O frenético mercado das canetas emagrecedoras vive a expectativa da próxima geração para perda de peso com a chegada de mais um potente medicamento. Nos estudos de fase 3, a retratutida superou os resultados de outros remédios para emagrecer, atualmente disponíveis no mercado brasileiro. O potencial é tão alto que o medicamento experimental foi apelidado de ‘injeção Godzilla’.
Em dezembro de 2025, a Eli Lilly do Brasil anunciou que seu medicamento experimental para obesidade e diabetes tipo 2, o retatrutide, apresentou resultados considerados os mais robustos já observados na categoria. Após 68 semanas de tratamento, pacientes perderam entre 24% e 28,7% do peso corporal (média de 32,3 kg), bem mais do que os famosos Ozempic (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida).
O TRIUMPH-4, primeiro estudo clínico de Fase 3 com retatrutida, um triplo agonista hormonal (age nos receptores de GLP-1, GIP e Glucagon) foi realizado com pacientes com obesidade e osteoartrite de joelho e melhorou significativamente dor e função física após 68 semanas. Entre os principais destaques dos resultados topline do estudo estão:
- 75,8% de redução na dor (WOMAC) e 73,7% de melhora na função física
- 23,7% dos pacientes perderam mais de 35% do peso
- Benefícios adicionais: redução da pressão arterial e melhora de marcadores cardiometabólicos
O avanço reforça o momento favorável da companhia no setor de emagrecimento, impulsionado pelo sucesso comercial de medicamentos como Mounjaro e Zepbound. A notícia animou investidores: as ações da Lilly subiram 1,2% no pré-mercado.
Como atua o retatrutida
O retatrutide pertence à mesma classe de medicamentos de Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, mas com uma diferença crucial: ele imita três hormônios intestinais que regulam o apetite e podem aumentar o gasto energético.
No estudo de Fase 3, participaram pacientes com obesidade e osteoartrite no joelho, todos com IMC igual ou superior a 35 e sem diagnóstico de diabetes. Eles receberam injeções semanais do medicamento ou placebo ao longo de 68 semanas. Entre os que tomaram a dose mais alta, a perda média foi de 32,2 kg, equivalente a 28,7% do peso corporal.
Para comparação, a dose máxima do Zepbound reduz cerca de 22,5% do peso, enquanto o Wegovy gera redução média inferior a 20%.
Benefícios adicionais e efeitos colaterais
Além da perda de peso, o estudo mostrou que o retatrutide ajudou a aliviar dores no joelho relacionadas à osteoartrite. Como ocorre com outros medicamentos dessa classe, os participantes relataram efeitos gastrointestinais, como náusea e diarreia.
Segundo análise citada pelo The Wall Street Journal, essas taxas foram maiores do que as observadas com Wegovy e Zepbound, mas ainda consideradas compatíveis com o perfil do segmento.
Efeito triplo para combater a obesidade
Para a endocrinologista Alessandra Rascovski, o mecanismo do novo medicamento vai além do que já existe no mercado. “A semaglutida imita o hormônio GLP-1, que influencia nossa sensação de saciedade e está presente em todos esses medicamentos de controle de obesidade e diabetes. Mas a Retatrutida, no entanto, que é um agonista triplo, simula mais dois hormônios, o GIP, que melhora a secreção de insulina após uma refeição e o Glucagon, que aumenta o nível de glicose no sangue contrapondo-se aos efeitos da insulina”.
São drogas e inovações científicas que podem revolucionar as próximas gerações, evitar o surgimento de doenças, melhorar a qualidade de vida e aumentar a longevidade. Estamos animados com os resultados até agora, mas é preciso aguardar o fim da fase 3, que está em andamento” , finaliza a diretora médica da Atma Soma.
Entenda as diferenças entre as canetas emagrecedoras
O mercado brasileiro conta atualmente com diversas opções de medicamentos injetáveis para o tratamento da obesidade, cada um com indicações e mecanismos específicos:
- Saxenda (liraglutida): uso diário, indicado para sobrepeso ou obesidade; promove redução média de 9% do peso corporal.
- Wegovy (semaglutida): primeira caneta criada especificamente para tratar obesidade; reduz em média 17% do peso após um ano; indicada para IMC acima de 30 ou 27 com comorbidades.
