A leucemia ganhou destaque especial este mês, por conta da campanha Fevereiro Laranja, de conscientização sobre a doença, reforçada pelo recente diagnóstico da influencer Fabiana Justus, de 37 anos, que vem relatando nas redes sociais toda a sua jornada de tratamento. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima o surgimento de 11.540 novos casos de leucemias no Brasil em 2023, um aumento de 6,7% em comparação à estimativa realizada a cada ano do último triênio.

Mas você sabia que nem todo tipo de leucemia precisa ser tratado? É o que garantem especialistas ao esclarecer sobre a Linfocítica Crônica (LLC), classificada entre os quatro tipos mais graves da doença. A projeção pode estar diretamente relacionada ao envelhecimento da população, já que o principal fator de risco para o câncer, como a Leucemia Linfocítica Crônica (LLC), é a idade avançada.

O médico cardiologista Eurico Correa, de 66 anos, foi diagnosticado ainda aos 54 com LLC. Em boa parte destes 12 anos, ele não precisou tratar a doença, apenas manter o controle por meio de exames periódicos. Na fase mais aguda, em que teve um episódio de anemia, em 2017, ele precisou passar por quimioterapia, mas um ciclo curto e não muito agressiva.

Depois, passou a fazer uso de uma medicação, mas como causou uma arritmia cardíaca, foi substituída por uma quimioterapia oral, que ele usa desde 2019. Hoje, Dr Eurico convive bem a doença e mantém uma rotina ativa em seu consultório.

“Hoje, basicamente, há quase cinco anos, eu estou com a doença controlada, não tenho praticamente evento adverso nenhum, faço controles a cada quatro, cinco meses, e me sinto super bem. Vida normal”, garante o médico, em depoimento ao Portal ViDA & Ação (confira a íntegra no final do texto). 

 

Saiba mais sobre a Leucemia Linfocítica Crônica

A Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) é a mais incidente entre pacientes adultos, principalmente idosos acima dos 65 anos – a idade média é de 70 anos. De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil não há estimativas específicas para a LLC, mas estima-se que esse tipo responda por um quarto dos novos casos de leucemia.

A boa notícia é que, nesse tipo específico, o tratamento medicamentoso só é necessário com o aparecimento de sintomas, como quadros de anemia, plaquetas baixas ou com a doença progressiva.

Portanto, quando descoberta, na maior parte dos casos, o protocolo é de “observar e aguardar”, já que não é necessário a realização de tratamento, somente acompanhamento regular com hematologista.

Isso acontece porque a LLC tem origem quando os linfócitos B, células do sistema imunológico que atuam na defesa do organismo produzindo anticorpos, passam a se desenvolver de forma descontrolada por conta de um erro genético, se tornando disfuncionais.

Entretanto, a produção de células saudáveis continua acontecendo ao mesmo tempo, o que faz com que a doença se desenvolva de forma lenta. Por geralmente não apresentar sintomas em estágios iniciais, oito em cada dez pacientes acabam descobrindo a doença por acaso, durante a realização de um hemograma (exame de sangue).

Sintomas podem levar 10 anos para aparecer

O diagnóstico poderá ser confirmado por meio de um exame físico complementar e do exame de imunofenotipagem, avaliado por um onco-hematologista. Mas, diferente do que se entende popularmente sobre leucemia, em um a cada três casos deleucemia linfocítica crônica não será necessário a realização de um tratamento.

“A LLC tem um comportamento previsível e um curso clínico indolente. O acompanhamento médico de forma regular é necessário, para que, caso sejam identificadas alterações, seja possível iniciar o tratamento com agilidade”, explica Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência de Neoplasias Hematológicas do A.C.Camargo.

Sintomas como sudorese noturna, fadiga, anemia, plaquetas baixas, aumento dos linfócitos e linfonodos aumentados (baço ou fígado), podem indicar que a doença está progredindo. Apesar desses sintomas poderem levar até dez anos para aparecer, quando surgem, é necessário implementar uma estratégia médica rápida e eficaz para controle da doença, levando em consideração o estadiamento, características da doença e condições de saúde do paciente, já que muitos podem ter outras comorbidades associadas, pelo avanço da idade.

Como é o tratamento da LLC?

“Check-ups médicos anuais ou acompanhamento de outras patologias são as formas mais comuns e não intencionais de identificar a LLC, já que ela pode ser identificada por meio de um hemograma, exame de sangue simples e comumente solicitado. Caso o exame aponte um aumento nos linfócitos, é necessário investigar”, esclarece,

Para esses dois terços de pacientes que necessitam realizar o tratamento da leucemia linfocítica crônica, a boa notícia é que com o avanço da medicina, há cada vez mais personalização dos tratamentos, o que contribui para um melhor controle da doença, além de proporcionar maior qualidade de vida aos pacientes. Atualmente, há diversas opções de tratamento, como quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo, terapia de suporte ou transplante de células-tronco. 

