A cada minuto sem tratar AVC, 1,9 milhão de neurônios morrem

AVC já matou neste ano mais de 87 mil pessoas. Doença atinge cada vez mais jovens e adultos de meia-idade. Reconhecer os sintomas reduz os riscos de morte e sequelas

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De acordo com um estudo publicado na Lacet Neurology, a Organização Mundial do AVC prevê que número de mortes por Acidente Vascular Cerebral (AVC) no mundo pode aumentar em 47% passando de 6,6 milhões em 2020, para 9,7 milhões de casos até 2050. O maior número de casos será observado em países com renda baixa e média, grupo do qual o Brasil faz parte.

Ainda de acordo com os pesquisadores do estudo, os casos de AVC estão aumentando significativamente entre adultos jovens e de meia-idade, abaixo dos 55 anos, sendo a terceira causa de incapacidade no mundo. A estimativa é que cerca de 70% das pessoas não retornam ao trabalho após um AVC devido às suas sequelas, e 50% ficam dependentes de outras pessoas no dia a dia.

O AVC é uma das principais causas de morte no Brasil. Foram 114 mil óbitos pela doença em 2022. Só este ano, até meados de outubro, já vitimou mais de 87 mil pessoas, de acordo com o Portal da Transparência do Registro Civil, mantido pela Arpen Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais). A corrida contra o tempo é fundamental: a cada minuto em que o AVC não é tratado, 1,9 milhão de neurônios morrem.

Campanha Somos #maisqueoAVC

Para chamar a atenção da população sobre a importância da prevenção – uma vez que é possível prevenir até 90% dos casos de AVC se fatores de risco forem controlados e da identificação dos sinais para socorro ágil – o dia 29 de outubro é marcado pelo Dia Mundial do AVC, data que busca a conscientização e prevenção da doença.

A campanha universal “Somos #maisqueoAVC”, da World Stroke Organization, é endossada, em território brasileiro, pela Rede Brasil AVC. A mobilização foca nas ações de prevenção, abordando, especialmente, a importância da aferição e controle da pressão arterial e da fibrilação como ponto de alerta ao risco da doença.

O acompanhamento da pressão é um fator crucial para a prevenção e assistência adequada. Por isso, a campanha defende a necessidade de que locais públicos passem a contar com aparelhos para que as pessoas possam, em qualquer lugar, a qualquer hora, verificar a pressão e, se necessário, receber assistência.

“É possível prevenir até 90% dos casos de AVC, desde que saibamos identificar prontamente os seus sinais. O socorro ágil evita complicações graves, como perda de mobilidade, de memória, dificuldades na fala, além de reduzir o risco de morte, salvando vidas”, explica a neurologista Sheila Cristina Ouriques Martins,  chefe do Serviço de Neurologia do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS) e presidente da World Stroke Organization e da Rede Brasil AVC.

Diferenças entre AVC Hemorrágico, Isquêmico e Ataque Isquêmico Transitório

AVC é o nome que se dá a um quadro clínico caracterizado por déficit neurológico que dura mais de 24 horas, ou que leva o paciente a óbito, que acontece quando há a interrupção de fluxo sanguíneo para o cérebro. Os vasos, artérias ou veias que transportam sangue ao cérebro entopem ou se rompem, e fazem com que uma determinada área cerebral fique sem circulação sanguínea.

Existem dois tipos diferentes de AVC, sendo eles: o AVC isquêmico e o AVC hemorrágico. O AVC Isquêmico é o mais comum e representa 85% de todos os casos. Ele acontece quando há obstrução de uma artéria, impedindo a passagem de oxigênio para células cerebrais, que acabam morrendo. Essa obstrução pode manifestar-se devido a um trombo (trombose) ou um êmbolo (embolia).

Já o AVC Hemorrágico ocorre quando um vaso sanguíneo se rompe, levando a sangramento dentro do cérebro (chamado AVC hemorrágico intraparenquimatoso) ou na área entre a massa cinzenta e suas membranas (conhecido como AVC hemorrágico subaracnóideo).

“O AVC pode ocorrer devido a uma pressão arterial muito alta, aneurisma (dilatação frágil de uma artéria) ou outros problemas nos vasos sanguíneos. No AVC isquêmico uma artéria do cérebro é bloqueada e o tecido que depende dela sofre com a falta de oxigênio, causando danos. Já o hemorrágico ocorre quando um vaso sanguíneo se rompe e sangra para o tecido cerebral”, explica Wagner Mauad Avelar, neurologista e membro da Sociedade Brasileira de AVC, que atua no Hospital São Luiz Campinas.

