Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que 20% das pessoas no mundo começam a apostar até os 11 anos de idade, marca que salta para 78% a partir dos 12 anos. No Brasil, levantamento divulgado pela Frente Parlamentar Mista de Educação revela que 9,5% dos estudantes dos ensinos fundamental e médio fizeram a primeira aposta aos 11 anos.
Neste contexto, a busca por tratamento contra a dependência em apostas online (bets) tem chegado cada vez mais cedo aos grupos de apoio e consultórios do país. A facilidade de acesso às plataformas na palma da mão transformou a rotina de milhares de famílias e revelou histórias marcantes de perda e reconstrução.
Na irmandade Jogadores Anônimos, relatos apontam a chegada frequente de adolescentes entre 14 e 16 anos acompanhados por responsáveis e profissionais de saúde mental. Um desses relatos é o do jovem Gustavo Pereira, de 24 anos. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele começou a fazer apostas online aos 18 anos e, em um período de seis anos, chegou a perder meio milhão de reais por conta da compulsão. ele começou a fazer apostas online aos 18 anos. Em um período de seis anos, chegou a perder meio milhão de reais por causa do vício.
Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10 mil virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10 mil virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro, na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância”, relata Gustavo.
O impacto severo no bolso veio acompanhado por sérios transtornos de saúde mental. “Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressão, uma síndrome do pânico, e graças a Deus eu me libertei disso”, conta.
Plataforma de autoexclusão das bets ajudou
Gustavo Pereira utilizou a plataforma de autoexclusão, criada pelo governo federal, para evitar novas recaídas e se manter longe das bets. Ele diz que a ferramenta foi fundamental para que ele pudesse retomar o controle da situação.
Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, lembra.
Atualmente há dois meses sem apostar, o jovem busca reconstruir a vida vendendo café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, e utiliza o seu perfil no Instagram para compartilhar sua rotina de trabalho e orientar outras pessoas a evitar recaídas. “Hoje vendo café na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, à minha fé, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu propósito de vida é ajudar pessoas”, afirma.
Para o vendedor, a luta contra o vício deve ser constante. “Não me orgulho de nada do que eu fiz nessa época, e hoje, graças a Deus, eu consigo, com muita transparência, falar com as pessoas, ajudá-las, ainda faço acompanhamento, é uma luta diária contra o vício.”
‘Hoje você carrega um cassino dentro do bolso’
Histórias como a de Gustavo tornaram-se frequentes nos grupos de ajuda mútua. Luiz Carlos*, de 71 anos e há 15 sem jogar — vício que enfrentou na década de 1980 com máquinas de videopôquer —, acompanha com apreensão a mudança no perfil de quem busca socorro na irmandade Jogadores Anônimos.
Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos”, relata Luiz Carlos. Para ele, a tecnologia agravou o quadro: “Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso”.
Ele diz que, na irmandade, encontrou acolhimento. “Quando você chega, todo mundo te abraça, ninguém aponta um dedo para esses problemas. Porque, quando você chega, você mesmo se acha um inútil. E, quando você chega lá dentro, você vê que todo mundo é igual.”
Rogério*, de 53 anos, também da irmandade, aconselha quem está no vício de jogo a procurar ajuda o mais rapidamente possível. “É difícil perceber que precisamos de ajuda. Acontece, geralmente, quando já estamos no fundo do poço”, diz ele, que está há mais de um ano sem jogar.
Apoio da família é fundamental
A percepção é confirmada por Carla Xavier*, de 41 anos, também frequentadora do grupo para pessoas com problemas de jogo e há mais de um ano longe do vício. Segundo ela, a busca por ajuda costuma ocorrer no limite da desesperança.
[As pessoas] já não têm mais onde pedir ajuda. Então já estão desacreditadas da vida, já estão pensando em suicídio, estão devendo para um monte de gente. E, com as apostas online, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje”, alerta.
Para ela, a parte mais difícil de buscar ajuda é entender que se trata de uma doença. “Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença. Você acha que ‘eu jogo, mas eu paro quando eu quero’, mas não é assim. A partir do momento que você desenvolveu a compulsão, você precisa de ajuda para poder parar.”
Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, lembra ela, ao destacar o apoio que recebeu dos familiares para largar o vício.
O apoio familiar também é fundamental para quem precisa enfrentar o problema da dependência em jogos e apostas. Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, afirma a jogadora compulsiva.
Para Carla Xavier, muitas vezes é preciso ir “além do fundo do poço” para entender que é preciso pedir ajuda. ”Ela [a pessoa com dependência] só vai se dar conta disso a hora que chegar ao fundo do poço, cavar mais um pouquinho, e aí ela vai entender que, sem a ajuda dos seus iguais, não vai conseguir sair dessa situação.”
Longe do vício, Carla conta que voltou a ser quem era antes de conhecer os jogos. ‘Voltei a ter minha autoconfiança, um trabalho digno, honesto, e a vida só tem me dado surpresas boas.”
Neurobiologia explica por que os jovens são mais vulneráveis

A exposição precoce e a alta suscetibilidade dessa faixa etária aos apelos das apostas encontram explicação científica na neurobiologia, como explica a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia.
Segundo ela, o cérebro adolescente opera com o sistema dopaminérgico — responsável pelas sensações de prazer e recompensa — em ritmo acelerado, enquanto as regiões do córtex pré-frontal, encarregadas do controle de impulsos e da avaliação de riscos, só completam seu desenvolvimento a partir dos 20 anos, ao longo da terceira década de vida. Esse descompasso neurológico dificulta a imposição de limites diante do estímulo imediato das apostas.
O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, destaca Mariana Kehl.
Endividamento por bets aumenta risco de suicídio
Essa exposição precoce aos jogos de azar acarreta graves repercussões na saúde mental. O descontrole no jogo acarreta severos prejuízos socioemocionais, associando-se a quadros profundos de ansiedade, depressão e risco de ideação suicida associada ao endividamento. A psicóloga Mariana Kehl adverte ainda para o perigo das campanhas feitas por criadores de conteúdo nas redes sociais.
Quando o anúncio vem na voz de um influenciador que esse jovem acompanha diariamente, ele não é processado como publicidade. Ele é processado como uma recomendação de alguém de confiança, o que rebaixa as defesas críticas”, pondera.
Quando é hora de buscar ajuda?
Para a psicóloga Mariana Kehl, a família tem que agir no momento em que perceber o problema da dependência em jogos e apostas. Entre os sinais mais frequentes estão isolamento, mudanças de humor e gastos mais elevados. “Não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”, diz.
O psiquiatra forense e diretor da Vida Mental Perícias, Hewdy Lobo, destaca a permissividade familiar no controle do tempo de jogo de crianças e adolescentes como um dos fatores que podem levar ao vício em jogos. Para a especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, não é o relógio, mas o comportamento que determina a dependência.
Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional”, alerta a advogada.
Em alguns casos, além do psicólogo e/ou psiquiatra, o tratamento requer o uso de medicamentos.
Onde buscar ajuda
O apoio gratuito também está disponível no SUS, que oferece teleatendimento psicológico acessível pelo portal Meu SUS Digital, além de atendimento presencial nas unidades Básicas de Saúde (UBSs) e nos centros de Atenção Psicossocial (CAPs). Há atendimento também para familiares. O serviço é sigiloso e permite o acesso à assistência especializada a distância.
A pessoa com dependência pode buscar grupos de apoio como a irmandade Jogadores Anônimos, em reuniões presenciais ou online, ou o Centro de Valorização da Vida (CVV), com atendimento pela internet ou pelo número 188. A irmandade Jogadores Anônimos também presta apoio a familiares e amigos de jogadores compulsivos, por meio da organização JOG-Anon.
Nós temos uma sala, uma irmandade paralela que se chama JOG-Anon, que é para familiares. Eles frequentam junto com a gente, mas na nossa sala só tem jogadores. Na sala de JOG-Anon só tem familiares, amigos, simpatizantes. A pessoa é uma codependente, mas não conhece o assunto, o melhor caminho é o JOG-Anon.”