- Ozempic (semaglutida): semelhante ao Wegovy, mas com dosagens diferentes; indicado para controle glicêmico em diabetes tipo 2.
- Mounjaro e Zepbound (tirzepatida): apresentam os melhores resultados até agora, com perda de peso chegando a cerca de 25%.
Os riscos das versões falsas de retatrutida
Alerta sobre importação irregular de canetas emagrecedoras: molécula segue em fase 3 de estudos e não possui aprovação sanitária em nenhum país
Enquanto os estudos clínicos da retatrutida seguem em andamento, etapa essencial para confirmar segurança, eficácia e perfil de efeitos adversos, especialistas reforçam que qualquer produto que alegue conter a substância neste momento é considerado irregular, já que ainda precisa passar por aprovação das agências regulatórias antes de chegar ao mercado.
Apesar disso, relatos sobre a entrada irregular dessas canetas no Brasil não são recentes. Antes mesmo do anúncio, versões divulgadas como contendo retatrutida já vinham sendo apreendidas em fronteiras e comercializadas por canais informais, como redes sociais e aplicativos de mensagens. Há também registros de consumidores que atravessam a fronteira para adquirir produtos sem qualquer garantia sanitária ou controle regulatório.
Um evento realizado no final de fevereiro de 2026 no Paraguai para anunciar uma futura versão de retatrutida gerou forte repercussão nas redes sociais e levou muitas pessoas a acreditar que o medicamento estaria prestes a ser comercializado. A molécula, no entanto, segue em fase 3 de estudos clínicos e não foi aprovada pelo FDA, pela Anvisa ou sequer pela própria agência regulatória paraguaia, a Dinavisa.
O risco invisível da cadeia logística de medicamentos
O episódio reacende um debate que vai além da aprovação da substância: o risco invisível da cadeia logística. Fazendo uma analogia, se o anúncio envolvesse uma nova vacina ainda em fase de testes, dificilmente haveria aceitação social para seu uso fora de protocolos científicos. No caso de medicamentos voltados ao emagrecimento, porém, a busca por resultados rápidos tem levado parte da população a ignorar etapas fundamentais de segurança.
Para Ricardo Canteras, especialista em logística de cadeia fria, a preocupação não está apenas na ausência de registro, mas nas condições em que esses produtos chegam ao consumidor final.
Quando falamos de canetas emagrecedoras, não estamos tratando apenas do princípio ativo. Origem, armazenamento, transporte adequado e rastreabilidade ao longo de toda a cadeia são determinantes para a segurança. Qualquer falha de temperatura, controle ou procedência pode comprometer o medicamento e o risco começa antes mesmo da aplicação”, afirma o especialista.
Moléculas como semaglutida, tirzepatida e a própria retatrutida são medicamentos termolábeis. Isso significa que precisam ser mantidos, desde a saída da fábrica até o uso pelo paciente, em ambientes controlados entre 2°C e 8°C, com monitoramento contínuo. Variações térmicas podem alterar propriedades físico-químicas da substância, reduzir eficácia e, em casos mais graves, gerar compostos indesejados.
No mercado formal, todo o processo é monitorado. O transporte pode ser realizado por meio de controle ativo, com veículos refrigerados automaticamente, ou passivo, com embalagens específicas e elementos refrigerantes que bloqueiam a troca térmica. Além disso, há sensores e sistemas de rastreamento que acompanham cada etapa da entrega. Em canais informais, nada disso é garantido”, explica Canteras.
Outro ponto crítico é a ausência de controle de origem e histórico logístico. Produtos vendidos sem nota fiscal, sem retenção de receita e fora de estabelecimentos autorizados não oferecem qualquer segurança de procedência.
Sem nota fiscal, não há registro da cadeia de fornecimento. E sem rastreabilidade, não há como assegurar origem, transporte ou armazenamento correto. Mesmo que a embalagem pareça original, não existe garantia de que a cadeia fria foi mantida”, alerta o diretor Operacional e de Tecnologia da Temp Log, especializada em produtos para a medicina estética.
Para Canteras, o debate sobre acesso e inovação precisa caminhar junto com responsabilidade sanitária. “A acessibilidade é um objetivo legítimo, mas ela precisa vir acompanhada de rigor técnico. Na logística da saúde, a tolerância para erros precisa ser mínima. Estamos falando de produtos que impactam diretamente a vida das pessoas”, conclui.
Com Assessorias




