A incorporação da vacina contra dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan em dose única, é uma conquista importante em meio ao cenário da queda nas coberturas vacinais no Brasil. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou os avanços consistentes na vacinação infantil no país, ao participar neste domingo (18), em Botucatu (SP), do início da vacinação contra a dengue com a primeira vacina 100% nacional, de dose única.
“Não tenho dúvida nenhuma que essa vacina pode ser uma grande arma internacional para combater a dengue em outros países no mundo”, disse Alexandre Padilha. De forma indireta, ele comparou os resultados brasileiros aos recentes retrocessos da imunização nos Estados Unidos, que suspenderam seis vacinas do calendário infantil.
Em 2026, temos muitas novidades na vacinação. Enquanto alguns países do mundo estão cortando vacinas e retirando imunizantes de crianças, o Brasil está ampliando o seu calendário vacinal. Encerramos 2025 com crescimento da cobertura de todas as vacinas do calendário infantil. Em 2022, chegamos a ter menos de 80% de cobertura”, concluiu.
Dados preliminares de 2025 do Ministério da Saúde revelam um cenário ainda distante dos patamares históricos do país, que por décadas foi referência internacional em imunização. Os números reforçam que, apesar de avanços pontuais, a recuperação plena das coberturas vacinais no Brasil ainda exige enfrentamento consistente da desinformação, melhoria do acesso aos serviços de saúde e fortalecimento da cultura de vacinação em todas as faixas etárias.
Apenas duas vacinas alcançaram metas
Cobertura vacinal abaixo do ideal para vacinas contra sarampo, pólio e Covid-19
Na semana passada, repercutiu a informação de que o Brasil conseguiu atingir a meta de cobertura vacinal estabelecida pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) em apenas duas vacinas ao longo de 2025, segundo dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde.
Somente a BCG, aplicada em recém-nascidos para prevenir formas graves de tuberculose, alcançou 96,8% do público-alvo, e a vacina contra hepatite B administrada nas primeiras 30 horas de vida chegou a 95,1%. Ambas superaram a meta mínima de 95% definida pelo ministério.
Outros imunizantes essenciais ficaram abaixo do nível considerado seguro. A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba, atingiu 93,8% na primeira dose, mas caiu para 78,9% na segunda. A cobertura contra poliomielite permaneceu inferior a 90%, enquanto a imunização infantil contra a Covid-19 alcançou apenas 3,5% das crianças.
O baixo índice preocupa especialmente diante do cenário internacional. Mesmo após surtos de sarampo nos Estados Unidos e no Canadá levarem as Américas a perderem o certificado de área livre da doença, a cobertura brasileira com duas doses da tríplice viral ficou em 79%. A vacina contra a pólio, responsável por evitar a paralisia infantil, também não chegou ao patamar recomendado.
Avanços em 2025 com vacinas contra VSR e HPV
Apesar das dificuldades, o PNI segue ampliando o calendário. Atualmente, cerca de 30 vacinas de rotina são oferecidas gratuitamente para todas as idades. A mais recente inclusão foi a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), indicada para gestantes a partir da 28ª semana de gravidez, com meta de alcançar 80% do público-alvo. Estudos clínicos mostraram redução de até 81,8% nos casos graves da doença nos primeiros meses de vida.
Outra mudança relevante foi a ampliação temporária da vacinação contra o HPV para adolescentes de 15 a 19 anos que não receberam o imunizante na idade recomendada. Além disso, seguindo orientação da OMS, a vacina passou a ser aplicada em dose única. A expectativa do Ministério da Saúde é alcançar cerca de 7 milhões de jovens ainda desprotegidos.
Especialistas também destacam avanços previstos para 2026, a possível atualização da vacina pneumocócica utilizada no SUS. Hoje, o PNI oferece a pneumo-10, mas está em análise a substituição por versões que protegem contra mais sorotipos da bactéria.
A vacina que usamos hoje não protege contra dois sorotipos importantes, o 19A e o 3. Então temos muita expectativa para a atualização”, afirma Eduardo Lima, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Já a incorporação da vacina contra herpes-zóster para idosos e imunossuprimidos foi descartada após avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), devido ao alto custo do imunizante, decisão oficializada pelo Ministério da Saúde neste mês.
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Fake news sobre vacinas dificultam coberturas
Queda das coberturas começou há 10 anos e se agravou na pandemia
A desinformação é apontada como um dos principais entraves, sobretudo em campanhas recentes, como a vacinação infantil contra a Covid-19. Em 2025, mais de 2,7 mil crianças com menos de cinco anos foram internadas por causa da doença no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Especialistas apontam que a queda nas coberturas começou em 2015 e se agravou durante a pandemia de Covid-19, em 2020.
O vírus da Covid não desapareceu e nem desaparecerá. Ele passou a ser mais um vírus respiratório, como o Influenza e o VSR. O Brasil tem uma das maiores taxas de internação de crianças com menos de dois anos por Covid”, diz Eduardo Lima. “Infelizmente essa é uma das vacinas que mais sofrem com fake news. Às vezes vemos a caderneta toda completa, faltando só a vacina da Covid.”
Apesar de uma recuperação gradual desde 2022, os dados mais recentes indicam que o país ainda não retomou os índices anteriores. Entre os boatos recorrentes, a falsa associação entre vacinas e autismo voltou a ser combatida por autoridades de saúde. Em 2025, a OMS reafirmou que não existe relação causal, após análise de dados de 1,2 milhão de crianças nascidas na Dinamarca entre 1997 e 2018.
“Vacinas são vítimas do seu próprio sucesso”, diz médico
“As vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. As famílias deixaram de ver colegas, parentes com meningite, poliomielite, sarampo, e passaram a achar que essas doenças estavam erradicadas. E vieram as fake news junto a uma extrema politização do tema”, afirma Eduardo Lima. “Nos últimos três anos, houve um esforço enorme do PNI, dos pediatras, das sociedades médicas, mas ainda temos coberturas abaixo de 90% para muitas vacinas”, completa.
Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), lembra que a ampliação da vacinação foi decisiva para o aumento da expectativa de vida no país nas últimas décadas. Ela cita um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado na revista The Lancet, que estima que as vacinas salvaram ao menos 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos, sendo 101 milhões de crianças.
O primeiro calendário nacional brasileiro foi em 1977, só tínhamos BCG, pólio, sarampo e DTP. De quatro vacinas, evoluímos para um calendário extremamente completo. Doenças que eram um grande flagelo para mortalidade infantil passaram a ficar sob controle”, afirma. “Eliminamos tétano neonatal, rubéola congênita.”
Segundo ela, lidar com hesitação vacinal, combater as fake news passaram a ser estratégias importantes que antes não existiam. “Fora outras causas que afetam a cobertura, como dificuldade de acesso, horário de funcionamento dos postos e questões logísticas”, destaca.
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Com informações do Ministério da Saúde, O Globo e outros




