Cozinheira de mão cheia, costureira, comerciante… Noêmia Vicente Macedo faria 82 anos na última quinta-feira (26/3), se não fosse a doença que mais mata e incapacita no Brasil. Aos 58 anos, um acidente vascular cerebral “apagou” a mente da minha mãe e desligou a chave do seu corpo. A cada minuto após o AVC, 1,9 milhão de neurônios morrem e, se não tratada devidamente a tempo, essa doença cruel pode romper de vez a conexão vital entre o cérebro e todo o organismo.

Em 2003, mamãe sofreu um terrível AVC isquêmico e o impacto foi devastador: foram sete anos sem andar nem falar. A hemiplegia (paralisia) do lado direito impossibilitava seus movimentos e a afasia (distúrbio de linguagem) afetava severamente a compreensão e a comunicação verbal.  Nos primeiros meses, ela ainda teve lampejos de melhora, graças à reabilitação intensa, que incluía fisioterapia, fonoaudiologia e acupuntura. Tudo custeado por um bom plano de saúde.

Chegou a ficar de pé e caminhar com apoio, mas as dificuldades para fazer coisas mais simples – como comer, se vestir e se higienizar – se acentuaram até parar totalmente. No início, ainda pronunciava algumas sílabas desconexas, além da expressão ‘oh, senhor’, usada para tudo. Como se fosse este seu último apelo antes de perder a capacidade de articular as palavras.

Era impossível saber se a mamãe nos entendia plenamente. Mas ela parecia reconhecer o que via e ouvia e percebia o que queríamos expressar, manifestando suas emoções ao seu jeito, com resignação e resiliência. E nós aprendemos a ler seus olhares e expressões faciais. Sabíamos que ela queria viver e estava feliz por ter sobrevivido e estar entre nós.

Mas, aos poucos, o silêncio se impôs. Novos mini-AVCs que a levaram de volta à UTI algumas vezes ao longo dos anos seguintes agiram como um curto-circuito, queimando as luzes que ainda restavam em seu cérebro – as tomografias mostravam bem isso. A isquemia ia comprometendo cada vez mais as funções motoras, mentais e fisiológicas, aumentando ainda mais as suas limitações.

A doença avançava e a independência minguava. Vieram as fraldas, a necessidade de ajuda para as tarefas mais básicas e um arsenal de remédios. A dieta passou a ser rigorosa para evitar a broncoaspiração e a piora da diabetes – o que poderia complicar ainda mais o quadro. E aquela mulher que sempre foi gordinha e gostava de comer bem, foi definhando, definhando… Muita gente não queria visitá-la. Diziam que não queriam vê-la ‘daquele jeito’.

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Com a caçula, Ana Paula, em sua festa de aniversário após o AVC (Fotos: Álbum de família)

Uma estrutura de home care foi montada na casa que ela construiu com tanto sacrifício e onde queria viver seus dias. Tentamos oferecer a ela o máximo de conforto e qualidade de vida no mundinho do qual ela não se desapegava, o patrimônio construído com tanto sacrifício junto com o marido.

Com o tempo, mamãe passou a ser carregada da cama hospitalar para a cadeira de rodas, a ‘poltrona do papai’ na sala para ver TV (ela adorava as novelas e no começo dava muitas risadas) ou a cadeira de banho. Mas o sofrimento era silencioso e profundo.

Apesar das mudanças de posição frequentes, deitada ou sentada, e da atenção permanente de três cuidadoras que se revezavam com ela, com o tempo surgiram as escaras (úlceras por pressão) que foram se acentuando. As feridas corroíam a camada mais profunda da pele até o osso. Era triste demais assistir à troca de curativos, sem que ela pudesse expressar a sua dor.

Infelizmente, após uma queda da cama hospitalar dentro de casa – fato que até hoje não foi esclarecido por quem a acompanhava -, mamãe perdeu totalmente os sentidos. Foi internada mais uma vez na UTI do Hospital São José do Avaí, em Itaperuna. Os médicos a ‘desenganaram’ – não havia mais o que fazer, só esperar.

