Setembro é o mês dedicado aos debates de conscientização e prevenção ao suicídio. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que um brasileiro a cada 45 minutos tira a própria vida e cerca de 90% dos casos poderiam ser tratados. Mas um fato pouco discutido e também alarmante é o de que o índice é até dez vezes maior entre pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).
Em 2019, a Autism Research, revista médica da National Autistic Societ (Sociedade Internacional de Pesquisa em Autismo), publicou um artigo com dados dos EUA para determinar a incidência de suicídio entre indivíduos com TEA ao longo de um período de 20 anos, e para caracterizar aqueles que morreram. O estudo mostra que 66% dos autistas já pensaram ou ainda pensam em suicídio em algum momento da vida, e que até 35% já planejaram ou tentaram suicídio.
O estudo, realizado entre 2013 e 2017, reúne dados sobre o suicídio de autistas por fatores como gênero e idade. A incidência cumulativa de suicídio na população com autismo foi de 0,17%, significativamente maior do que na população geral, de 0,11%.
Pessoas no espectro, meninas e mulheres em particular, correm alto risco de suicídio, de acordo com o estudo, que analisou o comportamento suicida em mais de 2 milhões de pessoas. Entre as pessoas autistas com deficiência intelectual, 1 em cada 13 mulheres tenta suicídio, em comparação com 1 em cada 20 homens.
No Brasil, a pesquisa “Retratos do Autismo”, da Genial Care – rede de cuidado de saúde atípica especializada em crianças autistas e suas famílias -, aponta que 49% dos autistas já apresentaram comportamentos de autolesão e 7% tentaram tirar a própria vida.
Risco de depressão é 4 vezes maior na comunidade autista
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido por critérios diagnósticos como a presença de prejuízos na comunicação e na interação social, e a existência de comportamentos repetitivos e restritivos, com manifestações destes dois elementos em diferentes níveis de intensidade, o que define onde o indivíduo está no espectro autista.
Além disso, outros transtornos podem estar associados, desencadeando a manifestação de diferentes sintomas. Estes transtornos ou comorbidades podem se manifestar como depressão, TDAH, transtorno de ansiedade, entre outros. Estudos internacionais apostam que pessoas com TEA são até quatro vezes mais propensas a sofrer de depressão ao longo da vida.
O tamanho do problema pode ser medido pelos dados internacionais e nacionais sobre autismo. Segundo o CDC (2023), 1 em cada 36 crianças está dentro do espectro autista. No Brasil, o Censo 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o que corresponde a 1,2% da população com dois anos ou mais. A maior prevalência está em crianças de 5 a 9 anos, com 2,6% diagnosticadas — uma em cada 38 crianças.
68% dos cuidadores não têm tempo para si e quase metade sente culpa
Neste Setembro Amarelo, as discussões sobre prevenção ao suicídio e saúde mental ganham mais uma camada: o esgotamento de mães atípicas — mulheres que criam filhos com autismo, deficiências intelectuais ou síndromes genéticas.
Um estudo feito em 2025 pela Universidade da Califórnia revelou que 50% das mães de crianças autistas apresentaram altos níveis de sintomas depressivos ao longo de 18 meses, enquanto apenas 6% a 13% das mães de crianças neurotípicas mostraram níveis semelhantes.
No Brasil, uma pesquisa da Fiocruz (2022) revelou que 57% dessas mães apresentam sintomas de depressão ou ansiedade, muitas vezes sem acesso a tratamento adequado. Na mesma linha, uma pesquisa da UFRGS constatou que 70% das mães de autistas enfrentam altos níveis de estresse, impulsionados principalmente pelo isolamento social, pela escassez de rede de apoio e pela falta de suporte conjugal.
O estudo “Cuidando de quem cuida”, também realizado pela Genial Care, mostrou que 86% dos cuidadores de crianças com TEA são mães. Entre eles, 68% relatam não ter tempo para si, e 47% das mães relatam sentir culpa pela condição dos filhos — um peso que amplia o desgaste físico e psicológico.
Setembro Amarelo expõe a saúde mental esquecida das mães atípicas
Entre diagnósticos, exclusão e jornadas solitárias, mulheres que criam filhos com deficiência encontram força na coragem de não desistir.

Elas vivem entre o amor que transborda e uma solidão que sufoca. Por isso, é preciso agir também para discutir caminhos para proteger a saúde mental de quem cuida. Não é apenas a exaustão física que pesa, mas o apagamento social: escolas que negam matrículas, convênios que recusam terapias, festas em que seus filhos não são convidados.
Nesse cenário, um livro recém-lançado joga luz sobre um tema que muitas preferem calar. Em “Quase Invisível: O caminhar de uma mãe no autismo”, a assistente social e pesquisadora Emília Gama transforma sua trajetória em voz coletiva.
