Conseguir o asilo humanitário é apenas o primeiro passo de uma longa jornada para quem foge de conflitos, perseguições e crises globais. De acordo com dados consolidados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o mundo registra mais de 117 milhões de pessoas em situação de deslocamento forçado.
O Brasil acompanha essa pressão humanitária: em um cenário histórico recente, o governo brasileiro chegou a reconhecer mais de 77 mil pessoas como refugiadas em um único ano, segundo o Anuário Refúgio em Números, do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).
Apesar de o país possuir uma das legislações de acolhimento mais avançadas do mundo, a inserção econômica continua sendo o principal gargalo. Um levantamento feito pelo Colettivo, em parceria com o Fórum Empresas com Refugiados da ACNUR Brasil e o Pacto Global da ONU no Brasil, revela uma realidade preocupante: 55% dos refugiados que chegam ao país permanecem sem trabalho.
Entre os que conseguem uma ocupação, apenas 14,9% estão inseridos no mercado formal de trabalho. A barreira do idioma, a falta de redes de contatos (networking), o preconceito e os entraves burocráticos para validar competências barram talentos qualificados.
Redes de apoio e tecnologia aceleram a qualificação
A qualificação técnica voltada para setores de alta demanda, como o de tecnologia, tem se consolidado como uma das principais ferramentas para acelerar a independência financeira de novos moradores no Brasil. Para vencer essas barreiras, o terceiro setor tem desenvolvido ferramentas tecnológicas e trilhas de capacitação com o suporte de grandes corporações.
O programa Acelera Toti: Impulsionando Talentos, desenvolvido pela Toti Diversidade, oferece formação gratuita em tecnologia, economia criativa e empregabilidade para refugiados na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Com o apoio de marcas como a Ancar e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), e patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura (por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – Lei do ISS), o programa prepara os profissionais e fornece infraestrutura essencial, como o empréstimo de computadores.
O projeto Acelera Toti: Impulsionando Talentos oferece nesta edição 40 vagas exclusivas para residentes da região do Grande Rio (capital e região metropolitana). Alinhado aos objetivos de equidade, o processo seletivo reserva critérios rigorosos de diversidade: a turma será composta obrigatoriamente por 50% de mulheres e 50% de homens. As inscrições estão abertas até 7 de julho pelo site totidiversidade.com.br/links/.
O objetivo central é romper as barreiras de inserção no mercado de trabalho formal brasileiro, capacitando os participantes tanto em habilidades técnicas (hard skills) quanto em competências comportamentais (soft skills). A grade curricular foi desenhada para conectar os alunos às demandas reais das empresas.
Além do conteúdo técnico, eles recebem orientação detalhada sobre os direitos e deveres dos migrantes no Brasil, aprendem a elaborar currículo, técnicas para entrevistas de emprego e uso estratégico do LinkedIn, além de fundamentos do Marketing e Marketing Pessoal.
Grade curricular une programação, marketing e empregabilidade
A trilha de aprendizagem tem duração prevista de cinco meses, estendendo-se até outubro. Um dos grandes diferenciais do programa é que não é exigido conhecimento prévio em tecnologia, permitindo que pessoas em transição de carreira ou sem contato anterior com a área possam participar.
Para garantir que a vulnerabilidade social não seja um impedimento para a conclusão das aulas, o programa realiza um acompanhamento individualizado de cada aluno. A organização oferece medidas de apoio estrutural, como o empréstimo de computadores e outros recursos tecnológicos essenciais para que as atividades sejam realizadas em condições adequadas.
Ao final das aulas, em outubro, os alunos receberão um certificado de conclusão e integrarão uma Feira de Talentos. O evento presencial promoverá rodadas de networking, apresentação dos portfólios dos estudantes e interação direta com recrutadores do mercado de trabalho e do setor criativo do Rio de Janeiro.
Do Mundo: plataforma conecta empresas a refugiados
Uma ferramenta importante para aproximar candidatos e recrutadores é a plataforma digital Do Mundo. Lançada pela ONG Estou Refugiado — instituição que atua desde 2015 no combate ao preconceito e na promoção de abrigos —, a ferramenta gratuita funciona como um banco de dados estruturado para que empresas de qualquer porte encontrem profissionais de diferentes nacionalidades.
