O câncer de pâncreas é um dos tumores mais difíceis de rastrear, fazendo com que cerca de 80% dos pacientes recebam o diagnóstico já em estágio avançado ou metastático, quando a taxa de sobrevida em cinco anos é de apenas 3%. Um estudo inovador apresentado recentemente na Asco 2026, a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, mostrou que a terapia-alvo daraxonrasibe pode reduzir em 60% no risco de morte de pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático (o câncer de pâncreas avançado) e quase dobrou o tempo de sobrevida dos pacientes com previamente tratados (de 6,7 para 13,2 meses) em relação ao grupo tratado com quimioterapia.
A novidade é celebrada entre especialistas brasileiros como a grande fronteira para o desenvolvimento de novos medicamentos capazes de combater outros tipos de câncer que têm uma evolução semelhante com o câncer de pâncreas, Embora o estudo tenha sido realizado exclusivamente em pacientes com câncer de pâncreas, seus resultados fortalecem a estratégia de desenvolver medicamentos capazes de atuar em diferentes tumores que compartilham a mesma alteração molecular, como como os cânceres de pulmão, intestino e outros tumores.
Tão importante quanto dobrar a sobrevida na população do estudo é o fato de uma terapia funcionar em um alvo antes ‘indrogável’ e que está fortemente presente em outros tipos de câncer”, afirma o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR).
Para o oncologista Thiago Branco, que atua no Instituto Nacional do Câncer (Inca), o principal legado da descoberta é reforçar uma hipótese perseguida há décadas pela oncologia: a possibilidade de bloquear de forma eficaz um dos principais mecanismos responsáveis pelo crescimento de diversos tumores.
No início dos anos 2000, o tratamento para o câncer de pâncreas oferecia uma expectativa de vida bastante limitada. Embora os resultados observados no estudo representem um avanço importante para esses pacientes, o aspecto mais relevante é que eles demonstram ser possível atuar diretamente sobre uma via biológica que, por muitos anos, foi considerada um dos maiores desafios da oncologia molecular“, afirma.
Alvo antes indrogável está presente em outros tipos de câncer
Ainda em fase experimental de testes, o daraxonrasib já representa a primeira terapia-alvo oral com benefício robusto em uma doença tão agressiva. Até então, quando a primeira linha de quimioterapia falhava, as opções de segunda linha apresentavam baixa eficácia. Mas o estudo chama atenção não apenas pelos números, mas também pelo alvo molecular envolvido: as alterações da via RAS, consideradas praticamente impossíveis de serem bloqueadas por medicamentos.
O interesse em torno da descoberta está relacionado ao papel da via RAS no desenvolvimento do câncer. Esse mecanismo funciona como um regulador do crescimento celular e, quando sofre mutações, pode permanecer ativado de forma contínua, estimulando a multiplicação descontrolada das células tumorais. Durante décadas, essa alteração foi considerada um alvo difícil de ser explorado terapeuticamente.
Alterações envolvendo a família RAS estão presentes em aproximadamente 20% de todos os tumores humanos. As estimativas indicam que mutações nessa via estão presentes em cerca de 45% a 50% dos casos de câncer colorretal, em 30% a 35% dos cânceres de pulmão, além de parte dos tumores urogenitais, de vias biliárias e de alguns tumores do sistema nervoso central. Por isso, o impacto do estudo vai além do câncer de pâncreas.
Leia mais em Câncer Tem Cura – Especial Asco 2026
Oncologia de precisão: avanços podem mudar o futuro do câncer
Novo medicamento dobra sobrevida no câncer de pâncreas
Ciência confirma elo do câncer com metabolismo e estilo de vi
Potencial da nova terapia vai além do câncer de pâncreas
Segundo Tiago Branco, a validação da via RAS como alvo terapêutico abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos voltados a diferentes tipos de câncer que compartilham o mesmo mecanismo molecular.
Embora o câncer de pâncreas tenha sido o primeiro grande campo de teste para essa estratégia, Thiago Branco destaca que o potencial da descoberta vai muito além da doença. Na avaliação do especialista, a validação desse mecanismo representa um passo importante para o desenvolvimento de futuras terapias direcionadas.
Ao demonstrar que a via RAS pode ser um alvo terapêutico viável, o estudo abre caminho para novas pesquisas em diferentes tipos de câncer que compartilham essa mesma alteração molecular. Isso não significa que os mesmos resultados serão observados automaticamente em outros tumores, mas amplia as possibilidades de desenvolvimento de tratamentos mais direcionados e potencialmente mais eficazes para esses pacientes”, explica.
Atualmente, diferentes estudos clínicos já investigam terapias baseadas nesse mecanismo, tanto de forma isolada quanto em combinação com outros tratamentos. A expectativa é compreender melhor como essa estratégia pode ampliar os benefícios clínicos observados até agora e contribuir para o avanço da medicina de precisão em diferentes tipos de câncer.
É um passo enorme em termos de terapia molecular e é o primeiro que deve abrir o caminho para muitas outras drogas com esse perfil. É um marco depois de tantas tentativas em múltiplos estudos em adenocarcinoma de pâncreas”, confirma Maria Ignez Braghiroli, médica especializada em tumores no trato gastro digestivo da Oncologia D’Or.
Os números impressionantes do estudo científico
O estudo de fase 3 RASolute-302, apresentado na Asco 2026 em Chicago (EUA) e publicado simultaneamente no prestigiado The New England Journal of Medicine, chama atenção pelos benefícios observados em pacientes com câncer de pâncreas avançado.
A pesquisa clínica foi realizada com cerca de 500 pacientes da América do Norte, Europa e Ásia, divididos entre tratamento padrão com quimioterapia e o uso do daraxonrasibe, terapia desenvolvida para atuar contra mutações da via RAS presentes em mais de 90% dos casos de adenocarcinoma ductal pancreático.
O estudo estabelece o daraxonrasib como o novo padrão mundial de cuidado para a doença. Os principais achados apontam:
-
Sobrevida global dobrada: O tempo médio de vida dos pacientes saltou de 6,6 meses (com a quimioterapia convencional) para 13,2 meses com o novo medicamento.
-
Sobrevida livre de progressão: O período em que a doença permaneceu controlada, sem avançar, também dobrou, passando de 3,5 para 7 meses.
-
Redução do risco de morte: A medicação oral reduziu em 60% o risco geral de progressão da doença ou morte.
-
Encolhimento do tumor: A taxa de resposta objetiva (pacientes cujo tumor encolheu ou desapareceu) foi três vezes maior, subindo de 11,8% na quimioterapia para 33,2% com a nova pílula.
Efeitos colaterais
Além dos dados de eficácia, o perfil de segurança chamou a atenção dos pesquisadores presentes em Chicago. O principal efeito colateral observado foi o rash cutâneo (erupção na pele), presente em 86,3% dos pacientes, mas considerado manejável com cremes dermatológicos e antibióticos tópicos.
O dado mais celebrável foi a taxa de descontinuação por toxicidade: apenas 1,2% dos pacientes precisaram parar o tratamento por efeitos colaterais, contra 11,2% no grupo da quimioterapia tradicional — o que representa um ganho incomensurável em bem-estar para pacientes já fragilizados.
Acompanhe o nosso especial Câncer Tem Cura e fique por dentro das principais notícias da Oncologia
Clique aqui para entrar no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e receba nossos conteúdos diariamente!
Com Assessorias

Clique aqui para entrar no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e receba nossos conteúdos diariamente!