O livro, lançado em setembro de 2025, representa um retrato cru e poético do que significa ser mãe em um país onde a inclusão ainda é promessa distante. Mãe de Miguel, 15 anos, que tem síndrome de Down, deficiência intelectual severa e autismo, Emília escreve com visceralidade:
Escrever foi como revisitar todas as versões de mim mesma: a que chorou no banheiro sem saber o que fazer, a que esperou diagnósticos em silêncio, a que resistiu por amor”.
No livro, ela denuncia as feridas de uma sociedade que ainda exclui, mas também celebra a coragem de quem não desiste.
O último capítulo é que toda mãe encontra outra mãe. Não é aquela de sucesso financeiro ou milhares de seguidores. É a mãe que acorda todos os dias e escolhe não desistir. A rede de apoio mais valiosa que existe é uma outra mãe.”
Emília, fundadora do IEPSIS (Instituto de Ensino e Pesquisa em Saúde e Inclusão Social), já apoiou centenas de famílias. Mas acredita que seu maior legado está em dar nome às dores escondidas atrás de sorrisos: “A maternidade atípica não segue planos nem manuais. Nos arranca da zona de conforto, nos obriga a crescer sem pedir licença e nos transforma para sempre.”
Barreiras estruturais e sociais começam no acesso à educação
O Setembro Amarelo traz à tona uma questão ainda pouco discutida fora do círculo das famílias atípicas: o impacto psicológico das barreiras sociais enfrentadas por pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e seus cuidadores. As barreiras estruturais e sociais impostas pela falta de acessibilidade e inclusão impactam diretamente a saúde mental de pessoas autistas.
Desde o diagnóstico até a inclusão no mercado de trabalho, os desafios se acumulam, exigindo estratégias contínuas de enfrentamento e suporte. Essa combinação de obstáculos tem reflexos diretos na saúde emocional dos cuidadores de pessoas com autismo.
A escolarização é um dos principais gargalos. Apesar de 36,9% das pessoas com autismo estarem na escola, a permanência cai bruscamente após o ensino fundamental. Entre os adultos com 25 anos ou mais, 46,1% não concluíram o ensino fundamental, percentual acima da média nacional (35,2%). No mercado de trabalho, o cenário é ainda mais excludente: 85% dos autistas estão fora da força de trabalho, segundo o IBGE.
O apoio às pessoas autistas é uma prioridade estratégica para a saúde pública e social. Evidências indicam que indivíduos com TEA apresentam riscos significativamente maiores de desafios emocionais e psicológicos, reforçando a necessidade de políticas e práticas coletivas”, afirma a psicóloga Grazielle Bonfim, coordenadora de Formação Clínica da Genial Care.
Segundo ela, a combinação de exclusão social, dificuldades de inserção no mercado de trabalho e ausência de suporte adequado exerce efeitos diretos e cumulativos não apenas sobre os autistas, mas também sobre suas famílias,
A criação de redes de apoio, a capacitação de professores, programas de acolhimento e políticas públicas baseadas nos dados do Censo são passos essenciais para aliviar a sobrecarga e garantir condições mais justas de desenvolvimento.
A orientação parental auxilia os cuidadores a entenderem melhor os comportamentos desafiadores de seus filhos e a lidar com suas próprias emoções. A inclusão do autocuidado e a criação de uma rede de apoio são aspectos essenciais para promover o bem-estar de toda a família”, destaca Grazielle.
Setembro Amarelo reforça alerta: exclusão social amplia risco de depressão e suicídio
O Setembro Amarelo reforça que saúde mental é responsabilidade coletiva. Para pessoas autistas e suas famílias, essa pauta é urgente: sem diagnóstico precoce, escolas inclusivas, oportunidades de trabalho e suporte adequado, os riscos de isolamento, depressão e suicídio aumentam de forma alarmante. O fortalecimento de políticas públicas e a implementação de programas de inclusão têm impacto direto na redução de riscos psicológicos para autistas e suas famílias.
Investir em diagnósticos precoces, formação de professores, adaptação de espaços educacionais e incentivo à empregabilidade pode diminuir significativamente os episódios de isolamento, ansiedade e depressão. Além disso, a conscientização social sobre o autismo contribui para a construção de uma sociedade mais inclusiva, onde os direitos e a saúde mental dessas pessoas são respeitados e protegidos”, enfatiza a coordenadora clínica da Genial Care.
Além disso, o engajamento da sociedade civil, instituições de saúde e empresas é fundamental para transformar dados em ações concretas. Criar redes de suporte, compartilhar informações e garantir que cuidadores tenham acesso a recursos e orientação especializada são medidas que reduzem a sobrecarga emocional e fortalecem a resiliência das famílias.
Garantir suporte integral às pessoas com autismo e seus cuidadores não é apenas uma questão de cuidado individual, mas de planejamento social e saúde pública. A prevenção de riscos à saúde mental depende de ações coordenadas, educação inclusiva e políticas de trabalho que considerem as necessidades específicas dessa população. Sem isso, os efeitos da exclusão e da sobrecarga emocional persistem e se acumulam”, destaca Grazielle Bonfim.
Com Assessorias