Foi mandada de volta para o quarto e ali passou seus penúltimos dias de vida, sob cuidados paliativos, alimentando-se por sonda nasogástrica, com remédios para aliviar as possíveis dores e desconfortos. Entrou em estado vegetativo. Os olhos estavam abertos, mas pareciam não mais enxergar.

Talvez não mais ouvisse ou entendesse minimamente o que se passava ao seu redor ou compreender as palavras amorosas que tive a chance de lhe dizer algumas vezes. Os médicos diziam que só por um milagre. E ele não veio. Compreender a finitude da vida é necessário, mas muito doloroso para quem assiste.

Na minha última visita no hospital percebi que não havia mais energia vital, algum vestígio de vida viável naquele corpo frágil e imóvel sobre o leito hospitalar. Diante de tamanho sofrimento, apelei a Deus para que o melhor para ela fosse feito. Dias depois, mamãe voltou ainda mais uma última vez para a UTI, até seu respiro final. Descansou.

Entre idas e vindas ao lugar de moer mentes

Noêmia e José (Zezinho), no casamento em 10 de setembro de 1966

Na verdade, o sofrimento da minha mãe começou pelo menos duas décadas antes do AVC. Aos 37 anos, ela passou a apresentar crises incontroláveis, em que ficava agressiva e perdia totalmente a consciência. Na época, ouvi que eram decorrentes de um remédio tarja preta para emagrecer que ela teria tomado após o nascimento da caçula “temporona” – mamãe ganhou uns 20 quilos na gravidez e tinha dificuldade para emagrecer.

Não vejo explicação científica nisso. Mas o fato é que os surtos psicóticos se intensificaram, o que a levou a internações traumáticas no sanatório da cidade. Naquele lugar ela vivenciou cenas e dores que não gostava de relembrar – era assunto vedado na nossa família. Por isso, fez questão de apagar tudo aquilo da sua mente – e certamente o AVC se encarregou disso também.

Só muito depois, já adulta, é que fui entender as práticas cruéis a que minha mãe e outros internos eram submetidos para “curar” suas crises e voltar ao seio da sociedade. Naqueles tempos, antes da Reforma Psiquiátrica, fruto de muitos anos da luta antimanicomial, o “tratamento” era desumano e incluía choques elétricos, banhos coletivos, camisa de força e ‘sossega-leão’.

Enquanto lá dentro moíam passados e mentes de gente considerada ‘louca’, do lado de fora um vendedor oferecia laranja descascada na hora por uma máquina manual a quem vinha de todas as cidades da região para visitar seus parentes no hospício. O cheiro daquela fruta e as imagens embaçadas do que vi lá dentro fazem parte das memórias nada afetivas que tentei a todo custo apagar nas últimas décadas.

Eu sentia falta da minha mãe em casa, mas não gostava quando tinha que visitá-la aos domingos no sanatório.  Quando entrava com meu pai e meus irmãos, sentia medo daquelas pessoas andando como zumbis no pátio. O medo daquele cenário de filme de terror se misturava à vergonha e ao receio de ser vista por algum colega da escola – coisas de adolescente.

Era difícil reconhecer minha mãe daquele jeito. Morria de pena de ver aquele olhar perdido, confuso e sem brilho, talvez por força de tanta medicação e dos métodos ortodoxos e cruéis de tratamento que eliminavam a personalidade dos pacientes.

Mas eu queria parecer forte e corajosa e passar otimismo para minha mãe. Afinal, ela precisava de mim. Já na primeira crise dela, com 12 anos de idade, eu tive que aprender a cuidar da minha irmã, então com pouco mais de 1 ano, enquanto mamãe passava longos períodos internada.

A pior das comorbidades: a depressão

Posteriormente, com crises mais espaçadas e mais amenas, ela pôde ser internada na ala de Neurologia do principal hospital da cidade. Os remédios pesados a dopavam e quando voltava para casa, tinha medo de fazer qualquer barulho e mamãe acordar.

