A noite de domingo (15) foi marcada por uma tragédia no bairro de Cascadura, na Zona Norte do Rio de Janeiro que expõe a linha tênue entre racismo e segurança pública. A médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, perdeu a vida após ser atingida por disparos de fuzil durante uma ação violenta da Polícia Militar. A principal linha de investigação aponta que a vítima — uma mulher negra com quase três décadas de dedicação à Medicina — pode ter sido confundida com criminosos pelos agentes que realizavam patrulhamento na região.
De acordo com informações de testemunhas e registros preliminares, Andréa havia acabado de sair da residência de seus pais. Ela conduzia seu veículo, um Toyota Corolla, pela Rua Palatinado, quando foi interceptada por viaturas policiais. Vídeos que circulam em redes sociais registram o momento da abordagem agressiva, com agentes de segurança gritando ordens de parada.
Uma testemunha gravou o momento em que o carro da médica é cercado pelos agentes: “Desce irmão, vai morrer! Vai morrer, irmão, desce!”, gritou um policial. Imagens mostram o momento em que os policiais e chegam a bater com fuzil na porta da motorista. Ao acessarem o interior do carro, os agentes encontraram a médica já sem sinais vitais.
Repercussão e luto na saúde
A morte de Andréa Marins Dias, que era ginecologista especializada em casos de endometriose e cirurgiã com vasta experiência na área de Oncologia. provocou forte reação de entidades de classe e autoridades. Em nota, o Ministério da Saúde destacou as quase duas décadas de trajetória da profissional no cuidado de pacientes no Instituto Nacional de Câncer (Inca).
Ao longo de sua atuação, contribuiu para o cuidado humanizado de pessoas com câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, integrava a equipe do Hospital do Câncer IV, unidade especializada em cuidados paliativos em Vila Isabel, na zona norte do Rio.
Neste momento de tristeza, o Ministério da Saúde se solidariza com familiares, amigos, colegas de trabalho e pacientes, expressando suas mais sinceras condolências”, ressaltou em nota.
O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj)emitiu nota de pesar, exigindo rapidez e rigor na apuração das circunstâncias do óbito manifestou indignação com a morte da médica e pediu investigação criteriosa às autoridades.
O Conselho pede às autoridades todo rigor em relação à apuração do caso, independentemente de qualquer circunstância, e lamenta a situação de insegurança pública em que, diariamente, médicos e toda a sociedade estão sujeitos.”
A Unimed Nova Iguaçu, instituição à qual a médica era vinculada, também manifestou solidariedade aos familiares e pacientes e agradeceu a dedicação da profissional, “sempre marcada pela dedicação à saúde suplementar e ao cooperativismo”.
A Associação dos Funcionários do Instituto Nacional de Câncer (Afinca) reforçou em nota o compromisso com a memória da profissional, que deve ser tratada “como legado de dedicação à medicina e ao serviço público”.
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‘Até quando vamos perder pessoas negras para a violência?’
No âmbito político, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, lamentou o episódio e questionou a eficácia das atuais políticas de segurança, destacando o impacto da violência sobre a população negra.
Até quando a ausência de políticas eficazes de segurança pública continuará produzindo cenas como essa? Até quando vamos perder pessoas negras para a violência?”, questiona a ministra.
A ministra reforçou que o ministério acompanha o caso de perto para garantir que haja uma investigação rápida e rigorosa e que os responsáveis sejam devidamente processados e punidos. Ela ainda sublinhou a dor de perder uma profissional que rompeu barreiras para acessar a universidade e o mercado de trabalho.
Sabemos o quanto custa para uma mulher negra acessar a universidade e se tornar médica. É doloroso perder Andréa a tudo o que ela representa”, afirmou Anielle, ao acrescentar que está pressionando as autoridades responsáveis para que o crime seja rapidamente esclarecido e os responsáveis, presos.
Carro da médica não tinha as mesmas características do veículo suspeito
Em nota oficial, a Polícia Militar informou que equipes do 9º BPM (Rocha Miranda) estavam em busca de um veículo T-Cross branco, utilizado por suspeitos de praticar assaltos na área. Segundo a corporação, ao avistarem veículos com características semelhantes e uma motocicleta em Cascadura, houve uma tentativa de abordagem que resultou em perseguição.
A PM afirma que houve um confronto armado na Rua Palatinado. Contudo, a dinâmica que levou aos disparos contra o carro da médica — que não possuía as mesmas características do veículo descrito na denúncia original — ainda precisa ser esclarecida pela perícia técnica.
Ainda segundo a PM, os agentes deram ordem para que os suspeitos se apresentassem, mas os veículos deixaram o local, dando início a uma perseguição. Ao passarem pela Rua Palatinado, houve troca de tiros entre policiais e criminosos.
PMs envolvidos são afastados: câmeras corporais estavam desligadas
A Secretaria de Estado de Polícia Militar lamentou a morte e informou que, por determinação do secretário, Marcelo de Menezes Nogueira, foi instaurado um procedimento para apurar os fatos ocorridos durante a operação. Os três policiais militares que participaram da ação foram afastados preventivamente das ruas até a conclusão das investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que coordena o inquérito.
As armas utilizadas e as imagens das câmeras corporais dos policiais foram entregues na delegacia. Uma nova perícia foi realizada no veículo de Andréa nesta segunda-feira (16) para identificar a trajetória dos projéteis e determinar a origem dos disparos que causaram a sua morte. Já as câmeras não vão ajudar muito nas investigações porque simplesmente elas estavam “estavam descarregadas no momento da ocorrência”.
A Secretaria da Polícia Militar informou que os fatos seguem sob apuração integral da área correcional. “Vale ressaltar que na corporação existem normas rígidas que determinam que os policiais, ao perceberem que há qualquer tipo de falha ou mau funcionamento das câmeras, devem regressar à unidade de origem para substituição dos equipamentos”, diz a nota da PM.
Com informações da Agência Brasil e G1 (atualizado em 17/03/26)


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