, mas a prática cotidiana ainda esbarra no desconhecimento institucional e no preconceito.

Ainda há desconhecimento de quem está na ponta do sistema, o que gera barreiras para o refugiado ser atendido em um posto de saúde ou matricular o filho na escola. Mas o principal desafio é a reinserção profissional. Temos profissionais com graduação e mestrado que não conseguem trabalhar na área porque a burocracia para validar o diploma exige documentos que eles perderam na fuga”, explica Aline.

A coordenadora alerta que esse vácuo documental e a falta de oportunidades formais aumentam o risco de subemprego e de vulnerabilidade à exploração laboral.

É urgente sensibilizar o empresariado. Precisamos explicar que contratar um refugiado é um processo 100% legal, que eles têm os mesmos direitos de qualquer trabalhador brasileiro e que a diversidade enriquece as corporações”, finaliza.

Com informações da Agência Brasil

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