Reconhecendo que a saúde mental é um dos pilares mais afetados entre as mulheres que são alvo de violência no Brasil — como vimos na reportagem sobre o medo constante do estupro que atinge 97% das brasileiras —, o Ministério da Saúde inicia este mês a oferta de teleatendimento psicológico.
Com previsão de 4,7 milhões de consultas anuais, a iniciativa é voltada para mulheres que já sofreram agressões ou que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade psicossocial, servindo como uma barreira preventiva contra o agravamento de quadros de depressão e ansiedade.
A oferta de teleatendimento em saúde mental para mulheres expostas à violência ou em vulnerabilidade psicossocial pelo SUS terá início neste mês de março em duas capitais – Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ). Em maio, chegará às cidades com mais de 150 mil habitantes. A previsão é que em junho chegue a todo o país.
A primeira consulta terá um papel estratégico de triagem: identificará o grau de risco em que a mulher se encontra, mapeará sua rede de apoio e fará a conexão imediata com os serviços de referência presenciais. Esta integração é vital para garantir que o atendimento digital seja uma porta de entrada segura para o sistema de saúde, oferecendo suporte contínuo para que essas mulheres possam interromper o ciclo da violência antes de desfechos fatais.
Queremos que o SUS seja um dos lugares mais acolhedores para uma mulher em situação de qualquer tipo de violência”, afirmou o ministro Alexandre Padilha, reforçando a necessidade do engajamento masculino no combate à misoginia.
A presidente do Grupo Mulheres do Brasil, Luiza Trajano, reforçou a importância de ter o SUS nas ações de enfrentamento à violência contra a mulher. “Eu queria cumprimentar pelas ações anunciadas e reforçar que educar as pessoas na ponta é fundamental. Não é uma causa do governo, é uma pauta global”, defendeu.
Teleatendimento em saúde mental
Por meio de uma parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS). o serviço será oferecido via aplicativo“Meu SUS Digital”, que já oferece teleatendimento de saúde mental a pessoas que enfrentam dificuldades de lidar com a compulsão em jogos de apostas.
O acesso ao serviço será realizado de forma articulada e acessível: as mulheres poderão ser orientadas e encaminhadas nas unidades da Atenção Primária à Saúde (APS), como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), e serviços da rede de proteção – ou buscar o atendimento diretamente pelo Meu SUS Digital. O novo serviço passa a funcionar no fim do mês, inicialmente para mulheres do Rio e Recife.
Na plataforma, haverá um miniaplicativo de saúde mental onde a pessoa faz o cadastro para avaliação inicial da situação de violência. A partir dessas informações, o aplicativo enviará mensagem com o dia e o horário do teleatendimento.
A primeira consulta identificará riscos, rede de apoio e demandas, com articulação junto aos serviços de referência para garantir que o teleatendimento funcione como porta de entrada qualificada e integrada à rede pública de saúde e assistência.
O diferencial do novo serviço está na equipe. Segundo o ministro Alexandre Padilha, o atendimento não será restrito a médicos, mas contará com um arranjo completo de suporte:
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Psicólogos e psiquiatras: Para suporte clínico e terapêutico.
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Assistentes sociais: Para orientação sobre direitos e rede de proteção.
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Terapeutas ocupacionais: Para auxílio na retomada da autonomia em casos específicos.
Como vai funcionar o teleatendimento de saúde
O teleatendimento a mulheres vítimas de violência pelo SUS chega como uma resposta tecnológica à carência de infraestrutura em cidades pequenas, permitindo que a assistência chegue a locais onde delegacias ou casas-abrigo ainda são insuficientes.
As medidas anunciadas reforçam a análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que destacou em nossa matéria anterior a extrema vulnerabilidade das mulheres negras e a carência de serviços no interior.
Ao descentralizar o atendimento via telemedicina e unidades móveis, o Estado tenta dar a capilaridade necessária para que a proteção chegue onde as delegacias especializadas ainda não chegaram.
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Recuperando a autoestima: reconstrução dentária no SUS
Uma das ações mais impactantes anunciadas é o Programa de Reconstrução Dentária para Mulheres Vítimas de Violência Doméstica, integrado ao Brasil Sorridente. O SUS passará a oferecer, de forma gratuita, próteses, implantes e restaurações para mulheres que sofreram lesões bucais decorrentes de agressões.
Para viabilizar o programa, o ministério distribuirá 500 impressoras 3D e scanners para Unidades Odontológicas Móveis em todo o país. O foco é o atendimento humanizado, devolvendo não apenas a funcionalidade mastigatória, mas a dignidade e a autoestima de sobreviventes que carregam marcas físicas da violência.
O acolhimento humanizado nos serviços de saúde é uma diretriz do Governo do Brasil que começou a instalar as Salas Lilás, um espaço estruturado para atendimento a mulheres expostas a situações de violência. Estes espaços estarão presentes nas 2,6 mil Unidades Básicas de Saúde, 101 policlínicas e 36 maternidades que serão construídas pelo Novo PAC Saúde.