Cheia de esperança, acreditava que, se ela dormisse bastante, sem ser interrompida, ela ficaria boa e curada e voltaria a ser a minha mãe de sempre, sem sofrer novas alucinações. Era como se a ‘sonoterapia’ pudesse recuperar a memória e a identidade dela perdidos entre tantas idas e vindas ao sanatório e ao hospital.

Aos poucos, fomos vendo as crises psicóticas darem lugar à depressão, que foi se agravando ao longo dos anos e virou transtorno bipolar, oscilando entre a mania aguda (que a gente chamava de euforia) e a depressão profunda.

Aquela mãe que um dia eu conheci nunca mais voltou a ser a mesma. A personalidade dela se foi e vieram as muitas comorbidades – diabetes tipo 2, colesterol alto, hipertensão arterial e doença cardíaca – que antecederam o AVC e culminaram a sua partida precoce.

Mas o medo e a vergonha causada pelo estigma social que sempre envolveu a saúde mental acompanharam toda a minha adolescência, atravessaram a juventude e chegaram à vida adulta. Com a maturidade, nos sentimos mais livres para encarar nossos próprios monstros.

Tragédias familiares e o coquetel de drogas lícitas

Minha mãe nunca fumou nem bebeu. Mas adorava doce de tudo que é jeito. E açúcar é veneno para quem tem diabetes, quadro que ela desenvolveu depois dos 40, decorrente da obesidade. Também não usava drogas ilícitas, mas era dependente de um arsenal de medicamentos, incluindo os controlados de tarja preta e as injeções diárias de insulina.

Aos 47 anos, minha mãe entrou em depressão severa com a morte do meu irmão, com apenas 24, num acidente de moto, deixando um filhinho de 3 meses de idade, seu primeiro neto. Se a dor de perder um filho é a pior do mundo, imagine ficar viúva dois anos e meio depois? A partida do meu pai, aos 51, vítima de uma septicemia, decorrente de um erro médico numa cirurgia para retirada de pedra dos rins, derrubou de vez a minha mãe.

Não existe remédio para uma tristeza tão grande com dois traumas assim. Com a instabilidade emocional associada às comorbidades e fatores de risco, os problemas cardíacos aumentaram. Mamãe chegou a fazer cateterismo. Os médicos avisaram: ela precisava aderir seriamente ao tratamento medicamentoso, perder peso, fazer atividade física, adotar uma alimentação mais leve e equilibrada, fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Precisava recuperar a alegria de viver e levar uma vida mais ativa e saudável.

Ela bem que tentou. Incentivada pelos médicos, passou a fazer caminhadas diárias, explorando os bairros. Sempre muito simpática e sociável, cumprimentava as pessoas, gostava de bater papo na porta de casa com as vizinhas ou com os fregueses do comércio herdado pelo meu irmão.

Fazia questão de cuidar da casa, das plantinhas no quintal e na varanda, dos bordados e artesanatos, de brincar com o neto, de ir à igreja e até baile da terceira idade frequentou. Viúva aos 50 anos, ela chegou a reencontrar um antigo amor da adolescência, mas o romance logo se desfez. Quis voltar à frente do comércio, mas os planos não avançaram.

Quando a vida perde o sabor e a cor

Com o tempo e as questões familiares, a saúde mental ia ficando cada vez mais instável. Por causa da diabetes e das crises de depressão, perdeu o gosto por cozinhar. O transtorno bipolar evoluiu, dificultando cada vez mais o autocuidado e o comprometimento com os tratamentos. Durante a fase depressiva, mamãe não queria tomar remédios, sair de casa, fazer exercícios, tomar banho nem comer direito. Muito menos ir a médicos ou fazer terapia. Não queria ver nem falar com ninguém.

Mamãe morava sozinha na casa que ela tanto amava, depois que meu irmão mais velho se casou. Eu e minha irmã já vivíamos no Rio de Janeiro há tempos e por diversas vezes tentamos trazê-la para morar com a gente, mas ela não queria a vida na cidade grande. Ela nos visitava com frequência, mas quando estava em depressão passava meses sem querer viajar. Só queria ficar no mundinho dela.