“O principal objetivo com o tratamento da LLC é amenizar os sintomas, prolongar a sobrevida e conceder qualidade de vida para os pacientes. Assim como qualquer outra doença crônica, não há perspectivas de cura, mas é possível viver com qualidade. Inclusive, atualmente, muitos pacientes conseguem realizar o tratamento por meio de medicamentos orais, que promovem maior conforto e comodidade para que continuem exercendo suas atividades normalmente”, reforça Dr. Schmidt.

Superação

‘Minha história com a LLC: quase 5 anos com a doença controlada’

Por Eurico, médico cardiologista de 66 anos, há 12 com o diagnóstico de Leucemia Linfocítica Crônica

Minha história com a LLC começou em 2011, quando eu fui fazer um exame de check-up anual, que eu fazia na empresa na época, e um dos exames, que foi um hemograma, detectou um aumento no número de linfócitos. Não era uma coisa absurda, mas estava aumentado, tipo duas vezes o valor normal, alguma coisa desse tipo.

Eu trabalhava com uma médica hematologista, que fazia parte da minha equipe na época, e eu mostrei pra ela, e ela falou: “Olha, está um pouco aumentado, mas pode ser uma infecção que você teve, alguma outra coisa, vamos repetir daqui a duas ou três semanas”.

Bom, aí eu fiz isso, os valores continuaram aumentados, basicamente de linfócitos, não tinha nenhum outro fator, nenhuma outra alteração, e aí ela pediu que a gente fizesse uma avaliação um pouco mais detalhada pra tentar entender o que estava acontecendo. Na época, fiz uma imunofenotipagem, demorou umas duas, três semanas para sair o resultado.

Aí ficou um diagnóstico impreciso entre leucemia linfóide crônica e linfoma do manto. Em seguida, mostrando isso à hematologista, ela esclareceu para mim que, normalmente, se fosse a LLC, eu não precisaria nem de tratamento, dependendo do caso. E pediu uma série de exames para confirmar, não somente o diagnóstico, mas ter uma ideia de prognóstico.

Então, eu fiz uma série de exames, desde exames cardiovasculares, como eletro e ecocardiograma, vários marcadores biológicos de prognóstico e de gravidade da doença, cariótipo. Repeti todos os exames hematológicos e também alguns exames bioquímicos de função hepática, função renal e incluindo aí um PET-CT e uma biópsia de medula.

Nesse período, no finalzinho de 2011, é claro que tudo isso gerou uma ansiedade muito grande, mas eu não parei de trabalhar. Com o apoio da família, de amigos, enfim, a gente vai enfrentando, mas foi um período bastante difícil.

Quando eu vi o resultado do PET-CT, eu já fiquei um pouco mais tranquilo porque eu não tinha praticamente captação nenhuma. Então, mostrava que a doença não estava infiltrando a medula de forma importante.

Quando foi no começo de 2012, eu retornei a essa médica e ela confirmou realmente que eu não precisaria fazer tratamento. Eu já tinha procurado me informar, uma vez que eu sou médico e realmente havia a possibilidade de não precisar de tratamento, que foi o meu caso, e isso foi caminhando nos próximos seis anos de 2011 a 2017, basicamente com exames periódicos a cada três meses ou a cada seis meses.

Nesse período eu troquei de médico. Só que em 2017 eu comecei a apresentar alguns sintomas de cansaço, de indisposição, de emagrecimento, e aí foi constatado que eu estava começando a apresentar uma anemia, que é esperada nesses casos quando a doença desenvolve um pouco, mas também não era nada insuportável e até no começo manteve-se a opção de não tratar.

Só que aí, em meados de 2017, realmente o número de linfócitos – que não é o único parâmetro utilizado para avaliar – subiu muito, a minha hemoglobina – que é o parâmetro utilizado para ver a anemia – caiu bastante.

E aí a decisão foi fazer um tratamento inicial para dar uma controlada na doença, e eu fiz um período de quatro ou cinco ciclos de quimioterapia no fim de 2017 e começo 2018. Só que o resultado não foi satisfatório. E aí a opção foi refazer todos os exames. Aliás, eu já tinha refeito um pouco antes disso, no meio de 2017, e realmente se confirmou o diagnóstico.

A despeito de não funcionar adequadamente a quimioterapia, que não foi nenhuma quimioterapia pesada, eu fiz uma biópsia de um dos gânglios que também tinha aparecido durante o curso do desenvolvimento da doença. E a ideia foi, realmente, confirmar a LLC, mais uma vez, e iniciar um tratamento oral com uma medicação que eu tomava uma vez ao dia.

