O Brasil enfrenta um cenário de alerta máximo neste verão. Um estudo internacional, realizado em parceria pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), estima que o país terá cerca de 1,8 milhão de casos de dengue ao longo de 2026.
Com a crise climática acelerando a reprodução do mosquito Aedes aegypti, a estratégia nacional agora une o diagnóstico precoce, a mobilização social e o avanço histórico das vacinas no Sistema Único de Saúde (SUS). Essa união entre tecnologia vacinal do SUS, vigilância municipal e engajamento comunitário é a aposta do Brasil para que, mesmo com os desafios climáticos, a dengue deixe de ser uma sentença anual de crise na saúde pública.
Rio de Janeiro em estágio de rotina, mas com guarda alta
Apesar das projeções nacionais preocupantes, o cenário epidemiológico da dengue no Rio de Janeiro começou 2026 em nível de “rotina”, indicando normalidade. Até o dia 21 de janeiro, foram registrados 378 casos prováveis, sem óbitos confirmados.
No entanto, o otimismo vem acompanhado de cautela. As autoridades estaduais alertam que a baixa incidência atual não deve gerar complacência, já que os ovos do mosquito eclodem rapidamente com a combinação de sol e chuva.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) e a Fiocruz reforçam que este é o momento crucial para evitar que o equilíbrio seja quebrado pelo clima típico da estação. A secretária de Estado de Saúde do Rio, Claudia Mello, enfatiza que a vigilância deve começar dentro de casa:
Apesar dos números favoráveis, reforçamos que a participação da população é o pilar central da proteção. Como o mosquito Aedes aegypti tem uma alta capacidade de reprodução, a recomendação é que cada um de nós dedique 10 minutos por semana para realizar uma varredura em suas casas. É uma tarefa simples, mas que tem que virar hábito”, frisa a secretária.
Embora o estado do Rio apresente níveis de baixa incidência no início de 2026, especialistas alertam que o calor extremo e as chuvas aceleram a reprodução do mosquito. A estratégia agora une mutirões de limpeza, conscientização em favelas e o avanço da imunização pública.
Na capital fluminense, a Secretaria Municipal de Saúde já intensificou o programa SVS na Rua, realizando vistorias em 19 bairros apenas nesta semana, incluindo áreas como Copacabana, Tijuca e Realengo. Em apenas dez dias, mais de 200 mil imóveis foram inspecionados.
O fator climático e a urgência da prevenção doméstica
As mudanças climáticas não são mais uma ameaça abstrata; elas ditam o ritmo das arboviroses. O aumento das temperaturas globais e o regime de chuvas intensas criam o “berçário ideal” para o Aedes aegypti. Sob calor forte, o ciclo de vida do mosquito encurta, e os ovos eclodem com mais rapidez.
Por isso, a recomendação da SES-RJ é o hábito dos 10 minutos semanais: uma varredura rápida em calhas, caixas d’água, pratos de vasos e bandejas de geladeira. “A participação da população é o pilar central. O mosquito tem alta capacidade de reprodução, e essa tarefa simples precisa virar rotina”, destaca a secretária Claudia Mello.
Na capital, a Secretaria Municipal de Saúde já intensificou o programa SVS na Rua, percorrendo 19 bairros em janeiro, como Copacabana, Tijuca e Realengo. Somente nos primeiros dez dias do ano, mais de 200 mil imóveis foram vistoriados, eliminando cerca de 30 mil potenciais criadouros.
Mobilização nas favelas e parcerias sociais
Enquanto o poder público atua no monitoramento e na saúde, a sociedade civil e o setor privado unem forças em territórios vulneráveis. Entendendo que o risco é elevado em territórios com maior densidade demográfica, a iniciativa privada e o terceiro setor também entraram em campo.
Em São Paulo, a campanha “Juntos contra o mosquito”, uma parceria entre a marca SBP e a CUFA (Central Única das Favelas), está promovendo mutirões de limpeza e educação sanitária em comunidades como Paraisópolis e Brasilândia. A terceira edição do projeto “Juntos Contra o Mosquito” utiliza moradores locais como embaixadores da prevenção.
O projeto vai além da limpeza:
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Empregabilidade: Jovens das comunidades são treinados em audiovisual para documentar e criar conteúdos de conscientização.
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Proteção direta: A doação de 540 mil unidades de repelentes para a CUFA beneficiará famílias em São Paulo e também no Rio de Janeiro.
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Educação lúdica: Carros de som e atores circulam pelas favelas para engajar as famílias de forma leve e culturalmente conectada.
No Rio de Janeiro, a parceria se traduz na distribuição de parte das 540 mil unidades de repelentes doadas pela marca, visando proteger as populações mais vulneráveis. “”Ninguém está imune à dengue, mas todos podemos ser parte da solução. Manter a guarda alta e levar a conscientização adiante é a única forma de garantir que o nosso esforço se converta, efetivamente, em vidas salvas”, resume Geovana Borges, vice-presidente da CUFA-SP.
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O papel do diagnóstico e o alerta dos especialistas
Diante da projeção de alta incidência — com destaque para São Paulo, que deve concentrar metade dos casos, e Minas Gerais, com 10% —, o diagnóstico laboratorial torna-se uma ferramenta de sobrevivência. A SBPC/ML reforça que diferenciar a dengue de outras arboviroses, como Zika, Chikungunya e a Febre do Oropouche, é essencial para o manejo clínico correto.
O diagnóstico laboratorial é decisivo para orientar a conduta clínica e evitar complicações, especialmente nos grupos mais vulneráveis, como idosos e pessoas com comorbidades”, afirma Guilherme Ferreira de Oliveira, presidente da SBPC/ML. Ele destaca o uso de testes de antígeno e o RT-PCR como pilares para decisões médicas ágeis e seguras.
A vacina como escudo: o avanço do SUS
A grande virada no combate à dengue em 2026 é a consolidação da imunização pelo Sistema Único de Saúde. A maior esperança para frear os ciclos epidêmicos futuros reside na ciência nacional. A rede pública se prepara para a chegada da vacina do Instituto Butantan, prevista para integrar o calendário do SUS em breve.
O registro da vacina Butantan-DV pela Anvisa é um marco histórico no combate à dengue no Brasil: trata-se do primeiro imunizante do mundo em dose única contra a dengue, desenvolvido de forma 100% brasileira.
Por ser de dose única, o imunizante nacional promete facilitar a logística e garantir que mais pessoas fiquem protegidas contra os quatro sorotipos da doença, inclusive diante da ameaça de reintrodução do sorotipo 3. O Butantan já possui 1 milhão de doses prontas, com previsão de entrega de mais 30 milhões até meados de 2026 para o Programa Nacional de Imunização (PNI).
Enquanto a vacina nacional ganha escala, o Rio de Janeiro segue avançando com a vacina Qdenga, da fabricante japonesa Takeda. Desde 2023, mais de 758 mil doses foram aplicadas no estado, focando inicialmente no público de 10 a 14 anos, estratégia que tem ajudado a reduzir internações graves, permitindo a ampliação da cobertura para todas as regiões do estado.
Com Assessorias








