O ex-presidente Jair Bolsonaro, de 70 anos, deixou a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na tarde desta segunda-feira (16/03), seguindo para a unidade semi-intensiva do Hospital DF Star. A nota oficial divulgada por Michelle Bolsonaro fala em “melhora significativa” no quadro de pneumonia bacteriana bilateral decorrente de uma broncoaspiração que o levou a ser internado às pressas na última sexta-feira, 13.
Apesar disso, o episódio deixa no ar uma névoa de questionamentos sobre a velocidade da evolução do quadro e o timing político milimétrico da crise respiratória. Para um apenado que cumpre 27 anos e três meses de reclusão por tentativa de golpe de Estado e crimes correlatos, a saúde parece ter se tornado o principal ativo de uma defesa que tenta, a todo custo, dobrar o Supremo Tribunal Federal (STF) em busca da prisão domiciliar humanitária.

O ‘enigma’ da véspera: onde estava a família?

O ponto mais intrigante da cronologia não está nos pulmões, mas na agenda de visitas a Bolsonaro na prisão antes de mais uma internação. O ex-presidente tem direito a receber familiares às quartas e quintas-feiras, com opções de horário entre 8h e 16h, conforme regras estabelecidas pelo STF. No entanto, na última quinta-feira (12), véspera da internação por motivo “grave”, parece que nenhum parente esteve com ele.

Ou se esteve, ninguém suspeitou que ele não estava tão bem de saúde a ponto de precisar ser internado numa UTI. Afinal, se o quadro era de uma pneumonia bilateral iminente, como ninguém da família — sempre tão atenta à “vulnerabilidade” do ex-mandatário — não notaria sinais de mal-estar? Ou o quadro só se tornou “conveniente” quando o isolamento político na Papudinha apertou?

‘Perfil de atleta’: 5 km de caminhada e futebol antes da crise

Relatórios médicos enviados ao STF, pintam um cenário de normalidade absoluta horas antes da UTI. Um relatório feito pela médica Ana Cristina Neves, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, durante o plantão noturno na véspera da internação, revelou que Bolsonaro estava em condições clínicas estáveis. Ele chegou a caminhar por 5 quilômetros durante o dia. À noite assistiu a uma partida de futebol, recusando-se a receber a medicação para uma nova crise de soluços

A virada no quadro de saúde de Bolsonaro em menos de 24 horas

A evolução de um “atleta caminhante” para um paciente de UTI em menos de 6 horas levanta suspeitas sobre a “fatalidade” do episódio.

  • Atividade física: Na quinta-feira, dia 12, Bolsonaro caminhou 5 quilômetros na área externa.

  • Respiração normal: Às 20h40, estava “lúcido, orientado e respirando normalmente em ar ambiente”

  • Saturação: Sua oxigenação era de 93% (levemente abaixo do normal, que é de 95% para pessoas saudáveis, mas estável para um paciente de sua idade).
  • Lazer: Assistiu pela TV do seu quarto à vitória por 2 a 1 do Vasco sobre o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro
  • Recusa de medicamento: Chegou a recusar medicação para uma nova crise repentina de soluços. “Iniciou há pouco crise de soluço, não quis medicação agora, informou que irá tomar após o jogo”, diz o laudo.
  • Náuseas e tremores – Horas depois, já na madrugada da sexta, dia 13, o quadro mudou, e a saturação chegou a marcar 82%, índice considerado baixo. Ele começou a apresentar sintomas como náuseas e tremores por volta das 2h.
  • Febre e calafrios – Às 6h45, a equipe foi acionada para avaliá-lo após os episódios de calafrios da madrugada. No exame clínico, o ex-presidente apresentava febre de 38,7% e queda na oxigenação (82%).
  • Suporte de oxigênio – Mesmo após medicação inicial, a febre chegou a 39,1°C e a saturação subiu até 86%. Diante do quadro, foi iniciado suporte de oxigênio, e a equipe decidiu pela remoção imediata para o hospital.

Transporte rápido pelo Samu fez diferença, diz médico

Médico particular de Bolsonaro, o cardiologista Brasil Caiado – primo do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, aliado político do ex-presidente – foi informado da situação, chegou ao local e concordou com a remoção.

O transporte de Bolsonaro da Papuda para o DF Star foi realizado por equipe do Samu do Distrito Federal, tendo iniciado às 8h22, com chegada às 8h55 no hospital, onde imediatamente Bolsonaro foi internado na UTI.

Chegada de Bolsonaro ao DF Star é cercada por forte esquema de segurança (Fotos: Breno Esaki / Metrópolis)

Segundo os médicos responsáveis pelo atendimento, o diagnóstico confirmado foi de broncopneumonia bilateral aspirativa, causada pela entrada de conteúdo gástrico nos pulmões após episódios de refluxo e vômito. Durante entrevista, a equipe médica do DF Star afirmou que a rapidez no atendimento foi fundamental.

