As doenças renais estão entre os problemas crônicos que mais crescem entre a população brasileira. Se o rim não conseguir filtrar o sangue adequadamente, o organismo acumula líquido e toxinas, gerando um quadro clínico potencialmente fatal. São necessárias sessões regulares de hemodiálise, geralmente duas ou três por semana, com duração em torno de quatro horas cada, para substituir a função dos rins.
Para a maioria dos pacientes, a diálise se torna um tratamento contínuo, com implicações no cotidiano, em vista da frequência das sessões e eventuais efeitos adversos. O número de pacientes com doença renal crônica (DRC) que precisam de diálise registrou um salto de 57,6% nos últimos 10 anos, chegando a mais de 155 mil brasileiros, segundo o Censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Os casos mais comuns incluem os cálculos renais (pedras nos rins) e a insuficiência renal crônica, um quadro em que os rins perdem a capacidade de filtrar o sangue e equilibrar os níveis de água, sais e minerais do organismo.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2023 foram registrados mais de 91 milhões de atendimentos relacionados a cálculos renais e insuficiência renal no país, incluindo cerca de 200 mil internações. Em 2024, o número de hospitalizações ultrapassou os 221 mil, com mais de 52 mil apenas no estado de São Paulo.
Conheça os principais fatores de risco das doenças renais
No Brasil, os números chamam a atenção não só pela alta demanda de atendimentos, mas também pela relação direta com hábitos que podem ser prevenidos. A crescente incidência de DRC reflete uma questão estrutural de saúde, que está diretamente relacionada ao aumento dos principais fatores de risco, que também registraram alta nos últimos anos e seguem em crescimento, como obesidade, diabetes e hipertensão, além do próprio envelhecimento da população.
Dados recentes mostram que mais de 56% dos brasileiros estão com excesso de peso e cerca de 10% da população vivem com diabetes, com um aumento de um ponto percentual em apenas dois anos. Já a hipertensão arterial afeta 27,9% dos brasileiros, sendo mais prevalente entre os idosos, com 62,5% dos maiores de 65 anos diagnosticados com essa condição.
Estudos também indicam a poluição atmosférica como um fator adicional que pode prejudicar a saúde renal. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Amsterdã identificaram o impacto negativo da poluição no funcionamento dos rins, ampliando as preocupações sobre o ambiente como um fator de risco.
Demanda por tratamento reacende debate sobre acesso
Apesar do cenário, a Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética) afirma que o Ministério da Saúde optou por não incorporar à rede pública o medicamento finerenona, utilizado para proteger a função renal de pacientes com diabetes tipo 2 que já apresentam sinais de comprometimento dos rins.
O medicamento também pode reduzir o risco de agravamento da insuficiência cardíaca e de morte por causas cardiovasculares, o que reacende o debate sobre acesso a tratamentos e políticas públicas voltadas à prevenção da progressão da doença.
Para o advogado especialista em direito médico e presidente da Anadem, Raul Canal, a discussão sobre a incorporação de terapias ao sistema público deve considerar os princípios constitucionais relacionados ao direito à saúde.
Quando a Constituição estabelece que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, ela impõe ao poder público a responsabilidade de adotar políticas que reduzam riscos e evitem o agravamento das doenças. Isso significa reconhecer que a proteção à saúde deve ser tratada como um direito fundamental que precisa ser efetivamente garantido pelo Estado”, afirma.
Segundo Canal, a avaliação sobre a inclusão de novos medicamentos também deve considerar impactos de longo prazo no sistema de saúde. “Medidas que retardam a evolução da insuficiência renal podem reduzir internações e a necessidade de diálise. Do ponto de vista do direito à saúde, é fundamental que essas análises sejam feitas com foco na proteção da vida e da dignidade do paciente”, conclui.
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Prevenir é melhor do que remediar
Na semana dedicada ao Dia Mundial do Rim, celebrado na última quinta-feira (12), profissionais de saúde e instituições em todo o mundo reforçam um alerta importante: a necessidade de cuidados estruturais para a promoção da saúde e prevenção da Doença Renal Crônica (DRC) e a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da doação de órgãos.