E foi justamente num desses momentos que ela sofreu o AVC, no escuro do seu quarto, sem que alguém pudesse socorrê-la a tempo. Infelizmente, mamãe passou mal durante a noite e só foi encontrada no dia seguinte, caída no chão, com os sinais típicos do AVC – braço dormente, voz enrolada, sem movimento na perna direita.

Dói demais pensar que talvez fosse possível algum tratamento que ao menos atenuasse as sequelas dessa doença tão devastadora. Mas ela precisaria ter chegado à emergência no máximo quatro horas e meia após o primeiro sinal do AVC, para receber o trombolítico.

Essa medicação dissolveria os coágulos (trombos) que obstruem artérias, restaurando o fluxo de sangue para órgãos. sendo utilizada exclusivamente no AVC Isquêmico (causado por entupimento) para salvar o tecido cerebral que está sofrendo isquemia e reduzir sequelas.

Hoje, o SUS oferece um tratamento inovador que promete salvar a vida de pessoas com AVC grave, evitar ou reduzir as sequelas, mas a urgência no reconhecimento dos sinais e no início do tratamento continua sendo fundamental.

A vida na roça e o histórico familiar de risco

Meses após o AVC, na cadeira de rodas, com a filha Rosayne e a neta Maria Clara

Caçula dos oito irmãos, todos nascidos e criados na roça, mamãe enfrentou muitas dificuldades na vida, começando pela infância e juventude sofrida, sem acesso a luz elétrica, nem gás de cozinha e muito menos a educação. Só pôde estudar até a segunda série porque a escola mais perto era longe demais para ir a pé ou a cavalo.

Sempre muito forte, mamãe ajudava na lida diária com os serviços domésticos mais pesados. Quando moça, carregava lata d´água na cabeça e numa dessas viagens da cacimba para casa, a lata caiu e machucou seu nariz, deixando uma pequena deformidade que carregaria para o resto da vida.

Essa marca, no entanto, não foi a única herança do passado. O histórico familiar já silenciava riscos que só compreenderíamos décadas depois, incluindo a predisposição genética para doenças neurológicas e cardiovasculares.

A deficiência de Getúlio e a depressão de Hitler

O irmão mais novo, batizado em homenagem ao ex-presidente Getúlio Vargas, morreu aos 15 anos. Mamãe não tinha muitas lembranças dele, mas contava que Getúlio nasceu com uma grande deficiência mental, não andava, nem falava. Talvez nos dias de hoje fosse diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nunca saberemos.

Ainda adolescente, mamãe viu José, seu irmão mais velho, se matar tomando veneno para animais no celeiro do sítio onde moravam, após receber uma bronca do pai. Segundo ela, meu avô era muito rígido na criação dos filhos e o primogênito não aguentou a pressão. Hoje sabemos que grande parte dos casos de suicídio está relacionada a doenças mentais, muitas vezes, não diagnosticadas ou tratadas a tempo.

Outro irmão da mamãe, passou a vida inteira tendo crises nervosas severas. Certa vez, ela contou que, quando jovem, Joaquim gostava de andar a cavalo de costas. Loucura ou só ‘falta de juízo’? Já viúvo, Tio Joca acabou falecendo por volta dos 80 anos, não por doença neurológica, mas por complicações após de um atropelamento.

Maria, a irmã mais velha, nunca foi diagnosticada com problemas mentais, mas parecia sofrer de um estranho mal: uma certa amargura com a vida. As más línguas atribuíam a dificuldade de demonstrar afeto por irmãos e sobrinhos ao fato de nunca ter sido mãe e só ter se casado depois dos 40 com um viúvo 15 anos mais velho e com vários filhos. Eu não acredito nisso. Tia Maria faleceu com mais de 80 anos, com problemas cardíacos.