O fato de ele ter sido trazido rapidamente ao hospital fez diferença. Quando há uma infecção importante, às vezes uma hora muda tudo”, afirmou o cardiologista Leandro Echenique.

Mesmo cercado de todos os cuidados, a equipe médica explicou que o quadro que levou à internação evoluiu muito rápido. Bolsonaro  recebeu antibióticos intravenosos e acompanhamento clínico. Ele não necessitou de intubação e manteve a consciência durante todo o período na UTI, o que indica uma boa evolução do quadro.

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Regalias médicas: a farsa da falta de assistência

Bolsonaro recebia visitas médicas duas vezes por dia na Papudinha, diz relatório da PM

Apesar de tentar usar o novo quadro clínico como mais um argumento para pedir novamente a prisão domiciliar humanitária, a defesa do ex-presidente deve ter trabalho para explicar que ele não está sendo bem assistido na Papudinha. Ao menos, por parte da equipe médica do Complexo Penitenciário da Papuda e pelos próprios médicos particulares que acompanham Bolsonaro.

Desde janeiro, quando foi transferido da sede da Superintendência da Polícia Federal em Brasília, para a Papudinha, o ex-presidente recebia acompanhamento médico frequente. É o que revela outro relatório, feito pela Polícia Militar do DF e também encaminhado ao STF, na véspera da internação, detalhando a rotina do ex-presidente entre os dias 5 e 11 de março.

No período, Bolsonaro recebeu em média duas visitas médicas por dia nas confortáveis dependências que ele ocupa sozinho na Sala do Estado-Maior dentro da Papudinha. Parte dos atendimentos médicos, inclusive, foi com médicos particulares do ex-presidente. Ele conta com equipe médica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal à disposição 24 horas e todo atendimento é registrado e posteriormente enviado ao STF.
Bolsonaro também vinha realizando com frequências as sessões de fisioterapia e de tratamento com estímulos elétricos para amenizar os soluços, autorizadas por Moraes. Nos registros da penitenciária, consta ainda que o ex-presidente vinha se dedicando a manter o seu “perfil de atleta”, realizando atividades físicas regularmente, com caminhadas na área externa de seu alojamento.
O último relatório da PM indica ainda visitas periódicas de familiares – os filhos Flávio e Carlos e a esposa Michelle.  Advogados têm acesso quase diário ao apenado e  assistência religiosa ocorre às terças ou sextas por um período máximo de uma hora. Ao menos neste mesmo período (5 a 11 de março), Bolsonaro não leu nenhum livro – o STF havia autorizado o benefício da leitura para reduzir a sua pena.

A narrativa da defesa e a realidade na Papudinha

A tese da defesa de que a Papudinha é incompatível com o tratamento de Bolsonaro cai por terra diante dos fatos.
  1. Duas visitas médicas por dia: Entre 5 e 11 de março, ele recebeu assistência constante, inclusive de seus próprios médicos particulares.

  2. Equipe 24 horas: O ex-presidente tem à disposição uma equipe da Secretaria de Saúde do DF, incluindo serviços do Samu.

  3. Fisioterapia e estímulos: Todas as terapias exigidas para soluços e mobilidade estavam sendo rigorosamente cumpridas.

Realidade na Papudinha Narrativa da defesa
Caminhadas de 5 km e futebol na TV “Risco de vida e fragilidade extrema”
2 atendimentos médicos diários “Incompatibilidade do ambiente carcerário”
Médicos particulares autorizados “Isolamento e falta de assistência”

A “coincidência” internacional: o fator Beattie

Outra coincidência coloca o novo quadro clínico de Bolsonaro – ou pelo menos a real urgência e gravidade dele – sob suspeita. O mal-estar súbito ocorreu, curiosamente, menos de 24 horas após o ministro do STF, Alexandre de Moraes. voltar atrás e proibir a visita de Darren Bettier, assessor de Donald Trump, ao ex-presidente na Papudinha.

Moraes resolveu reverter a sua própria decisão inicial após o chanceler Mauro Vieira declarar que a visita poderia configurar “indevida interferência” nos assuntos internos do País, sobretudo em ano eleitoral.

Beattie havia sido nomeado por Donald Trump no mês passado para supervisionar a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil, e teve o acesso ao País cancelado na sexta-feira (13) pelo governo brasileiro. Em declarações à imprensa, o presidente Luís Inácio Lula da Silva disse que  só deverá revogar a decisão se o governo americano suspender a sanção ao ministro da Saúde, Antônio Padilha, que está proibido de entrar nos EUA desde setembro de 2025.
Na madrugada de sexta, Bolsonaro “broncoaspirou”. Para aliados, um infortúnio clínico; para observadores críticos, uma estratégia clássica de deslocamento: se não pode receber o aliado na prisão, o hospital torna-se o palco mais acessível e palatável para a opinião pública. Afinal, desde a facada em 2018, Bolsonaro, familiares e aliados usam seu estado de saúde para causar comoção nacional e angariar a compaixão – e os votos – dos brasileiros

O estado de saúde atual de Bolsonaro, segundo os médicos

Segundo o boletim médico divulgado no domingo, seu quadro clínico era estável e ele teve uma melhora da função renal de sábado (14) para domingo (15), mas devido a uma elevação dos marcadores inflamatórios em seu sangue, os médicos decidiram ampliar a dosagem de antibióticos.