Compulsão compromete orçamento e o acesso ao ensino superior

Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) concluiu que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada. O descontrole orçamentário afeta diretamente o acesso a recursos essenciais para a manutenção da vida com qualidade, como moradia, alimentação e vestuário. O diretor do IBICT, Tiago Braga, alerta que a aposta online é um gasto que compromete o futuro:
Quanto mais você aposta ou quanto mais você gasta recursos com a aposta, menos você terá recursos para o seu futuro. E isso a gente está falando de questões do cotidiano como aluguel, comida, vestuário, educação”, pontua Braga, ressaltando também o risco de ideação suicida ligado ao endividamento.
Essas perdas financeiras impactam diretamente as escolhas e a formação acadêmica da juventude. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta:
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34% dos entrevistados disseram que precisariam parar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação.
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14% dos estudantes universitários já atrasaram mensalidades ou trancaram o curso por causa de gastos com bets.
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34% deixaram de investir em cursos de aperfeiçoamento ou idiomas.
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33% deixaram de investir em academia ou atividades físicas.
O diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan (foto abaixo), enfatiza que, para uma parcela significativa dos jovens, o dinheiro destinado às apostas cria uma barreira direta de acesso e permanência no ensino superior. “As instituições de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento adequado quando necessário, já que o tema passou a fazer parte de uma realidade social que também chega ao ambiente acadêmico”, orienta.

Impacto financeiro no SUS é de R$ 30 bilhões
O impacto financeiro por causa dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 30,6 bilhões por ano. O dado consta de estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
Nessa conta, entram as despesas com tratamentos de depressão, ansiedade e impactos causados pelas mortes por suicídio.
Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos. Nos últimos cinco anos, foi registrado um aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar.
De acordo com o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Segundo ele, com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.
Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste.”
Diante da alta procura, a capacidade foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).
O diretor diz que outro indicativo do crescimento do problema com jogos e apostas vem da plataforma de autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda. Foram bloqueados mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal.
Além de atingir atendidos pelo Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários pediram autoexclusão. Nesse último caso, quase metade alegou problemas de saúde mental relacionados a apostas.
ECA Digital reforça proteção e exige responsabilidade compartilhada
Em vigor em março de 2026, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) pode ajudar a conter o avanço do vício em bets entre menores, conhecido como Lei Felca. O dispositivo legal estabelece diretrizes para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual:
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Aferição de idade rígida: Proibição de apostas online para menores de 18 anos e exigência de verificação de idade por métodos auditáveis, eliminando a simples autodeclaração por clique.
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Vinculação de contas: Exigência de que menores de 16 anos utilizem redes sociais apenas vinculados aos perfis dos responsáveis.
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Proibição de Loot Boxes: Vetada a comercialização de caixas virtuais com itens aleatórios pagos em jogos eletrônicos, caracterizadas por mecânicas de azar.
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Cadeia de responsabilidade: Estabelecimento de responsabilidade compartilhada entre plataformas digitais, famílias, instituições de ensino e o Estado.
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Regulação de publicidade: Restrição às estratégias de marketing velado, especialmente promovidas por influenciadores digitais voltados ao público infantojuvenil.
A efetividade do arcabouço normativo depende da fiscalização contínua por parte do Poder Público e do cumprimento rigoroso das obrigações tecnológicas por parte das empresas do setor digital, aliada à promoção de ações contínuas de letramento e educação digital nas escolas e núcleos familiares.
O advogado especialista em direito digital Felipe Moreira reforça que a novidade central é a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e o Estado. “A legislação é suficiente, mas a regulamentação da lei precisa ser cumprida e observada tanto pelo Poder Público, no âmbito fiscalizatório, quanto pelas empresas que atuam no setor”, avalia Moreira.
Diante do cenário, a advogada Luana Mendes ressalta que a proteção exige diálogo contínuo no ambiente doméstico. “O controle parental não significa apenas um ‘não’, mas educação digital. É fundamental estabelecer uma relação de confiança com a criança para que ela possa se sentir segura a ponto de procurar um adulto quando alguma situação dentro do jogo, dentro do ambiente digital, gerar medo e desconforto”, conclui.
Com informações da Agência Brasil





