De acordo com o mais recente relatório do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), o Brasil abriga atualmente mais de 2 milhões de imigrantes internacionais, de cerca de 200 nacionalidades. Somente no Estado do Rio de Janeiro, essa população chega a cerca de 80,2 mil pessoas, sendo a comunidade venezuelana a maior delas, com uma estimativa de 680 mil vivendo em todo o país em 2026. E esse número só tende a crescer.
Dados da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) apontam que os pedidos de asilo no Brasil aumentaram 11% em 2025. O aumento das solicitações no Brasil acompanha uma tendência que se espalha por todo o continente. No último ano, as Américas se tornaram a principal região em deslocamento forçado no planeta, superando áreas historicamente críticas como a África Oriental e Austral e o Oriente Médio.
O contingente de refugiados nas Américas alcançou a marca de 22,8 milhões de pessoas, liderado por cidadãos venezuelanos que foram acolhidos, quase em sua totalidade, por outros países da América Latina e do Caribe.
O Dia Mundial do Refugiado (20 de junho) funciona como uma data de alerta global. Este ano, a campanha global da agência foca nas gerações mais jovens para defenderem o direito ao asilo como um bem comum da humanidade, sob o lema: Até Cada Pessoa Estar a Salvo.
Queda histórica no número de deslocamentos forçados
De acordo com o representante da ACNUR Brasil, Davide Torzilli, mais de 117 milhões de pessoas continuam deslocadas à força no mundo, embora o total geral tenha registrado queda pela primeira vez em mais de uma década.
Proteger uma pessoa refugiada é proteger toda a sociedade. As autoridades de todo o mundo precisam promover autonomia, independência e soluções de longo prazo. Isso significa facilitar o acesso ao emprego formal e ao empreendedorismo, reconhecer qualificações e fortalecer políticas de inclusão”, cobra Torzilli.
Apesar do crescimento da demanda, a ACNUR avalia que o país avançou em suas políticas nacionais para garantir acesso à permanência legal, ao emprego formal, a serviços essenciais e a oportunidades de inclusão socioeconômica.
Alerj cria leis para transformar acolhimento em emprego e estudo
Mais do que uma data simbólica, o Dia Mundial do Refugiado reforça a necessidade de transformar solidariedade em política pública permanente. Afinal, promover o acesso de refugiados a uma vida digna no Brasil é uma responsabilidade do poder público.
Para garantir que essa população encontre oportunidades reais de recomeço no território fluminense, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) tem convertido o acolhimento em legislação prática.
Quando uma pessoa refugiada chega ao nosso estado, ela não traz apenas uma história de dor. Ela traz também capacidade de trabalho, cultura, conhecimento e o desejo de reconstruir a própria vida com dignidade. A Alerj trabalha para que o acolhimento se transforme em lei, em acesso a direitos e em oportunidade na sociedade”, afirma o presidente da Casa, deputado Douglas Ruas (PL).
A Alerj reforça a importância de políticas públicas de acolhimento, integração social e acesso ao mercado de trabalho para pessoas refugiadas, migrantes e solicitantes de reconhecimento da condição de refúgio. Entre as principais medidas legislativas em vigor no estado, destacam-se:
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Reserva de vagas no Estado (Lei 11.075/25): Determina a reserva de vagas de trabalho para refugiados e pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão em empresas terceirizadas que prestam serviços ao Governo do Estado do Rio de Janeiro.
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Acesso à universidade (Lei 9.668/22): Autoriza as instituições de ensino superior estaduais, como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a destinarem vagas ociosas a migrantes e refugiados.
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Isenção de taxas para diplomas (Lei 9.776/22): Prevê a isenção de taxas e emolumentos para a realização de tradução juramentada de documentos para imigrantes e refugiados residentes no RJ, reduzindo os custos e entraves para a validação de diplomas.
Venezuelano encontrou oportunidade de emprego na Fiocruz
A trajetória do venezuelano Pedro Lópes Lanz (foto acima), de 51 anos, ilustra bem a importância dessas políticas de incentivo. Há nove anos no Brasil, ele conseguiu superar os obstáculos iniciais e hoje atua como assessor de comunicação da Rede Global de Bancos de Leite Humano da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Quando chegamos a um país como refugiados, enfrentamos muitas dificuldades. A primeira barreira é a língua, depois vem a busca por emprego e a adaptação cultural. O Brasil me acolheu e me deu a oportunidade de reconstruir minha vida”, relata.
Qualificação profissional e combate à xenofobia

Apesar dos avanços nas políticas públicas para acolhimento de refugiados no Brasil, a inclusão de refugiados e migrantes exige mais do que documentação e acesso a serviços. Também passa pelo enfrentamento à xenofobia, ao racismo, à exploração no trabalho e à desinformação.
O assassinato do congolês Moïse Kabagambe, espancado até a morte em janeiro de 2022, na Barra da Tijuca, após cobrar diárias de trabalho atrasadas, tornou-se um marco da vulnerabilidade enfrentada por muitos imigrantes no Rio de Janeiro. O julgamento do caso foi concluído em abril de 2026, com a condenação dos três executores diretos do crime.
