A membrana amniótica é a camada mais interna da placenta, que envolve o bebê durante a gestação. Frequentemente descartada após o parto, essa estrutura é rica em células-tronco, fatores de crescimento e citocinas. O que muita gente não sabe é que ela pode ser usada para diversas funções dentro da chamada Medicina Regenerativa, de diabetes a problemas de visão.
Uma inovação que une a biologia do nascimento à medicina regenerativa acaba de ganhar escala no sistema público de saúde brasileiro. O Ministério da Saúde anunciou a incorporação do transplante de membrana amniótica para o tratamento de pacientes com diabetes e alterações oculares via Sistema Único de Saúde (SUS).
A estimativa é que a medida beneficie mais de 860 mil pessoas anualmente, oferecendo uma alternativa eficaz para casos graves que não respondem bem aos tratamentos convencionais.
Segundo a médica e cientista Karolyn Sassi Ogliari, pós-doutora em Biologia Regenerativa e Células-Tronco, o material funciona como um “curativo biológico” com propriedades anti-inflamatórias, imunológicas e de regeneração de vasos sanguíneos.
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Do pé diabético à preservação da visão
O uso da tecnologia é especialmente transformador para quem convive com o pé diabético. Em comparação aos curativos padrão, a membrana amniótica pode acelerar a cicatrização de feridas crônicas em até duas vezes, reduzindo drasticamente o risco de complicações e amputações.
Na oftalmologia, a aplicação é igualmente vital. O tecido auxilia na reconstrução da superfície ocular em casos de queimaduras, inflamações severas, glaucoma e úlceras de córnea. Um exemplo recente do impacto dessa técnica ocorreu no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), em Curitiba, onde o transplante de membrana salvou a visão de um recém-nascido com má formação ocular.
Acesso e preservação
No Brasil, a técnica foi autorizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no final de 2021. Enquanto o SUS utiliza bancos de tecidos que armazenam o material em freezers a -80°C (com validade de cerca de dois anos), o setor privado já oferece a criopreservação em nitrogênio líquido.
De acordo com Karolyn Sassi Ogliari, que dirige o Hemocord — empresa com serviço de coleta personalizada da membrana —, o armazenamento em nitrogênio garante a manutenção das células vivas e ativas por tempo indeterminado. “Como o tecido não causa rejeição, ele pode ser usado pela própria criança ao longo da vida ou por familiares que necessitem de tratamento regenerativo”, explica a especialista.
Com a incorporação no SUS, o Brasil dá um passo decisivo na popularização da Medicina de base biológica, transformando o que antes era resíduo hospitalar em uma ferramenta poderosa para salvar tecidos e sentidos.
A relevância do tema também chegou às telas de cinema com o filme “A Visão”, que narra a história real do médico Ming Wang. O cirurgião foi pioneiro ao desenvolver a primeira lente de contato de membrana amniótica, tecnologia que já restaurou a visão de milhões de pessoas ao redor do mundo ao acelerar a recuperação da córnea.
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