Afasia: entenda a disfunção de linguagem sofrida por Bruce Willis

Assim como outras celebridades, ator Bruce Willis foi diagnosticado com afasia, distúrbio da linguagem que minha mãe também sofreu após um AVC

Bruce Willis, de 67 anos, em sua última aparição no cinema, no filme 'A Fortaleza' (2021) Foto: Divulgação
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Um dos atores mais festejados de Hollywood, Bruce Willis, de 67 anos, teve que suspender sua carreira recentemente após ser diagnosticado com afasia. Essa disfunção faz com que o paciente tenha dificuldade de se comunicar adequadamente, afetando não somente a fala, mas a compreensão de imagens e sons, bem como distintas modalidades de expressão. Esse distúrbio pode ser consequência de diversas doenças, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC), conhecido como derrame cerebral, que é considerado a principal das causas de afasia

No caso do ator, a causa ainda é desconhecida. A família apenas divulgou um comunicado sobre o afastamento de Bruce Willis de suas atividades em função da afasia. “Aos incríveis apoiadores de Bruce, como família queremos compartilhar que nosso amado Bruce está passando por problemas de saúde e foi diagnosticado recentemente com afasia, que está impactando suas habilidades cognitivas”, dizia o comunicado. Outras celebridades também já sofreram com a doença, como lembrou o G1 nesta matéria – veja mais abaixo. 

A afasia também foi uma das complicações que minha mãe sofreu aos 58 anos, quando teve um AVC isquêmico que “queimou” boa parte do seu cérebro. Ela perdeu não só os movimentos do lado direito do corpo, como totalmente a fala e a capacidade de se comunicar. Aos poucos, com ajuda da fisioterapia e da fonoaudiologia, ela foi retomando alguns movimentos, chegou a andar com ajuda de terceiros e passou a emitir sons e palavras sem sentido.

Mamãe não conseguia formular frases e palavras, mas íamos tentando ‘decifrar’ seus sentimentos por meio de seus olhares, expressões e emoções.  ‘Oh, senhor’ era uma expressão que ela repetia, inexplicavelmente, insistentes vezes, muitas delas entre risos. Chegamos a pensar que esta talvez fosse a última frase que ela emitiu, quando sofreu o AVC, sozinha dentro de casa, em meio a uma de suas muitas crises de depressão – ela sofria também de transtorno bipolar.

Com o tempo e a ocorrência de novos mini-AVCs, a capacidade cognitiva da minha mãe foi se deteriorando e também os movimentos e os sons que emitia e com os quais já havíamos nos acostumado a se comunicar com ela.  A situação foi se agravando até o ponto que mamãe parou de andar, comer ou mesmo balbuciar. Perdemos de vez o contato com ela, que passou a vegetar após sofrer uma queda da cama dentro de casa.

Entre muitas idas e vindas ao hospital, mais no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do que no quarto, mamãe resolveu descansar. Aos 65 anos, Dona Noêmia se desprendia silenciosamente daquele corpo que, literalmente, já não mais lhe pertencia, após sete anos de grande sofrimento e, é claro, da nossa angústia e impotência em não conseguir avanços no tratamento, nem mais estabelecer comunicação com ela. Conto pra vocês a triste história da minha mãe não só para mostrar a face mais cruel de um AVC, a doença que mais causa mortes ou incapacitação física em todo o mundo, mas para vocês entenderem um pouco mais sobre a afasia.

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Outras celebridades também sofreram afasia

Em 1996, Kirk Douglas teve um AVC que comprometeu sua fala. Em entrevista ao The Times, em 1999, o ator afirmou que o evento também o afetou emocionalmente. A bela Sharon Stone passou a ter afasia após um aneurisma cerebral em 2001. Por dois anos, teve que “reaprender a andar e falar novamente”. Em entrevista para a ABC News, a atriz afirmou que se tornou “mais emocionalmente inteligente” após a doença.

Em 2004, o apresentador de TV norte-americano Dick Clark sofreu um derrame cerebral, ficou com um de seus lados paralisados e teve a fala afetada pela afasia. Aos poucos foi se recuperando, mas em 2012 sofreu um infarto e morreu, aos 82 anos.

Também por causa de um AVC, o cantor country Randy Travis ficou impossibilitado de falar em 2013. Passou três meses fazendo terapia vocal antes de conseguir dizer a letra “A” novamente e ao longo dos anos conseguiu recuperar sua voz.

“Em meu caso, meu cérebro está funcionando e eu posso entender o que minha mulher me diz, mas eu não posso responder nada próximo de uma frase”, escreveu o cantor, em 2019, em seu livro de memórias.

Em 2010, Terry Jones foi diagnosticado com afasia progressiva primária, a doença em grau avançado que afetou totalmente sua habilidade de comunicação. O ator morreu 10 anos depois, aos 77 anos.