Mais um irmão da minha mãe – curiosamente batizado por vovô Adolfo com o mesmo nome do líder nazista alemão (que não precisamos repetir aqui) – até hoje sofre de depressão profunda, intercalada com momentos de aparente ‘normalidade’. Os muitos tratamentos ao longo da vida não conseguiram até hoje cessar as crises depressivas, mas fisicamente segue forte nos seus 86 anos.

Apenas dois irmãos da mamãe – ambos hoje a caminho das nove décadas de vida – não desenvolveram nenhum transtorno e mantêm sempre o humor elevado, mesmo nos momentos difíceis. Uma delas é a querida Tia Marina, minha segunda mãe, que também ocupava o posto de melhor amiga da  mamãe. Ela faz 85 em novembro, com uma saúde de dar gosto, apesar de um ou outro probleminha, como a hipertensão.

Mais recentemente, meu padrinho Ciro – o único que nunca quis morar na cidade – passou a ter problemas cardiovasculares. Fez cateterismo e implantou um marca-passo. Mas até pouco tempo ainda acordava de madrugada para trabalhar na roça, tirando leite de vaca todos os dias, cuidando da plantação e da criação de animais na sua fazenda. Uma vitalidade de desbancar  qualquer novinho.

O AVC do meu avô e o infarto da minha avó

Quando criança, eu adorava passear na casa dos meus avós maternos, na Dezessete, zona rural de Itaperuna (RJ). No início, quando eu era bem pequenininha, íamos no trem que passava em frente à minha casa e descia na porta do sítio deles. Mas em 31 de dezembro de 1973, o trecho entre Porciúncula e Itaperuna da quase centenária Linha de Carangola, criada em 1875 e incorporada pela Cia. Leopoldina em 1890, foi extinta pela RFFSA.

Eu lembro que larguei a chupeta já tarde, só depois que a mamãe prometeu me deixar passar alguns dias de férias lá. Papai foi me levar no seu Fusquinha 68 e voltei de charrete com o vovô Adolfo dias depois. Lembro do cheiro da comida da vovó no fogão a lenha, do café passado no coador com broa de milho, do banho na bacia com água morna no quarto, do som do assoalho de madeira quando pisávamos.

Confesso que à noite me dava um certo medo do silêncio e da escuridão. A luz da lamparina iluminava a casa enquanto o céu ficava todo estrelado lá fora – dava pra ouvir o barulho dos grilos. Até da comadre para fazer xixi eu gostava – o único banheiro da casa ficava do lado de fora e só podíamos ir durante o dia.

Como esquecer o balanço instalado na árvore frondosa em frente da casa, onde os cabritos passeavam berrando e a areia era fininha? Ali no alpendre, à luz do dia, eu me deleitava com a vovó catando piolho na minha cabeça – mesmo quando não tinha nenhum e era só um dengo mesmo.

No ano seguinte, eu estava passando férias de novo por lá quando meu avô passou mal. Mal o dia amanheceu, deixamos ele dentro de casa e acompanhei minha avó para buscar ajuda do vizinho mais perto, a quilômetros de distância, seguindo a pé pela linha do trem desativada para não nos perdermos na mata.

Levado para o hospital, vovô foi diagnosticado com um AVC. Eles tiveram que deixar o sítio e foram morar na cidade. Mais precisamente no nosso quintal, numa pequena casinha que meus pais construíram. Mesmo após muito tempo convivendo com as sequelas do derrame, vovô ainda falava e andava, ainda que com dificuldade. Comemorou 50 anos de casamento e partiu perto dos 80.

Viúva, a matriarca da família Vicente desfez a casa e foi morar com a gente. Descendente de espanhol e português, era a vovozinha perfeita! Carinhosa com os filhos e netos, vó Rosa tinha um dom especial para dar conselhos nos momentos difíceis. Era também muito habilidosa e fazia crochê impecavelmente. Até enquanto a vista aguentou. Muito religiosa, conhecia a Bíblia toda e rezava o terço todo dia. Talvez pelo hábito frequente da leitura, ela preservava uma memória de causar inveja a todos da família.