Em resposta a esse cenário preocupante, especialistas destacam que a solução para a crise da DRC passa por mudanças nos hábitos de vida da população. Alimentação saudável, exercícios físicos regulares, controle de peso, monitoramento de doenças como diabetes e hipertensão, e envelhecimento saudável são medidas essenciais para prevenir e controlar o risco de danos aos rins.
A boa notícia é que a maioria das doenças renais pode ser prevenida com atitudes simples. Manter-se hidratado, controlar a pressão arterial, evitar o consumo excessivo de sal, realizar exames regulares e adotar uma alimentação equilibrada são cuidados essenciais para proteger os rins ao longo da vida”, conclui o nefrologista João Chang.
A prevenção da doença renal está diretamente ligada à adoção de hábitos saudáveis. Por isso, a nefrologista Melissa indica a adoção dos seguintes hábitos:
- Praticar atividade física regularmente;
- Controlar a pressão arterial;
- Manter o diabetes sob controle;
- Parar de fumar, no caso de pessoas tabagistas;
- Adotar uma alimentação equilibrada, com redução do consumo de sal, menor ingestão de alimentos ultra processados e melhora no consumo de frutas e legumes.
Patologias são silenciosas e perigosas, alertam nefrologistas
O Dia Mundial do Rim (12 de março) reforça a importância do acompanhamento médico para identifica alterações que podem levar à falência do órgão. Geralmente, assintomática no início, a doença renal crônica (DRC) causa a perda lenta, progressiva e irreversível da função dos rins.
A diretora do Serviço de Nefrologia do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), Melissa Pinheiro, explica o porquê da dificuldade da detecção dos sinais da doença pelo paciente. “A doença renal crônica começa a apresentar algum sintoma quando está em estágios mais avançados”, afirma.
Com o agravamento da doença, surgem os sintomas como presença de espuma na urina, inchaço nas pernas, falta de ar, falta de apetite e fadiga. Por isso, é fundamental estar atento a sinais como inchaços, alterações na urina, cansaço excessivo e dores na região lombar.
Ao identificar qualquer um desses sintomas, é recomendável buscar orientação médica e realizar exames laboratoriais que avaliem a função renal. “A identificação da doença renal crônica em estágios iniciais permite controlar fatores de risco e evitar a progressão do problema para estágios mais graves, que podem exigir diálise ou até transplante renal”, destaca a Dra Melissa.
É essencial que a população compreenda que as doenças renais muitas vezes se desenvolvem de forma silenciosa. A prevenção e o diagnóstico precoce fazem toda a diferença na qualidade de vida do paciente e na redução de complicações graves”, explica o nefrologista João Chang, da Santa Casa de São José dos Campos.
O diagnóstico requer atenção com exames de rotina. Auxiliam na identificação precoce de alterações no funcionamento dos rins exames simples, como o de urina e de dosagem de creatinina no sangue. “Exames simples são fundamentais para detectar precocemente a doença renal crônica, que pode exigir procedimento de diálise para filtragem do sangue”, diz a médica.
Check up deve incluir exame de creatinina
A DRC é caracterizada pela perda progressiva e irreversível da função renal ao longo de três meses ou mais, podendo, nos casos mais graves, exigir um transplante para garantir a sobrevida do paciente. Em muitos casos, esses problemas evoluem de forma silenciosa, sem sintomas perceptíveis nos estágios iniciais.
Os especialistas enfatizam ainda a importância dos check-ups regulares e da conscientização sobre a saúde renal, que deve ser uma prioridade tanto para os indivíduos quanto para os gestores de saúde pública e privada. O ideal é realizar as análises laboratoriais anualmente
Pacientes que possuem fatores de risco, como diabetes, hipertensão arterial, obesidade, histórico familiar de DRC e idade acima de 60 anos, devem incluir nos seus exames de rotina um teste de sangue para medir a creatinina—parâmetro que indica indiretamente a função dos rins (estimativa da taxa de filtração glomerular) – e um exame de urina para detectar a perda de proteína (albumina), um dos primeiros sinais de lesão renal.
A conscientização é o primeiro passo para reduzir os impactos das doenças renais na saúde pública. Neste Dia Mundial do Rim, o apelo é claro: cuidar dos rins é cuidar da vida”, conclui o nefrologista João Chang.
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