Só que no começo de 2019, depois de mais ou menos oito meses utilizando esse medicamento, eu tive uma arritmia cardíaca, fiquei internado durante uma semana. Então, mudei a medicação para uma outra que tem uma especificidade maior e com menos efeitos colaterais, e é a que eu tomo até hoje. Uma medicação oral, chamada quimioterapia oral, mas na verdade ele não é um quimioterapia, é uma droga que age sob uma enzima específica.

Hoje, basicamente, há quase cinco anos, eu estou com a doença controlada, não tenho praticamente evento adverso nenhum, faço controles a cada quatro, cinco meses, e me sinto super bem. Vida normal”.

7 mitos e verdades sobre a  Leucemia Linfocítica Crônica

No mês de conscientização sobre as leucemias, conhecido como Fevereiro Laranja, o especialista Gustavo Bettarello, médico hematologista da Oncologia D’Or e do Hospital DF Star, de Brasília, esclarece 7 mitos e verdades sobre a LLC.

1 – Existe apenas um tipo de leucemia

Mito. Há pelo menos 12 tipos de leucemias, que podem ser classificadas a partir da velocidade de evolução da doença ou do tipo de célula comprometida. A classificação entre crônicas ou agudas se refere à velocidade de agravamento da doença – as crônicas se agravam mais lentamente, enquanto as agudas costumam apresentar quadro agressivo mais rapidamente.

Sobre o tipo de célula afetada, as leucemias que afetam as células linfoides são chamadas de linfoide, linfocítica ou linfoblástica e aquelas que afetam as células mieloides são chamadas mieloide ou mieloblástica. A Leucemia Linfocítica Crônica (LLC), portanto, é uma doença de desenvolvimento lento e mais comum em adultos.

2 – A LLC é silenciosa

Verdade. Por ser uma doença de progressão lenta, os sintomas podem demorar a aparecer, sendo que a maior parte dos pacientes nunca apresentará sintomas relacionados à doença. Mas, quando presentes, alguns pacientes podem apresentar febre, perda de peso, mal-estar e gânglios aumentados (caracterizado por ínguas nas regiões do pescoço, axilas ou virilhas), que podem causar dor ou desconforto. Além desses sintomas poucos específicos, a queda nas contagens de plaquetas, que causam fadiga ou até mesmo anemia, pode ser indício da doença. Por isso, é importante procurar um médico caso qualquer sintoma seja notado.

3 – A LLC pode ser descoberta por meio de um hemograma

Verdade. Um hemograma completo pode indicar a existência da doença, que apresenta um aumento nos linfócitos[6], conhecido como glóbulos brancos (células que integram o sistema imunológico). Exames mais específicos, como imunofenotipagem, também são solicitados para confirmação do diagnóstico e diferenciação de outras doenças onco-hematológicas. Quando há necessidade de tratamento, exames genéticos e moleculares contribuem para avaliação do prognóstico da doença e para a seleção do tratamento mais adequado6.

4 – Em alguns casos, não é indicado tratamento para pacientes com LLC

Verdade. Como a LLC tem uma evolução lenta, muitos pacientes não precisam ser tratados ao diagnóstico[7]. Para os casos em que é necessário, estão disponíveis diferentes opções tais como: quimioterapia, imunoterapia, terapia-alvo e, em alguns casos, transplante de células-tronco.

5 – Pacientes diagnosticados com LLC podem viver por anos com qualidade de vida

Verdade. Apesar do impacto emocional de receber o diagnóstico de uma doença como a leucemia e de saber que é um subtipo que não tem cura, a maioria dos pacientes vive bem com a doença por muitos anos. A grande dificuldade, em muitos casos, está relacionada com a jornada de tratamento, que inclui acompanhamentos médicos frequentes, realização de exames e toda a mudança de vida que é necessária quando se tem uma doença crônica. Por isso, o apoio e o suporte emocional de familiares e amigos é muito importante para os pacientes.

6 – A LLC é rara em países ocidentais

Mito. A LLC é mais comum na Europa e América do Norte e rara na Ásia8. Inclusive, asiáticos que moram em países ocidentais, como nos Estados Unidos, não apresentam risco elevado de desenvolver a doença. Segundo especialistas, isso pode indicar que o aparecimento da doença está mais relacionado a fatores genéticos e não a fatores ambientais9.

7 – É possível prevenir a LLC

Mito. A LLC não tem uma causa definida e nem fatores de risco estabelecidos. Mas, é possível afirmar que o avanço da idade aumenta os riscos de se desenvolver a doença, visto que a idade média do diagnóstico é 70 anos3. Não há indícios de que fatores que geralmente estão associados a outros tipos de câncer, como má alimentação, tabagismo, entre outros, se relacionem com o surgimento da LLC. Portanto, não existem métodos comprovados de prevenção.

Com Assessorias

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