Com o tempo, vovó Rosa desenvolveu problemas cardíacos. Ela sofria de angina, um sintoma de doença arterial coronariana que indica que o sangue não chega corretamente ao coração (isquemia). A angina instável representa alto risco de infarto iminente.

Mas vovó apreciava demais a vida e por isso cuidava bastante da saúde. Perdeu peso, seguia rigorosamente a dieta recomendada pelos médicos e mantinha-se ativa. Um dia, na casa da minha tia, onde passou a morar, ela via televisão na sala, comeu uma banana e partiu. Feito um passarinho. Uma morte serena, como ela era.

A vida simples de uma mulher guerreira

Mamãe nasceu e morou na roça até se casar aos 22 anos com papai, que também era do interior, mas pôde estudar até a quinta série. Foram morar numa casinha com chão de barro na cidade, nos fundos da casa de um familiar. Eles conseguiram comprar uma casa antiga e grande, com quintal, garagem e uma venda na frente, e aos poucos ela foi reformada.

Aos 25, mamãe já tinha três filhos – eu e meus dois irmãos. Éramos bem pequenos quando ela se divida entre a máquina de costura e o balcão, muitas vezes sendo obrigada a servir cachaça e tira-gosto a fregueses já meio embriagados, enquanto meu pai trabalhava em regime de plantão na Leite Glória.

Depois, papai pediu demissão da fábrica e foi se dedicar integralmente ao comércio, com ajuda dela. Os dois transformaram a velha venda em um minimercado. Aos poucos, ergueram um pequeno patrimônio num bairro simples da periferia. Compram um Fusca. A vida melhorou e os filhos iam crescendo.

Papai adorava construir e trabalhava muito, das 5h às 20h, todos os dias, exceto aos domingos, quando fechava o comércio meio dia. Mamãe também era muito trabalhadeira, econômica e às vezes meio nervosa – quem naquela época não sentia o peso de uma chinelada? Era uma mulher forte, aguerrida, alegre e adorava cozinhar. Sua comida simples, mas sempre deliciosa, era a favorita nas festas e encontros dos dois lados da família.

Levávamos uma vida modesta, mas feliz. Religiosamente, papai visitava a vovó Jandira, mãe dele, toda semana. Lá a gente se esbaldava com os primos, brincando de pique-esconde, queimada, bola de gude, pião, passar anel… (dá para imaginar uma infância sem celular ou internet?). E ainda desfrutávamos das delícias do pomar do vovô Zeca no quintal – carambolas, mangas, goiabas, mexericas… Tudo tirado direto do pé, muitas vezes sem lavar – que os infectologistas de hoje não nos ouçam! ( risos)

Autocuidado, fé, amor e solidariedade

Festa de família: Noêmia com o marido, a avó dele e os três filhos mais velhos

 

Vaidosa, mamãe gostava de fazer as unhas toda semana na casa da manicure – eu adorava acompanhá-la e ficar ouvindo as fofocas (risos). Cuidava da pele do rosto com creme Nívea, usava Leite de Rosas como desodorante, sabonete Phebo ou Francis, shampoo e condicionador da Colorama, perfume Toque de Amor, da Avon, e batom da mesma marca ou aquele “mágico” que durava 24 horas.

Estava com o cabelo sempre arrumado e se vestia bem, apesar da simplicidade. Mamãe fez curso de corte e costura – uma tradição entre as mulheres das décadas de 50 e 60 – e, muitas de suas roupas eram ela mesma que fazia ou consertava. Mas recorria à dona Cenira, a costureira profissional do bairro, para as peças mais trabalhosas, geralmente para as festas de casamento, bodas de prata ou de ouro – que eram muitas naqueles tempos – e também de batizados.

Provavelmente por gostar muito de crianças e ser muito religiosa, mamãe foi escolhida para ser madrinha de muitos filhos de parentes e vizinhos do bairro. Também era convidada como testemunha de ‘enlaces matrimoniais’ junto com meu pai. A Igreja era parte indissociável da nossa rotina. Nosso passeio semanal eram as missas aos domingos.

