Em um país como o Brasil, o surgimento de febre alta, dor de cabeça e dores no corpo costuma ser o sinal imediato para o diagnóstico de dengue. No entanto, essa semelhança clínica esconde um perigo mortal: a hantavirose. Com as atenções das autoridades sanitárias globais para um surto de hantavírus no navio de um cruzeiro pela Europa, um detalhe pode custar a vida de quem contraiu hantavírus.
Elba Lemos, médica infectologista e coordenadora do Laboratório de Referência do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), faz um alerta crucial aos médicos e pacientes: como os sintomas iniciais da hantavirose (febre alta, mal-estar e dor no corpo) são muito parecidos com os da dengue, o erro no diagnóstico pode ser fatal.
Isso ocorre porque o tratamento padrão para dengue (hidratação venosa agressiva) pode matar o paciente da hantavirose (causando edema pulmonar). Segundo ela, a hidratação venosa agressiva, que salva vidas em casos de dengue, pode “inundar” os pulmões de um paciente com hantavírus e levá-lo à morte. Como a hantavirose evolui rapidamente para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), o manejo clínico equivocado é um dos fatores que contribuem para a alta letalidade da doença no país, que chega a 46,5%.
O conhecimento sobre a doença é fundamental para que seja feito o diagnóstico diferencial, principalmente com a dengue. A terapia de hidratação intensa, preconizada para dengue, pode agravar severamente o quadro respiratório do paciente com hantavirose”, aponta Elba Lemos. “O médico deve considerar a hantavirose antes de hidratar o paciente como se fosse dengue, pois o excesso de líquido pode ‘inundar’ o pulmão infectado pelo hantavírus.”
O que levar em conta na hora de buscar atendimento?
No Brasil, a sobrevivência do paciente depende diretamente da capacidade do sistema de saúde em não confundir o vírus com outras doenças tropicais, como a dengue, já bastante conhecida dos brasileiros. A Dra. Elba Lemos reforça que o médico deve sempre investigar o histórico do paciente nos últimos 60 dias.
Uma pessoa pode ser infectada e só apresentar sintomas dois meses depois. O rastreamento de onde ela esteve nos últimos 60 dias é o que salva”, afirma a especialista.
Ao buscar atendimento, é fundamental que o paciente informe se, nos últimos 60 dias (tempo máximo de incubação), realizou atividades de risco, como:
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Limpeza de galpões ou depósitos de grãos;
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Atividades em áreas rurais ou desmatamentos;
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Prática de ecoturismo e contato com ambientes silvestres.
Teste da Fiocruz detecta em 20 minutos doença que mata 40% dos infectados
Contra uma doença que evolui de uma simples febre para a insuficiência respiratória em poucas horas, o tempo é o maior inimigo. Se houve exposição a áreas rurais, limpeza de galpões, contato com depósitos de grãos ou atividades de ecoturismo, a hipótese de hantavirose deve ser considerada imediatamente. Por aqui, o maior desafio não é uma epidemia urbana, mas a rapidez da assistência.
Para enfrentar a rapidez da doença, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveu uma tecnologia nacional capaz de diagnosticar a hantavirose com apenas uma gota de sangue, uma inovação vital para frear a taxa de letalidade que chega a quase 50% no Brasil.
O novo teste rápido é capaz de detectar o vírus em apenas 20 minutos com uma gota de sangue. A ferramenta, já registrada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), é a principal esperança para unidades de saúde em áreas rurais e remotas, onde o acesso a laboratórios complexos é demorado. Os pesquisadores aguardam a demanda do Ministério da Saúde (MS) para distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS).
Por que o hantavírus de navio europeu não causará uma epidemia no Brasil?
Médica infectologista explica por que o risco global é baixo

Diferente do surto no navio de cruzeiro na Europa — causado pela cepa Andes, que permite a transmissão entre humanos —, a hantavirose no Brasil é transmitida exclusivamente pelo contato com excrementos de roedores silvestres. Por isso, segundo ela, a maior batalha contra a doença acontece nas áreas rurais brasileiras. “O vírus não vai se estabelecer no Brasil porque o roedor reservatório dele não está presente aqui. Cada vírus tem o seu roedor específico”, diz ela.
O surto de hantavirose no navio de cruzeiro MV Hondius trouxe à tona o debate sobre a globalização de agentes infecciosos. Embora o episódio tenha gerado temor global, a ciência brasileira garante: o risco de uma pandemia é baixo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda assim, a gravidade individual da hantavirose exige vigilância.
Segundo a Dra. Elba Lemos, o vírus Andes — cepa que causou o surto no navio europeu — depende de um roedor específico que não existe no Brasil. Em entrevista publicada na Agência Fiocruz, a especialista desmistifica o surto ocorrido em cruzeiro europeu e explica por que o vírus “estrangeiro” identificado em navio não consegue se estabelecer em solo brasileiro.
Ela explica a “fidelidade” do vírus ao seu reservatório natural e reforça que, no Brasil, o perigo real mora no contato com roedores silvestres e na demora em procurar ajuda especializada. Uma das principais dúvidas é se o vírus vindo da Argentina e do Chile poderia se espalhar por aqui. A Dra. Elba explica que cada tipo de hantavírus possui um “roedor de estimação” — o reservatório natural onde ele sobrevive.
O vírus Andes é mantido no roedor Oligoryzomys longicaudatus, que não existe no Brasil. Mesmo que uma pessoa infectada chegue ao país, o vírus não se estabeleceria aqui porque ele não encontraria seu hospedeiro animal para dar continuidade ao ciclo”, esclarece a pesquisadora. No Brasil, circulam nove genótipos diferentes, nenhum deles com registro de transmissão entre humanos.
Lições do cruzeiro
Para a especialista, o evento no MV Hondius deixa uma lição sobre a vigilância constante que o turismo internacional exige. Além de orientar viajantes sobre riscos locais, reforça-se a necessidade de os profissionais de saúde estarem atentos ao histórico de viagens e atividades dos pacientes, garantindo um manejo clínico seguro e ágil.
Dicas de segurança para evitar o contágio:
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Não varra a seco: Ao limpar locais fechados por muito tempo (como paióis ou porões), umedeça o chão com água sanitária antes. Varrer a seco levanta poeira contaminada, que é aspirada pelo ser humano.
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Ventilação é regra: Antes de ocupar qualquer ambiente fechado em zona rural, abra janelas e portas e deixe o ar circular por pelo menos 30 minutos.
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Controle de roedores: Mantenha terrenos roçados e alimentos de animais em recipientes vedados para não atrair ratos silvestres.
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Fonte: Agência Fiocruz