A meta é que a ferramenta consiga ampliar sua base de atuação para países da América Latina e, em breve, possa também atuar em escala global. “Sempre foi uma vontade nossa ser um movimento social. Começamos trabalhando com a questão da empregabilidade formal, pois esse é o caminho mais rápido para devolver ao refugiado a profissão que exercia no país de origem ou a que gostaria de seguir em um novo lugar”, conta a fundadora e diretora executiva da Do Mundo, Luciana Maltchik Capobianco.
A falta de rede de contatos e o reconhecimento de qualificações são desafios comuns encontrados por quem chega a um novo país. Na Do Mundo, a ideia é que as empresas se cadastrem na plataforma digital de forma gratuita e tenham acesso rápido aos perfis em um banco de dados amplo e organizado.
Os benefícios vão muito além da responsabilidade social ou da reputação da empresa pelo envolvimento com causas humanitárias. A valorização da diversidade ao ter pessoas de diferentes origens e que somam com experiências culturais amplas e novas perspectivas, incrementa a capacidade criativa e enriquece significativamente as relações interpessoais.
A ONG Estou Refugiado presta auxílio emergencial refugiados e imigrantes, além de manter dois abrigos na cidade de São Paulo e financiar aulas de português, essenciais para o acolhimento e a adaptação no Brasil. Em 2015, um grupo de pessoas se uniu em um movimento social chamado Movimento Estou Refugiado, com o objetivo de atuar no acolhimento do estrangeiro que chega ao Brasil em busca de refúgio.
A iniciativa partiu da premissa de que a questão dos refugiados estava envolta em uma densa nuvem de desinformação e preconceito e, em 2019, a Estou Refugiado tornou-se oficialmente uma Organização Não Governamental.
Guia prático: como as empresas podem receber profissionais refugiados
No campo do acolhimento habitacional e corporativo, a ONG Planeta de TODOS atua em parceria com o Grupo TODOS Empreendimentos (franqueador do Cartão de TODOS). O projeto oferece uma trilha de acolhimento e aulas de idiomas por 12 meses, garantindo a posterior recolocação profissional dos imigrantes nas empresas do próprio grupo econômico.
A legislação brasileira tem facilitado a entrada de imigrantes por razões humanitárias, então precisamos, agora, pensar além. Para que tenham a oportunidade de se restabelecerem, temos de colocar em prática iniciativas que foquem em prepará-los para ocupar vagas de trabalho, e a iniciativa privada é a maior aliada nesse processo”, afirma André Naddeo, diretor-executivo da ONG Planeta de TODOS.
Para os empregadores que desejam estruturar suas áreas de Recursos Humanos para a diversidade, especialistas apontam que o processo é mais simples do que parece e não gera custos tributários adicionais. Confira as principais orientações:
1. Implemente ações afirmativas e parcerias com ONGs
A inclusão deve ser encarada de forma estratégica e humanizada. Inclua a contratação de refugiados nas metas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) da companhia. Para divulgar as oportunidades e encontrar os perfis certos, as empresas podem utilizar plataformas como a Do Mundo ou fazer pontes diretas com ONGs especializadas na causa migratória.
2. Entenda a documentação legal
A contratação de refugiados e solicitantes segue as mesmas regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) aplicadas aos cidadãos brasileiros. Os documentos de identificação válidos são:
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Para refugiados reconhecidos: A Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM), que possui equivalência ao RG.
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Para solicitantes de refúgio: O Protocolo de Solicitação de Refúgio, emitido pela Polícia Federal. O documento é temporário, mas é totalmente válido e legal para a efetivação do registro de trabalho.
3. Facilite a comprovação de escolaridade e diplomas
Para cargos de nível fundamental ou médio, a equivalência escolar pode ser obtida diretamente na Diretoria de Ensino de Escolas Estaduais mais próxima da residência do colaborador. Já para a revalidação de diplomas de ensino superior, a ACNUR e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) apoiam projetos nacionais em parceria com a organização Compassiva, em São Paulo, que auxilia profissionais formados no exterior a regularizarem seus títulos (contato via revalidacao@compassiva.org.br).
4. Promova a integração cultural interna
Para evitar ruídos de comunicação e preconceitos na rotina de trabalho, prepare a equipe que irá receber o novo funcionário. O desenvolvimento de cartilhas educativas sobre hábitos culturais, datas comemorativas e costumes religiosos ajuda a construir um ambiente psicologicamente seguro e acolhedor para todos.
Com informações de Assessorias de Imprensa
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