Mamãe adorava as celebrações do Padre Lamar na Matriz São Benedito – onde ela fazia parte do Apostolado da Oração, “herança” da vovó Rosa. Também gostava das reuniões com as beatas, das quermesses, procissões e encontros bíblicos nas casas dos fieis do bairro. Era uma vidinha simples, mas era dela. 

Apesar de se autoproclamar “católica, apostólica, romana”, ela não recusava um reza forte quando a situação apertava. Tive sarampo, caxumba e rubéola, mas foi na primeira que quase morri aos 8 anos. E lá estávamos nós na casa da rezadeira no morro vizinho para receber um galho de arruda banhado em água com sal grosso ou a pá de madeira esquentada no fogão a lenha.

Rezadeiras ou benzedeiras são mulheres detentoras de sabedoria ancestral que curam males físicos e espirituais através da fé, orações, gestos e o uso de ervas. Comum na cultura popular brasileira, essa tradição mistura catolicismo popular e xamanismo, resistindo ao tempo como forma de cura e conexão com o sagrado.

Solidária, lembro que mamãe também gostava de fazer festas no nosso terraço ou na garagem para crianças carentes da comunidade vizinha para celebrar o Dia de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro.  Nossa casa, nos altos de um pequeno prédio erguido pelo meu pai, também era abrigo certo para muitos desalojados das enchentes quase anuais do Rio Muriaé, um problema que até hoje não foi solucionado por sistemas de drenagem e desassoreamento.

O tempo e o medo do fantasma do AVC

Por tudo o que passou na vida e por todo o bem que fez para o mundo, mamãe não merecia tanto sofrimento, um fim de vida tão trágico. Até hoje eu não compreendo por que. Ainda mais quando vemos tanta maldade nesse mundo, tanta gente desejando e fazendo o mal para outras, pelo simples desejo de ser superior ou melhor – como se houvesse medida suficiente para isso.

Mas o tempo não para. E com o peso do relógio que vai passando, vem aquele mesmo sentimento vivido na infância, na adolescência e na juventude. Tenho medo de repetir a mesma tragédia, de perder a memória, a consciência, os movimentos, a fala, a escrita, o sentimento… Medo de perder a capacidade, a independência, a autonomia, o controle sobre meu corpo, minha mente e minhas emoções.

Estou a apenas dois anos de completar a idade que minha mãe tinha quando sofreu o AVC e ainda estou longe de levar a vida ativa e saudável que eu gostaria e idealizo todos os dias, rompendo com alguns padrões que ainda me prendem a fatores de risco que, associados ao histórico familiar, podem se transformar em uma bomba-relógio para problemas cardiovasculares – os que mais matam no país.

O fantasma do AVC pode rondar o passado, mas não posso permitir que me roube o presente. Preciso vencer o medo com a mesma coragem da menina que foi longe buscar socorro para seu avô a léguas de distância. Com a mesma energia daquela jovem mulher que percorria 720 km fim de semana sim e outro não para cuidar da mãe no hospital ou em casa, mesmo gestante ou com uma bebê ainda pequena, sabendo que poderia ser a última vez.

Coragem – diz a Wikipedia – vem do francês courage ou latim coraticum (bravura do coração). É valentia, audácia, destemor, tenacidade, força moral, hombridade, determinação para enfrentar medos, perigos ou situações difíceis. Não significa ausência de medo, mas a capacidade de superá-lo, exigindo persistência e equilíbrio para agir diante de desafios. Pode ser interpretada como um impulso para agir com firmeza.
Diante das incertezas e da impermanência, recorro a Guimarães Rosa em ‘Grande Sertão: Veredas’:

O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.

Que a força da Dona Noêmia, meu exemplo de coragem, resiliência e sabedoria, seja o combustível para cuidar mais de mim — por ela, por minha irmã, por minha filha e pelas gerações que virão. Porque, no fim das contas, a vida presta.

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