O silêncio que antecede os gramados e o racismo na saúde
Para Daniela Tafner, doutora em enfermagem e especialista em saúde da população negra, o que mais inquieta no episódio do jogador não é o afastamento em si, mas a negligência que historicamente cerca o tema.
Enquanto o país do futebol descobre com surpresa o traço falciforme, milhares de pessoas, em sua maioria negras, convivem há décadas com a condição, enfrentando limitações e um cotidiano marcado pela negligência e pela invisibilidade”, afirma Daniela Tafner.
Segundo ela, o caso do jogador do Corinthians poderia ter sido também uma oportunidade para ampliar o debate sobre o racismo que atravessa o cuidado em saúde. Porque, por trás do diagnóstico do traço falciforme, existe não apenas uma condição genética, mas uma história de negligência estrutural
A especialista aponta que, por ser uma condição geneticamente associada às populações africanas, a miscigenação no Brasil expandiu o traço falciforme para além de um único grupo racial. Mesmo assim, o preconceito persiste de forma velada.
Conforme relata a Dra. Daniela, pessoas diagnosticadas ainda precisam ouvir frases absurdas como: “Mas você não é negra para ter essa doença”, evidenciando o despreparo social e institucional para lidar com o acolhimento desses pacientes.
Histórias de quem venceu o silêncio e a dor
“Eu nunca soube o que era ser normal”
Para Simone Bruna, de 39 anos, natural do Paraná e hoje moradora de Maringá, a vida foi ditada por internações, crises de dor e transfusões desde os três meses de idade, quando foi diagnosticada com a forma grave SS.
Na infância, enfrentou o estigma da icterícia (olhos amarelados pela hemólise, a destruição das hemácias) e a exclusão escolar. A virada veio após os 20 anos, ao descobrir que sua condição não era “apenas uma anemia”. Simone engajou-se em movimentos sociais e criou páginas na internet para espalhar autocuidado.
Após enfrentar o desgaste ósseo (osteonecrose) nas articulações, Simone buscou o transplante de medula óssea haploidêntico (com doador 50% compatível), realizado em 2024. Hoje, curada há mais de um ano e meio, ela reconstrói seus sonhos.
Hoje eu consigo planejar minha vida. Pela primeira vez, penso no futuro sem o medo constante da morte ou de uma crise grave acontecer. Aprendi a valorizar a beleza das pequenas coisas”, diz Simone Bruna, paciente curada de doença falciforme.
Duas décadas de acolhimento no Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, a confeiteira Letícia Ribeiro Ferreira, de 23 anos, descobriu a anemia falciforme logo no primeiro ano de vida pelo Teste do Pezinho. Há 22 anos ela recebe assistência especializada no Hemorio (Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti), o maior centro de referência da rede estadual fluminense.
A rotina de Letícia reflete a importância de uma rede de apoio estruturada. “Uma vez, fiquei internada por três meses e foi o meu período mais difícil. Hoje, estou bem de saúde, com os sintomas controlados”, conta a jovem.
O diretor-geral do Hemorio, Luiz Amorim, destaca que o avanço decisivo no país ocorreu em 2001, quando a doença foi integrada ao Programa Nacional de Triagem Neonatal. Identificar a alteração nos primeiros dias de vida por meio do Teste do Pezinho possibilita o início imediato de medidas preventivas que reduzem drasticamente as complicações e a mortalidade infantil.

Da infância sem respostas à advocacia
Antes da consolidação do Teste do Pezinho para a doença falciforme, muitas famílias peregrinavam por anos em busca de respostas. Foi o caso de Nilceia Alves Gomes da Silva, mãe de Agner Eduardo da Silva, hoje com 47 anos.
Agner começou a apresentar inchaços e dores severas nas extremidades antes dos 2 anos, mas os médicos plantonistas não sabiam diagnosticar. A confirmação só veio na rede particular, que prontamente encaminhou o caso para os centros de referência em São Paulo (Santa Casa de Misericórdia e Hospital das Clínicas).
Apesar das cinco internações graves ao longo da vida e das limitações da rotina, Agner formou-se em Direito, atua como advogado e construiu sua própria família. “Ele tem a doença, mas não é coitadinho. Tem que saber conviver, correr atrás dos direitos e viver”, orgulha-se Nilceia.
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A compreensão médica da doença falciforme reforça que ela vai muito além de um quadro de anemia convencional. De acordo com Marimília Pita, oncohematologista pediátrica e criadora da ONG Lua Vermelha, a destruição acelerada das hemácias (que duram entre 20 e 80 dias, contra os 120 dias de uma célula saudável) mantém o paciente em anemia constante. Porém, o verdadeiro perigo mora na rigidez dessas células alongadas.
Ao obstruírem a circulação, os glóbulos vermelhos em forma de foice causam “microinfartos” teciduais. Com o passar dos anos, a falta de oxigenação compromete os órgãos de forma progressiva, transformando o paciente em um indivíduo cardiopata (problemas no coração), pneumopata (pulmões) ou nefropata (rins).
Essa mesma obstrução dos microvasos desencadeia as temidas crises de dor aguda. Em bebês e crianças pequenas, o sintoma costuma se manifestar nas mãos e nos pés, gerando inchaço e vermelhidão — um sinal que, por falta de informação, muitas vezes é confundido com picadas de insetos em prontos-socorros, retardando o diagnóstico definitivo.
Dados de um estudo internacional com participação da Dra. Marimília Pita revelam o impacto do preconceito institucional. Enquanto nos Estados Unidos (98%) e no Canadá (99%) a quase totalidade dos pacientes recebe morfina para conter as crises severas de dor, no Brasil apenas 34% têm acesso ao analgésico. Por chegarem aos hospitais desesperados por alívio, esses pacientes frequentemente são estigmatizados e confundidos com dependentes químicos pela equipe de saúde.
Com o apoio materno para superar o impacto emocional e físico, Lucas foi o pioneiro de sua família a ingressar no ensino superior público, graduando-se no Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Após 12 anos de atuação na área de sistemas eletrônicos, ele precisou se afastar devido a uma necrose no fêmur — sequela crônica da doença.