Em 2014, passei sete meses sem acessar minha conta no Facebook. Foi uma decisão radical para a época. Eu precisava concluir minha tese de doutorado e percebi que a única forma de ganhar tempo para escrever seria me afastar da rede social. A experiência chamou tanto a atenção a ponto de virar notícia em uma revista especializada em tecnologia. Hoje, não o acesso mais. Não sinto falta.

O curioso é que o tempo antes consumido por uma única plataforma acabou sendo ocupado por várias outras. Se antes eu precisava controlar o impulso de entrar no Facebook, agora convivo com notificações do WhatsApp, Instagram, LinkedIn, YouTube, aplicativos de notícias e uma infinidade de serviços que disputam espaço ao longo do meu dia.

Nas últimas semanas, por exemplo, os grupos de WhatsApp se tornaram um problema particular. Mensagens chegam a qualquer hora. Algumas são importantes. Muitas não são. Ainda assim, todas exigem uma reação.

Lembro de uma frase dita por uma amiga publicitária que nunca esqueci:

O tempo é o bem mais precioso das pessoas. Solicite-o com moderação. Ela estava certa.

O problema é que as plataformas digitais raramente pedem licença para disputar esse recurso tão valioso. Elas simplesmente aparecem. Vibram. Tocam. Acendem a tela. Interrompem o que estamos fazendo.

Na semana entre 21 e 26 de junho de 2026, meu celular registrou uma média diária de 5 horas e 23 minutos de uso. Foram mais de 22 horas dedicadas às redes sociais e mais de 32 horas totais diante da tela. Coincidentemente, foi também a semana em que procurei ajuda médica para melhorar a qualidade do meu sono.

Não estou afirmando que exista uma relação direta entre uma coisa e outra. Mas confesso que os números me fizeram refletir. Afinal, quanto espaço o bem-estar digital ocupa nas nossas preocupações cotidianas?

A discussão costuma aparecer de forma simplificada. Há quem trate a tecnologia como a grande vilã da saúde mental. Outros enxergam qualquer inovação como sinônimo de progresso e qualidade de vida.

As duas posições me parecem insuficientes.

A tecnologia trouxe ganhos inegáveis. Nunca foi tão fácil acessar informação, estudar, trabalhar remotamente, manter contato com amigos distantes ou utilizar ferramentas que ajudam na organização da rotina. A própria Inteligência Artificial já começa a assumir tarefas repetitivas que consomem tempo e energia.

Ao mesmo tempo, nunca estivemos tão expostos a estímulos constantes.

É nesse ponto que as reflexões do filósofo Byung-Chul Han ajudam a compreender o cenário atual. Em vez de uma sociedade marcada apenas por proibições e vigilância, ele descreve um mundo movido pelo desempenho permanente. A lógica é simples: produzir mais, responder mais rápido, estar disponível o tempo todo e aproveitar todas as oportunidades.

Ninguém consegue sustentar esse ritmo indefinidamente.

A pressão não vem apenas do trabalho. Ela aparece nas mensagens acumuladas, nas notícias que não conseguimos acompanhar, nos vídeos que nunca terminam, nas atualizações constantes e na sensação de que estamos sempre atrasados em relação a alguma coisa.

Não por acaso, as propostas de detox digital se tornaram populares. Conheço pessoas que apagaram aplicativos, silenciaram notificações, abandonaram redes sociais ou passaram a reservar períodos inteiros do dia para ficar longe das telas. Algumas relatam melhora na concentração. Outras dizem ter recuperado horas preciosas para leitura, descanso ou convivência familiar.

Mas não acredito que a solução esteja simplesmente em desligar tudo.

A tecnologia não desaparece quando fechamos um aplicativo.

Ao refletir sobre isso, lembrei de outra provocação, desta vez do filósofo Vilém Flusser. Décadas antes da popularização dos smartphones, ele escreveu que o homem do futuro existiria graças aos seus dedos. Hoje, a frase parece uma descrição precisa do nosso cotidiano. Trabalhamos, compramos, conversamos, estudamos e consumimos informação com os dedos. 

Em um artigo que publiquei há alguns anos sobre jornalismo móvel, recorri justamente a essa ideia de Flusser para mostrar como os dispositivos digitais transformaram as pontas dos dedos na principal interface entre as pessoas e a informação.

O que Flusser não poderia prever era a intensidade dessa relação.

Basta observar uma sala de espera, um restaurante ou o interior de um ônibus. Milhões de dedos deslizam diariamente por telas iluminadas. Um movimento quase automático. Uma sucessão de toques, cliques e rolagens. A cena parece a de Alice no País das Maravilhas:

O Coelho entra num país cercado de maravilhas e não se encanta com nada, pois o relógio não deixa, o tempo inteiro acusando-o de estar em descompasso com seus compromissos. O tempo não para, o relógio impiedosamente gira seus ponteiros, e o Coelho Branco, cercado por coisas extraordinárias, não consegue se conectar com nada, pois só tem olhos para o relógio. 

Nos tempos atuais, o celular está literalmente na palma das mãos. É por isso que o debate sobre bem-estar digital se tornou tão importante. Precisamos falar mais sobre autonomia para decidir quando responder uma mensagem ou interromper uma sequência infinita de vídeos. Você deve decidir ficar offline sem sentir culpa. 

Se Flusser tivesse razão ao dizer que o homem do futuro existiria graças aos seus dedos, vale lembrar que seu bem-estar digital está sob o seu controle na palma das mãos. 

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