Todo mundo já ouviu dizer por aí que deve-se tomar cuidado ao escolher o local onde irá consumir caldo de cana e açaí, pois o processo de moagem pode contaminar os alimentos com o protozoário causador da Doença de Chagas, não é mesmo? Apesar de a preocupação ser válida por motivos de higiene e para evitar diversas condições, a ingestão de itens infectados é a forma menos comum de contaminação da doença.
É o que esclarece o infectologista Arnaldo Tanaka, do Hospital Nipo-Brasileiro (HNipo), neste dia 14 de abril, Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença de Chagas. Embora seja uma condição bastante conhecida, a doença segue negligenciada, mas tem a expectativa de ser eliminada até 2050, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alerta que a maioria das pessoas com Doença de Chagas permanece, por muitos anos, assintomática, o que leva a um subdiagnóstico. No mundo, estima-se que mais de 6 milhões de pessoas sejam afetadas por ela, e a maioria desses pacientes está na América Latina. Para o Ministério da Saúde, mais de 1,2 milhão de brasileiros têm a doença, mas ainda não sabem.
Sem tratamento, a condição evolui até o desenvolvimento de uma infecção crônica que leva a complicações, como no coração. Por isso, é tão essencial uma data com o intuito de informar e chamar atenção para a prevenção e diagnóstico.
O cenário epidemiológico da doença de Chagas no Brasil reforça a urgência de medidas de enfrentamento. Em 2024, foram registrados 3.750 óbitos, com maior concentração no Sudeste. No mesmo período, houve 520 casos agudos, principalmente no Norte, com destaque para o Pará.
Já em 2025, dados preliminares indicam 627 casos agudos (97% no Norte) e 8.106 casos crônicos, concentrados em Minas Gerais, na Bahia e em Goiás, evidenciando a persistência da doença em áreas endêmicas.
Quais as causas da Doença de Chagas?
A Doença de Chagas, ou Tripanossomíase Americana, é a infecção causada pelo Trypanosoma cruzi. Após se alimentar com sangue durante a picada, o barbeiro ‘evacua’ e o parasita se encontra nessas fezes. Ao coçar, esse material entra pela ferida e contamina a pessoa. Também pode acontecer por transfusão de sangue, transplante de órgãos de um doador infectado ou infecção materno-fetal durante a gravidez”.
Quais são os sintomas? E como é diagnosticada?
A doença de Chagas é uma infecção causada por um parasita chamado Trypanosoma cruzi e que pode evoluir em duas fases:
– Fase aguda: acontece logo após a infecção. A pessoa pode apresentar sintomas ou não.
– Fase crônica: pode surgir anos depois. Em muitos casos, a pessoa não apresenta sintomas, mas a doença pode causar problemas no coração e no sistema digestivo.
Na fase aguda, há um número elevado do parasita na corrente sanguínea do hospedeiro. Quando desenvolve sintomas, os mais recorrentes são febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza e inchaço”, explica o infectologista.
Na fase crônica, os parasitas se encontram no tecido dos órgãos, não há circulação. Os sintomas mais comuns estão relacionados a complicações cardíacas ou/e digestivas, como insuficiência, arritmias, megacólon e megaesôfago; Há ainda a forma indeterminada, que é difícil de prever”.
O diagnóstico costuma ser feito com o método parasitológico, na fase aguda, e sorológico, na fase crônica. Existem testes rápidos que estão sendo pesquisados e aplicados aos poucos, mas ainda não há uma grande disponibilidade”, complementa o infectologista.
Quais as formas de tratamento?
O tratamento deve levar em consideração a fase da doença e as necessidades de cada paciente, por isso, necessita de acompanhamento médico e exames anuais. Fármacos, como benzonidazol e nifurtimox, são usados para evitar a progressão dos sintomas na fase aguda. O paciente é considerado curado quando há 5 anos seguidos de testes negativos.
Já na crônica, o tratamento vai depender das complicações que o paciente pode estar enfrentando, o tratamento é voltado para controle das complicações. Quando for submetido a algum tipo de imunossupressão, ou nos crônicos que não apresentam manifestação clínica alguma, também há a indicação do tratamento antiparasitário”, esclarece o especialista.
Como prevenir?
“A prevenção passa pelo controle do vetor, com inseticidas, além de garantir os diagnósticos e evitar a transmissão pelo sangue, oferecer acompanhamento para gestantes infectadas e conscientizar a população com campanhas de alimentação segura e cuidados com higiene”, finaliza Tanaka.
