O isolamento geográfico e as barreiras de acesso à saúde ganharam um novo capítulo de esperança em Fernando de Noronha. A 545 quilômetros de Recife, capital de Pernambuco — principal polo de apoio médico para os ilhéus —, o arquipélago conta apenas com o Hospital São Lucas, que presta serviços de média complexidade, obrigando os moradores a enfrentarem cansativas viagens ao continente para tratar casos complexos.
Esse cenário de isolamento tem alimentado altos índices de depressão, ansiedade e insônia na população local. Foi para transformar essa realidade que nasceu o Projeto Noronha, uma iniciativa conjunta entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital da ilha.
Diferente da maioria dos mutirões de saúde no Brasil, que ocorrem de forma isolada, a ação em Noronha foca na continuidade. O projeto já realizou dois mutirões (em fevereiro e maio deste ano), oferecendo 126 consultas médicas gratuitas e distribuindo 221 óleos de canabidiol (CBD).
A iniciativa agora avança para a construção de uma sede futura em um terreno cedido pela Administração local, com o objetivo de consolidar uma rede permanente de suporte, orientação e acolhimento integral para famílias neuroatípicas.
Cuidado compartilhado: o impacto na vida de mães solo e filhos
O projeto trouxe alívio direto para rotinas severas de cuidado monoparental. A professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, enfrentava uma rotina exaustiva como mãe solo de uma criança com Transtorno do Espectro Autista (A) de suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
A sobrecarga entre o trabalho e as crises de agressividade do filho a levou a um quadro de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e distúrbios do sono. Há três meses, o tratamento com CBD trouxe mudanças comportamentais nítidas e diminuição das crises da criança.
O programa destaca-se também por olhar para a saúde de quem cuida. Como resume Ladislau Porto, um dos idealizadores da ação: “Quando a criança está em crise, ela tem a mãe. Quando a mãe está em crise, ela não tem ninguém”.
Rebeca Allen, presidente da associação de mães local, vivenciou esse esgotamento ao desenvolver depressão e TAG, enquanto buscava ajuda para o filho de sete anos (com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial).
Tanto Rebeca quanto o filho iniciaram o uso do CBD em fevereiro; ela recuperou o foco, a organização e o sono, enquanto o filho apresentou redução na agressividade e melhor rendimento escolar e terapêutico.
A demanda por saúde mental é o principal motor dos atendimentos no arquipélago. Dados do relatório de impacto do mutirão de maio apontam o seguinte cenário clínico na ilha:
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Demandas de saúde mental: Representam 70,6% dos motivos de busca por atendimento médico, destacando-se sintomas como ansiedade (25 relatos), insônia (16 relatos) e alterações de humor ou pânico.
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Neurodivergências e condições neurológicas: Correspondem a 41,3% das buscas de pacientes e 6,8% para quadros neurológicos consolidados. Entre os diagnósticos firmados estão TEA (10), TDAH (10) e Transtorno Opositor Desafiador – TOD (2).
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Dor e Sono: Queixas de dores crônicas e osteomusculares somaram 29,6%, enquanto distúrbios do sono motivaram 32% dos atendimentos.
A ciência por trás do canabidiol no neurodesenvolvimento
O interesse científico no extrato da cannabis intensificou-se na última década devido às suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, fundamentais em condições como epilepsia, esquizofrenia e depressão, conforme explica o neurologista voluntário Eduardo de Sá Faveret.
No autismo, o CBD atua diretamente regulando o sistema endocanabinoide, responsável por filtrar estímulos como ruídos, luzes e cheiros. Em pessoas com TEA, esse sistema é reduzido, gerando sobrecarga sensorial. O canabidiol atua esgotando os receptores transientes hiperativos, reduzindo essa hipersensibilidade e controlando a agitação.
Outra vantagem crucial do CBD frente a tratamentos convencionais (como a Risperidona e o Aripiprazol) é a ausência de sedação profunda.
A dose [de outros medicamentos] que deixa muito sedado acaba tendo impacto no tratamento ‘ouro’ para o espectro autista, que é o multidisciplinar. A criança precisa estar acordada para aproveitar a terapia. O canabidiol diminui a agressividade sem dar sono”, esclarece o psiquiatra voluntário Wilson Lessa Junior.
Com foco em gerar evidências científicas robustas sobre os impactos sociais e econômicos da terapia canábica no SUS local, a Abecmed planeja expandir o corpo de pesquisadores na ilha nos próximos meses.
Com informações da Agência Brasil
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