De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 5% da população brasileira é composta por pessoas com deficiências auditivas. O estudo aponta que esta parcela corresponde a mais de 10 milhões de cidadãos, dos quais 2,7 milhões possuem surdez profunda e, por isso, não escutam absolutamente nada. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a estimativa é de que 900 milhões de pessoas podem desenvolver surdez até 2050.
Além dos desafios já enfrentados normalmente pelos deficientes auditivos, a pandemia agravou ainda mais suas dificuldades. A barreira da comunicação impede que estas pessoas tenham autonomia e liberdade para realizar atividades simples, como fazer compras, o que já compromete o bem-estar físico, psíquico e social. Com a pandemia e as consequentes restrições e alterações no nosso modo de vida, o impacto na saúde mental dos deficientes foi ainda maior.
Realidades agravadas na pandemia
Segundo a Associação Brasileira de Medicina do Trabalho (ABMT), uma parcela de 3,2% dos brasileiros surdos, ou com perda parcial da audição, sentiu a dificuldade de comunicação se acentuar na pandemia. Só a utilização de máscaras já trouxe uma série de obstáculos para estas pessoas.
O uso obrigatório prejudicou bruscamente a comunicação de surdos e pessoas com deficiência auditiva de todos os tipos: as que têm resquícios de audição e implantes, as que usam a leitura labial e aquelas que utilizam a língua brasileira de sinais, a Libras. Ou seja, o cenário atual afetou todas as realidades da deficiência auditiva.
Conforme um estudo publicado pela Hearing Review, revista que é referência na área, a máscara comum pode atenuar de 3 a 4 decibéis, e a máscara N95, utilizada especialmente por profissionais da saúde, até 12dB, abafando o som e tornando a fala ininteligível para algumas pessoas com deficiência auditiva.
Mesmo a máscara com transparência ainda não possui estudos ou informações fidedignas quanto à sua segurança e eficácia, pois muitas são confeccionadas de forma caseira, além de embaçar, comprometendo a leitura orofacial pelo deficiente auditivo. Como a linguagem de sinais não é amplamente praticada/conhecida pela comunidade ouvinte, o prejuízo se torna maior.
O suporte da língua de sinais é muito importante, mas não consegue suprir a demanda de informação e ter o alcance necessário. Além disso, nem toda pessoa surda foi educada em Libras, sendo sua comunicação baseada em aparelho auditivo, sempre associada à leitura labial.
Para quem tem deficiências auditivas, as tarefas cotidianas, que já não são fáceis, se transformaram em momentos extremamente exaustivos, gerando desgaste, ansiedade, desmotivação, medo, irritação e a dura consciência de existir em uma sociedade sem recursos apropriados e suficientes para oferecer o mínimo de acesso e integração.
Como ajudar
Uma alternativa para melhorar a inclusão dos deficientes auditivos é a acessibilidade às informações por meio do uso de legendas, presença de intérprete de Libras em Unidades de Saúde, hospitais e clínicas, além do uso de tecnologias para facilitar a comunicação, como o Google Transcriter e o Google Tradutor.
Outra medida é incentivar a participação do deficiente auditivo em grupos e comunidades de apoio em redes sociais, como a Central Libras/Coronavírus, os Programas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da PUC do Paraná e aplicativos do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A melhor forma de se solidarizar é, simplesmente, se colocar no lugar do outro. Se o momento atual já é crítico para quem não possui limitações, imagine para aqueles que têm, principalmente em uma sociedade cuja maioria prefere se fazer de muda, cega e surda.
Psiquiatra geral, da infância e adolescência, preceptora na residência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM) e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Contatos: daniellehadmoni@vidaeacao.com.br. Instagram: @psiquiatra_danielle
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