Ser mãe é um desafio diário.  É lidar com a insegurança e os questionamentos em relação à educação dos filhos, tudo isso, somado ao cansaço mental e à exaustão. Para as mães de pessoas com síndromes, transtornos, doenças raras ou deficiência, a maternidade se torna ainda mais desafiadora, além da busca pelo tratamento adequado para o filho, o acompanhamento das terapias que ele necessita para o desenvolvimento físico e intelectual, tudo demanda uma rotina ainda mais árdua, e muito mais  desgastante.

E ao final de um dia de sacrifícios e obstáculos, como fica essa mãe quando chega em casa? Quem cuida dela? Como será que ela se sente emocionalmente?

Sabemos que o(a) filho(a),  em geral, recebe atendimento multidisciplinares, porém a mãe atípica esconde uma bomba relógio, prestes a explodir a qualquer momento, devido a necessidade de gerenciar tantas demandas, conflitos, angústias, questionamento e dúvidas sobre a saúde de seu filho (a). Essa mãe precisa também de cuidado.

Para a psicóloga  Mariana Bonnás, que dedica seus atendimentos exclusivos às mães atípicas, nem sempre a mãe terá tempo para fazer algo para ela, devido a sobrecarga diária. Mas ter um acompanhamento psicológico é essencial. Durante as sessões, a mãe além de estar sendo cuidada durante 50 minutos com toda atenção voltada a ela, aprende a lidar com os desafios do dia a dia, fazendo com que  se sinta confiante e acolhida.

Por conta da demanda de horários da maternidade atípica, quase sempre o atendimento é online.  Ela enfatiza que  mesmo por meio de uma tela,  o atendimento leva conforto e autoconfiança para enfrentar os desafios com mais tranquilidade e para conquistar a retomada da vida sem carregar culpas por parte desta mulher.

Mães atípicas: a jornada entre o cuidado e a invisibilidade

A importância do suporte emocional e social para quem sustenta a rede de cuidado no autismo

A psicóloga Aline de Carvalho Peres propõe uma reflexão necessária sobre a visibilização da mãe no contexto do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora a campanha Abril Azul seja focada na conscientização sobre a condição, ela destaca que o diagnóstico transforma profundamente a vida da principal cuidadora, exigindo uma reorganização emocional e prática que muitas vezes resulta em sobrecarga.

  • Impacto do diagnóstico: A confirmação do autismo altera toda a dinâmica familiar, colocando a mãe em uma jornada de aprendizado urgente, marcada por medos e pela necessidade de se tornar a gestora de terapias e adaptações escolares.

  • A sobrecarga invisível: A rotina exaustiva de consultas e manejo de crises, somada à dificuldade de acesso a serviços especializados, contribui para quadros de ansiedade, esgotamento e depressão.  “Cuidar de quem cuida” ainda é uma prioridade negligenciada.

  • O julgamento social: Um dos maiores obstáculos enfrentados é o olhar crítico da sociedade, que frequentemente interpreta comportamentos típicos do autismo como falta de educação, gerando isolamento social e emocional para a família.

  • Resiliência e ressignificação: Apesar das dificuldades, a maternidade atípica é apresentada como um espaço de desenvolvimento de empatia e valorização de pequenas conquistas, onde o conceito de desenvolvimento é ressignificado para além de padrões lineares.

Para Aline, a conscientização real deve ir além de símbolos e cores, traduzindo-se em políticas de inclusão, suporte à saúde mental das famílias e um acolhimento social que reconheça o papel fundamental e solitário de muitas dessas mães.

Veja o artigo completo abaixo:

Palavra de Especialista

Mães atípicas: entre a sobrecarga invisível e o amor que ressignifica

Por Aline de Carvalho Peres*

Abril é reconhecido mundialmente como o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista. Durante esse período, campanhas ganham força, prédios são iluminados de azul e o debate sobre inclusão se amplia de forma significativa. No entanto, por trás de cada diagnóstico, existe uma figura que ainda permanece pouco visibilizada: a mãe.

Falar sobre autismo também é, necessariamente, falar sobre maternidade atípica. O diagnóstico não chega sozinho. Quando uma criança recebe o diagnóstico de autismo, não é apenas a vida dela que se transforma. Toda a dinâmica familiar é impactada, especialmente a da mãe, que, na maioria das vezes, se torna a principal cuidadora.

Junto com o diagnóstico, chegam dúvidas, medos, excesso de informações e a necessidade urgente de reorganizar a vida. É o início de uma jornada que mistura amor, aprendizado e, muitas vezes, solidão.

O Abril Azul cumpre um papel fundamental ao trazer visibilidade para o autismo. No entanto, a conscientização precisa ir além da informação sobre a condição. É necessário ampliar o olhar para incluir também quem sustenta o cuidado cotidiano.

Mães atípicas vivem uma rotina que exige atenção constante aos estímulos, às crises, às terapias, à escola e às interações sociais. São mulheres que frequentemente acumulam funções e precisam se reinventar diariamente. Ainda assim, muitas seguem invisíveis.

Durante o Abril Azul, fala-se muito sobre aceitação. Mas é importante lembrar que aceitar também é um processo — e ele precisa ser acolhido, não apressado. A rotina de uma mãe de criança com autismo pode ser intensa e exaustiva. Consultas, intervenções terapêuticas, adaptações escolares, manejo de crises e, muitas vezes, a dificuldade de acesso a serviços especializados fazem parte do dia a dia.

Nesse contexto, não é incomum o surgimento de quadros de ansiedade, esgotamento emocional e sintomas depressivos. Cuidar de quem cuida ainda é um desafio pouco priorizado. Um dos maiores sofrimentos dessas mães está no olhar social. Crises em público, dificuldades de interação ou comportamentos repetitivos da criança são frequentemente interpretados como falta de limite ou má educação. Esse julgamento não apenas desinforma — ele isola. E o isolamento adoece.

Apesar dos desafios, há uma força que emerge dessas vivências. Mães atípicas desenvolvem uma capacidade singular de adaptação, empatia e leitura emocional. Aprendem a valorizar conquistas sutis e a respeitar o tempo único de cada criança. Elas mostram, na prática, que desenvolvimento não é uma linha reta — e que cada avanço carrega um significado profundo.

Falar sobre autismo no mês de abril não deve se limitar a campanhas simbólicas. Conscientizar é promover inclusão real, garantir acesso a tratamento, acolher famílias e, sobretudo, reconhecer que, por trás de cada criança, existe uma rede — e, muitas vezes, uma mãe que sustenta tudo isso quase sozinha.

Dar visibilidade às mães atípicas é ampliar o debate sobre saúde mental, suporte social e humanidade. Porque inclusão não acontece apenas na escola ou no consultório. Ela começa no olhar.

Aline Peres de Carvalho é psicóloga formada pela PUC-PR, com 29 anos de atuação clínica. Possui especializações em transtornos do humor, terapia cognitivo-comportamental para adolescentes e adultos, terapia dialética comportamental, orientação familiar, neurociência e comportamento humano, além de formação em psicologia sistêmica. Também atua na área organizacional, com experiência em desenvolvimento de grupos, coaching, mentoria e programas de psicoeducação voltados ao autoconhecimento, fortalecimento emocional e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

Com Assessorias

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