Em 2011, Emilia Clarke sofreu um aneurisma cerebral, que causou um AVC e uma hemorragia subaracnóidea. A atriz foi submetida a uma cirurgia no cérebro e, duas semanas depois, não lembrava seu próprio nome, passando a sofrer uma crise temporária da doença, melhorando semanas depois. Ao jornal The New Yorker, em 2019, revelou: “Nos meus piores momentos, eu queria me desligar. Pedia para a equipe médica me deixar morrer”, contou a atriz.

No Brasil, em agosto de 2021, a promoter de eventos Alicinha Cavalcanti morreu, aos 58 anos, devido às complicações da Afasia Progressiva Primária. Em 2017, Alicinha fora diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença rara. Ela se afastou de sua movimentada agenda de festas e eventos e passou a contar com assistência médica domiciliar.

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Saiba mais sobre a afasia

A afasia é um distúrbio da linguagem que pode afetar um ou mais de seus diferentes elementos, entre eles compreensão, formulação de palavras ou frases, identificação de pessoas, nomeação de objetos, capacidade de escrever ou ler, dentre outros.

Gutemberg Santos, neurologista e professor do Instituto de Educação Médica (Idomed), explica que diversas doenças podem cursar com afasia, desde agudas, como o traumatismo crânio encefálico e AVC por exemplo.

O conhecido derrame cerebral, aliás, é considerado a principal das causas de afasia, mas há também enfermidades crônicas como algumas síndromes demenciais, tais como doença de Alzheimer e Demência frontotemporal (DFT).

Segundo o especialista, o diagnóstico precoce e preciso são determinantes para a instituição de tratamento adequado, podendo significar a diferença entre uma evolução favorável ou não.

“Exames complementares são indicados de acordo com a suspeita diagnóstica, sendo um dos principais, exame de imagem como ressonância magnética ou tomografia computadorizada de crânio. Neste mesmo contexto de etiologia responsável pela afasia, outras sintomatologias podem acompanhar o quadro, muitas das vezes auxiliando no correto diagnóstico”, ressalta o médico.

À Agência Brasil, o neurocirurgião Ricardo Santos de Oliveira explicou que o paciente com afasia pode enfrentar problemas para ler textos, entender falas e sons, falar e escrever. A condição, porém, não se confunde com outras, como disartria (dificuldade de articular palavras da forma correta), disfonia (que causa rouquidão) ou da doença de Alzheimer.

“Temos basicamente duas áreas principais relacionadas com a linguagem. A área primária, relacionada com a parte motora, que utiliza músculos apropriados para verbalização. Outra área é da compreensão. Entre elas há uma conexão. É bem comum que pacientes com lesões nessa localização apresentam alterações na linguagem”, explica

Tipos de afasia

Há dois tipos de afasia. A mais grave é denominada pelos médicos de primária. Ela está associada a doenças degenerativas e provoca a morte de neurônios. Neste caso, a evolução da condição é mais progressiva. Segundo a neurologista Jane Machado de Castro, do Hospital Anchieta, em Brasília, neste tipo não há tratamento ou capacidade de recuperar o paciente mas de lidar com os desconfortos que ela produz.

“Geralmente é doença incurável, intratável e que requer tratamento multidisciplinar. Na afasia primária, um tratamento é tentar retardar os sintomas. Mas ela vai evoluir progressivamente”, explica a profissional.

O segundo tipo é nomeado de afasia secundária, e está relacionado a doenças ou episódios que ocasionam lesões no cérebro. São exemplos o traumatismo craniano, o acidente vascular cerebral (AVC) e doenças infecciosas. Nessa situação, os pacientes sofrem também com os efeitos vinculados a dificuldades na compreensão da linguagem e em formas diferentes de expressão, mas é possível tratar a condição.

“Quando você tem AVC e o paciente não consegue falar, se ele tiver potencial para se recuperar da lesão ele pode conseguir. Mas ele vai precisar de acompanhamento fonoaudiológico e de outras áreas. Numa infecção localizada também pode acontecer de recuperar”, diz a médica.

Dá para prevenir ou tratar?

Na afasia secundária, é possível adotar medidas para prevenir a lesão ou o episódio causador da condição. Os sintomas da doença vão aparecer na dificuldade de comunicação, como frases curtas ou com palavras, enunciados sem sentido, trocas de palavras e fonemas e incapacidade de entender conversas com outras pessoas.

O diagnóstico é clínico, depende da análise de um médico, especializados em neurologia. O neurocirurgião Ricardo dos Santos Oliveira recomenda a procura do profissional adequado assim que os sintomas se manifestarem.

“Qualquer alteração da linguagem é simples de se notar. Isso indica que possa estar ocorrendo algum problema na linguagem. Essas alterações assim que notadas precisam ser avaliadas. Fazemos um exame chamado ressonância nuclear magnética, que avalia com precisão todo o cérebro”, explicou.

Também é importante sempre lembrar que há práticas importantes para evitar AVCs ou doenças cardiovasculares, como controle de peso, hábitos saudáveis, o afastamento do tabagismo e comportamentos regulares do sono.

Com Agência Brasil e Idomed

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