Mutirão pela saúde das mulheres
Complementando o pacote de ações para o mês das mulheres, nos dias 21 e 22 de março, ocorrerá o maior mutirão de saúde da mulher do SUS, focado em reduzir filas para exames, cirurgias ginecológicas, oncológicas e inserção de métodos contraceptivos de longa duração (Implanon). mobilizando as redes pública e privada.
Nesta ação do Agora Tem Especialistas, as mulheres pacientes do SUS que esperam atendimento especializado serão chamadas, de acordo com a regulação local, para realizar os procedimentos, incluindo os ginecológicos, bem como cirurgias oftalmológicas, cardíacas, gerais e oncológicas.
Estarão mobilizados os 45 hospitais universitários federais da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), os hospitais federais do Rio de Janeiro, os institutos nacionais de Cardiologia, de Câncer e de Traumatologia e Ortopedia, o Grupo Hospitalar Conceição (GCH), além de hospitais privados e filantrópicos que integram o programa.
Ainda no dia 21 de março, 26 hospitais universitários realizarão a inserção do implante subdérmico, método contraceptivo de alta eficácia e longa duração conhecido como o Implanon. A expectativa é que mais de mil pessoas sejam atendidas com o método durante a ação.
E as carretas de saúde da mulher do Agora Tem Especialistas, que já percorreram todos os estados do país em 2025, chegarão a 32 municípios dos estados de Paraná, Santa Catarina, Piauí, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, São Paulo, Minas Gerais, Pará, Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Tocantins, Sergipe, Rondônia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Pernambuco e Mato Grosso.
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Maria da Penha cobra rede de apoio no interior: “O julgamento social ainda protege o agressor”
Ativista alerta que cidades pequenas carecem de proteção direta e sofrem com o machismo institucional no Judiciário
A falta de infraestrutura de proteção nas cidades pequenas ganhou um depoimento de peso nesta semana. A ativista Maria da Penha – que dá nome à lei que protege as mulheres brasileiras – reafirmou que o combate à violência doméstica precisa, urgentemente, romper as fronteiras das grandes capitais e alcançar os pequenos municípios brasileiros.
Durante o seminário Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres, em Brasília, Maria da Penha destacou que, no interior, a “invisibilidade” da violência é alimentada por uma mentalidade que prioriza o papel do homem como provedor em detrimento da segurança da mulher. “Até dizem: ‘Ele é tão bom porque não deixa faltar comida em casa’, ignorando o sofrimento psicológico e físico”, alertou.
O abismo da proteção territorial
Os dados do FBSP mostram que metade dos feminicídios no país ocorre em cidades de até 100 mil habitantes, onde apenas 5% possuem delegacias especializadas. Maria da Penha reforça que essa carência institucional deixa a mulher à mercê de julgamentos sociais e de um sistema de justiça que muitas vezes a revitima.
“Quantos absurdos acontecem no Judiciário? Quem tem um bom linguajar consegue anular uma pena justa”, criticou a ativista, lembrando que levou quase 20 anos para que seu agressor fosse preso, após duas tentativas de feminicídio que a deixaram paraplégica. Somente em dezembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Ceará pediu desculpas formais pela omissão e demora no julgamento de seu caso.
Educação como estratégia de prevenção
Para Maria da Penha, a solução para as falhas do Estado passa pela educação. O projeto “Maria da Penha vai às Escolas” será regulamentado pelo Ministério da Educação para ensinar crianças e adolescentes a prevenir a violência. Essa medida é vista como essencial para mudar a cultura de posse e controle que, conforme mostramos em nossa série sobre feminicídio, é o principal combustível para os crimes cometidos por parceiros e ex-companheiros.
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Acesso direto e multidisciplinar
Diferente de outros fluxos que exigem longas esperas, o acesso poderá ser feito de duas formas:
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Encaminhamento: Por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou serviços da rede de proteção.
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Acesso direto: Pelo aplicativo Meu SUS Digital, através de um mini app que será lançado no final deste mês. Nele, a mulher realizará um cadastro para avaliação inicial e receberá dia e horário para a consulta.
A implementação seguirá um cronograma de expansão rápida:
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Março: Início no Rio de Janeiro (RJ) e Recife (PE).
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Maio: Chegada às cidades com mais de 150 mil habitantes.
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Junho: Cobertura em todo o território nacional via aplicativo Meu SUS Digital.
Como buscar ajuda
Mesmo em cidades pequenas, canais nacionais de atendimento estão disponíveis 24 horas:
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Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (Gratuito).
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WhatsApp: (61) 99610-0180.
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Emergência: 190 (Polícia Militar).
Fonte: Ministério da Saúde e Agência Brasil