Mais investimentos federais para combater a doença
O Ministério da Saúde anunciou R$ 12 milhões para o fortalecimento de ações de vigilância e controle da doença de Chagas em 17 estados brasileiros. Em nota, a pasta informou que o recurso fortalece a capacidade de atuação contínua em 155 municípios considerados prioritários, apoiando ações essenciais como captura e monitoramento de vetores, vigilância e resposta rápida a focos.
No comunicado, o ministério destaca que Anápolis (GO) e Goiânia foram reconhecidos com selo bronze de boas práticas para eliminação da transmissão vertical da doença de Chagas e que a enfermidade ainda representa um desafio importante para a saúde pública, sobretudo em áreas com maior vulnerabilidade social e com a presença de vetores.
Estamos direcionando recursos com base em critérios técnicos, o que permite maior efetividade das ações e impacto direto na redução da transmissão. Nosso compromisso é ampliar o diagnóstico, garantir o tratamento oportuno e avançar de forma consistente na eliminação da doença como problema de saúde pública no Brasil”, informou a secretária de Vigilância em Saúde e Meio Ambiente da pasta, Mariângela Simão.
De acordo com o ministério, a seleção de municípios foi baseada em critérios técnicos que consideram a interação dos insetos vetores com o ambiente e a vulnerabilidade social, com prioridade para cidades classificadas como de risco muito alto em índice composto (presença de vetores e condições socioambientais) e localidades com registro recente do vetor.
Também foram considerados municípios com alta prioridade e muito alta prioridade para a forma crônica da doença de Chagas, concentrados principalmente nas Regiões Nordeste e Sudeste.
A pasta anunciou ainda, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a fase 2 do projeto Selênio como tratamento na cardiopatia crônica da doença de Chagas, que busca avaliar a eficácia e a segurança do mineral como estratégia terapêutica complementar para pacientes com cardiopatia chagásica crônica. Serão investidos, ao todo, R$ 8,6 milhões.
A expectativa do governo federal é que a pesquisa gere evidências científicas mais robustas e representativas em diferentes perfis de pacientes.
Os resultados poderão subsidiar a avaliação de tecnologias à base de selênio — substância com ação antioxidante e anti-inflamatória — para proteção cardiovascular, além de apoiar sua possível incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, avaliou o ministério.
Entenda a Doença de Chagas
Os triatomíneos são insetos conhecidos como barbeiro, chupão, procotó ou bicudo. Eles passam pelas fases de ovo, ninfa e adultos. Tanto as ninfas quanto os adultos se alimentam de sangue e, quando estão infectados, podem transmitir o parasita da doença de Chagas.
A transmissão pode acontecer de diversas formas:
– Vetorial: quando as fezes do barbeiro infectado entram em contato com feridas na pele ou mucosas após a picada.
– Oral: pela ingestão de alimentos ou bebidas contaminadas com o parasita.
– Vertical (congênita): da mãe infectada para o bebê durante a gravidez ou o parto.
– Transfusão ou transplante: por sangue ou órgãos de doadores infectados.
– Acidental: contato com material contaminado, geralmente em laboratórios ou durante a manipulação de animais silvestres.
Na fase aguda, os sintomas mais comuns são:
– febre por mais de sete dias e dor de cabeça;
– fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas;
– ferida parecida com furúnculo no local da entrada do parasita (em casos de transmissão pelo barbeiro).
Já na fase crônica, logo de início, a pessoa pode não sentir nada. Com o tempo, podem surgir:
– problemas no coração, incluindo insuficiência cardíaca;
– problemas digestivos, como aumento do intestino (megacólon);
– aumento do esôfago (megaesôfago).
A prevenção da doença de Chagas, de acordo com o ministério, está diretamente ligada à forma de transmissão. Uma medida importante é evitar a presença de barbeiros nas casas, com ações feitas pelas equipes de saúde. Também é recomendado:
– Usar telas em portas e janelas ou mosquiteiros.
– Utilizar repelentes e roupas de manga longa, principalmente à noite e em áreas de mata.
Para evitar a transmissão pelos alimentos, a orientação é:
– Lavar bem frutas, verduras e legumes com água potável.
– Observar os alimentos antes de triturar ou bater.
– Manter o local de preparo limpo e protegido.
– Guardar alimentos em recipientes fechados.
– Realizar orientações e treinamentos para quem manipula alimentos.
Com Assessorias e Agência Brasil