No novo boletim médico divulgado pelo Hospital DF Star,  na tarde desta segunda-feira (16), consta que o ex-presidente apresentou “melhora clínica e laboratorial nas últimas 24 horas”. O texto diz que ele teve uma recuperação da função renal e a melhora parcial dos marcadores inflamatórios. Segundo o hospital, isso indica uma resposta favorável à antibioticoterapia instituída no tratamento.
Bolsonaro segue com suporte clínico intensivo e fisioterapia respiratória. No entanto, ainda não há previsão de alta. O boletim é assinado pelo cirurgião geral Cláudio Birolini; pelos cardiologistas Lenadro Echenique e Brasil Caiado; pelo coordenador da UTI Geral Antônio Aurélio de Paiva Fagundes Jr; e pelo diretor geral Alisson Barcelos Borges.

Veja o último boletim médico na íntegra:

Brasilia, 16 de março de 2026 – O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva do hospital DF Star, em tratamento de pneumonia bacteriana bilateral decorrente de episódio de broncoaspiração. Apresentou melhora clínica e laboratorial nas últimas 24 hrs. com recuperação da função renal e melhora parcial dos marcadores inflamatórios, denotando resposta favorável à antibioticoterapia instituida. Segue com suporte clínico intensivo e fisioterapia respiratória e motora. Não há previsão de alta da UTI neste momento.

Jornalistas acusados de ‘desejar a morte de Bolsonaro’ sofrem ameaças e agressões

Entidades que representam jornalistas brasileiros repudiaram as agressões e ameaças sofridas por equipes escaladas para a cobertura diante do hospital particular onde o ex-presidente Jair Bolsonaro está internado, em Brasília. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) divulgaram notas cobrando proteção aos profissionais.

Segundo a Abraji, alguns jornalistas passaram a receber ameaças e ofensas após uma influenciadora digital bolsonarista divulgar um vídeo em que acusa profissionais de imprensa que aparecem em imagens gravadas na porta do Hospital DF Star, à espera de informações atualizadas sobre o estado de saúde de Bolsonaro, de desejarem a morte do ex-presidente.

O vídeo foi compartilhado por parlamentares e pela própria ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que tem mais de 8 milhões de seguidores em suas redes sociais. Ainda segundo a Abraji, montagens e vídeos produzidos com o uso de inteligência artificial foram divulgados, inclusive simulando que uma das profissionais é esfaqueada. Fotos de filhos e parentes de jornalistas estão sendo usadas como instrumento de intimidação e assédio.

Também em nota, a Fenaj e o Sindicato do DF cobraram proteção aos profissionais  por parte da Polícia Militar na frente do hospital para impedir “cerceamento e agressões” ao trabalho da imprensa “por parte de militantes” e que  o Ministério Público identifique e punam os autores das ameaças virtuais e os responsáveis pela exposição indevida de dados dos profissionais.

As entidades exigem que as empresas de jornalismo proporcionem condições para que seus empregados possam trabalhar, afastando-os do hospital caso não se sintam seguros e oferecendo a eles apoio jurídico.

Reafirmamos que a liberdade de imprensa é um pilar fundamental da democracia. O jornalismo é essencial para levar fatos ao conhecimento público, e não pode ser cerceado por métodos de coação física ou psicológica. Não aceitaremos a intimidação como método político”, concluem as entidades.

Ataques à imprensa: cortina de fumaça

Enquanto Michelle Bolsonaro usa as redes sociais para inflamar militantes contra jornalistas que aguardam informações na porta do hospital, a estratégia parece clara: desviar o foco das contradições do laudo. O assédio virtual a profissionais de imprensa, incluindo o uso de IA para simular agressões, serve para blindar a “verdade” da família sobre a internação.

O veredito clínico: Bolsonaro responde bem aos antibióticos e a função renal foi recuperada. Mas ainda não há previsão de quando o ‘atleta da Papudinha’ poderá seguir para um quarto, de onde deverá voltar para o  19º Batalhão de Polícia Militar (BPM) do Distrito Federal para cumprir sua pena.

Em 5 de março, a Primeira Turma do STF já havia negado, por unanimidade, o pedido da defesa para transferir o ex-presidente para prisão domiciliar.Os advogados de Bolsonaro alegaram “existência de risco de vida e incompatibilidade entre o ambiente carcerário e o rigor das terapias contínuas exigidas” por Bolsonaro. O colegiado, contudo, afastou as afirmações.

Agora uma nova pressão insurge sobre o STF, usando mais um laudo médico. A pergunta permanece: até quando a saúde será usada como instrumento de manobra eleitoral e jurídica?

Com informações de UOL, Metrópolis, Agência Brasil e outros

 

 

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