Uma das grandes barreiras enfrentadas por essa população é o estereótipo de que chegam ao país sem instrução. A comunicadora Anitha Agossou, nascida no Benin, faz questão de desmistificar essa visão enquanto oferece oficinas culturais ao lado da amiga Sylivia Korberwa, de Uganda.
Quando a gente é refugiada, pensam que a gente vem da pobreza, do mato. Mas nós saímos de um lugar de privilégio porque precisávamos vir para cá devido às adversidades, e não por falta de qualificação. Muitas pessoas olham para a gente com desprezo ou medo, mas nós temos educação”, desabafa Anitha, que é formada em Comunicação e Marketing.
Sua amiga Sylivia, graduada em assistência social, trabalhava como bancária em Uganda antes de migrar. Recentemente, ela concluiu o mestrado em Segurança Pública e Justiça na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde pesquisou justamente a situação de mulheres africanas imigrantes e refugiadas no Brasil. Hoje, ambas atuam como professoras de idiomas (inglês e francês) na ONG Abraço Cultural.
Feira Rio Refugia celebra cultura e autonomia na Zona Norte
No Rio de Janeiro, o Dia Mundial do Refugiado foi celebrado com a realização do Rio Refugia, evento coorganizado pela Abraço Cultural e pelo Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Asilo da Cáritas RJ (Pares Cáritas RJ). Criada em 2017, a feira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial do estado pela Alerj.
O evento ocupou o Sesc Tijuca com uma programação repleta de gastronomia, moda, arte e oficinas mediadas por expositores refugiados de nove nacionalidades: Venezuela, Colômbia, Angola, República Democrática do Congo, Síria, Nigéria, Irã, Cuba e Líbano.
Maioria dos refugiados vem da Venezuela
A estimativa é de que aproximadamente 680 mil venezuelanos vivam no país em 2026. No Estado do Rio de Janeiro, a população estrangeira chega a cerca de 80,2 mil pessoas, e a comunidade venezuelana já se tornou a maior entre os grupos migrantes no território fluminense.
A artesã venezuelana Mili Yanes, que vive no Brasil há 14 anos e obteve a permanência definitiva em 2016, encontrou no país a chance de recomeçar ao lado dos filhos. Hoje, ela já celebra a chegada de três netos nascidos em solo brasileiro.
Eu tenho casa na Venezuela, mas eu sei que o que deixei lá eu não vou mais encontrar. Me identifiquei com o Brasil e criei uma nova vida aqui”, conta a artesã.
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Os desafios do acolhimento na ponta do sistema
No Brasil, instituições públicas, organismos internacionais e organizações da sociedade civil atuam no atendimento a refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes. Essas redes são fundamentais para garantir que refugiados tenham acesso à regularização migratória, documentação, saúde, educação, apoio psicológico, assistência jurídica e oportunidades de emprego.
Entre as principais referências estão a ACNUR, que apoia ações de proteção, integração e políticas públicas; a Pares Cáritas RJ, que oferece acolhimento, orientação jurídica, apoio social e integração local, e o Instituto Adus, voltado à reintegração social e econômica, com aulas de português, capacitação profissional e apoio à inserção no mercado de trabalho.
Criada em 2021, a ONG Venezuelanos Global, apoia outros recém-chegados refugiados e imigrantes de diferentes nacionalidades. “Ainda há muito a ser feito. Não basta apenas dar o peixe; é preciso ensinar a pescar, para que essas pessoas possam criar oportunidades reais para seu próprio sustento e reconstruir sua dignidade”, conclui Pedro, que também faz parte da ONG.

De apoio psicológico a aulas de português
O primeiro porto seguro para muitos imigrantes que desembarcam em solo fluminense é o Pares Cáritas RJ. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a instituição realizou cerca de 1,2 mil atendimentos a pessoas de 60 nacionalidades — com destaque para venezuelanos, haitianos e sírios. Ali, eles recebem orientações para regularização documental, apoio psicológico e aulas de Língua Portuguesa.
Aline Thuler, coordenadora geral do Pares Cáritas RJ, aponta que a legislação brasileira de acolhimento é referência internacional, mas a prática cotidiana ainda esbarra no desconhecimento institucional e no preconceito.
Ainda há desconhecimento de quem está na ponta do sistema, o que gera barreiras para o refugiado ser atendido em um posto de saúde ou matricular o filho na escola. Mas o principal desafio é a reinserção profissional. Temos profissionais com graduação e mestrado que não conseguem trabalhar na área porque a burocracia para validar o diploma exige documentos que eles perderam na fuga”, explica Aline.
A coordenadora alerta que esse vácuo documental e a falta de oportunidades formais aumentam o risco de subemprego e de vulnerabilidade à exploração laboral. “É urgente sensibilizar o empresariado. Precisamos explicar que contratar um refugiado é um processo 100% legal, que eles têm os mesmos direitos de qualquer trabalhador brasileiro e que a diversidade enriquece as corporações”, finaliza.
Com informações da Agência Brasil e Alerj
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