Há ainda o Ataque Isquêmico Transitório (AIT), que também pode ser causado tanto por isquemia quanto hemorragia, e o quadro clínico é semelhante ao AVC, mas é denominado desta forma quando os sinais e sintomas neurológicos duram menos de 24 horas, sem deixar sequelas.

sintomas e Sinais de alerta

Os principais sinais de alerta para qualquer tipo de AVC ou AIT são caracterizados por uma série de sintomas. Isso inclui uma manifestação súbita de fraqueza ou formigamento em um dos lados do corpo, que muitas vezes afeta o rosto, o braço ou a perna. A confusão mental é outro indicador crítico, juntamente com a alteração na fala ou na capacidade de compreensão.

Mudanças na visão, capazes de prejudicar um ou ambos os olhos, são indicativos preocupantes. Além disso, há a possibilidade de ocorrer dificuldade no equilíbrio, problemas de coordenação, sensação de tontura ou alterações na marcha. O único sintoma que pode ser mais frequente no AVC hemorrágico é a dor de cabeça súbita, pelo aumento e expansão de sangramento dentro do cérebro.

Os principais sintomas consistem em:

perda de força, fraqueza ou formigamento na face, braços ou pernas, especialmente em um lado do corpo;

desvio da rima labial, com a boca torta ao falar;

dificuldades na fala ou na compreensão;

confusão mental;

alterações na visão,

perda do equilíbrio e da coordenação motora;

tontura e

dor de cabeça forte e súbita, que se diferencia das dores habituais.

Até quatro horas para obter socorro

Quando se trata de AVC, cada minuto conta e pode fazer a diferença. Após o aparecimento dos sintomas o paciente tem até quatro horas e meia para iniciar o tratamento. Por isso, é fundamental que as pessoas tenham conhecimento dos sintomas, saibam como agir rapidamente e busquem ajuda médica imediatamente.

“Nos dois casos (AVC isquêmico ou hemorrágico) a rapidez no atendimento é fundamental para diminuir a chance de sequelas. Quanto antes for iniciado o tratamento, mais chances temos de salvar os neurônios que estão em sofrimento”, alerta Avelar.

“Em um cenário de aumento contínuo de casos e alta mortalidade, é essencial saber identificar os sintomas iniciais, já que o tempo é um fator decisivo nesta doença, além de adotar medidas de prevenção, que podem reduzir muito os riscos”, destaca o neurologista Alessandro Augusto de Sousa,  do Hospital São Luiz Campinas.

O tratamento pode ser realizado com uso de medicamentos que ajudam a dissolver o coágulo; procedimento de cateterismo, para desobstruir a artéria por meio de cateter; cirurgias para conter o sangramento e aliviar a pressão intracraniana, entre outros.

Como ajudar?

Ao suspeitar que alguém esteja tendo um AVC, é aconselhável pedir à pessoa para sorrir, observando se um lado do rosto permanece imóvel. Verifique também se ela consegue levantar ambos os braços para verificar se um lado está mais fraco ou se apresenta fala enrolada. Identificando uma ou mais dessas situações, ligue imediatamente para o Samu, no 192.

“Em caso de suspeita de um AVC é preciso buscar ajuda e ligar para o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU), ou para o atendimento de convênio, para garantir a remoção rápida do paciente para um hospital especializado. A intervenção precoce é crucial para a sobrevivência e recuperação”, orienta Dr Celso.

“Caso identifique alguma dessas condições citadas anteriormente, anote o horário exato do início dos sintomas e acione imediatamente o serviço de emergência. Em casos de AVC é essencial encaminhar o paciente para uma unidade com estrutura adequada, pois o tempo é essencial”, enfatiza Avelar.

A Sigla SAMU pode ajudar a identificar acasos de AVC:

 S – SORRISO – o paciente não vai conseguir sorrir, vai apresentar desvio da rima labial.

 A – ABRAÇO – ele não vai conseguir levantar os braços.

 M – MENSAGEM – o paciente não vai conseguir falar.

 U – URGÊNCIA – ligar para um serviço de urgência para este paciente receber o atendimento logo.

Medidas de prevenção

Para prevenir o AVC é essencial adotar um estilo de vida saudável, incluindo não fumar, não consumir álcool em excesso, evitar o uso de drogas ilícitas, manter uma alimentação saudável, manter o peso adequado e praticar atividade física regularmente.

Além disso, exames preventivos incluem medição da pressão arterial, dosagem da glicemia para verificar o diabetes e avaliação da saúde cardiovascular de fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol elevado. Evitar o sedentarismo, excesso de peso, tabagismo, abuso de

“Ao adotarmos um estilo de vida saudável, reconhecermos nossos próprios fatores de risco e buscarmos assistência médica adequada, podemos diminuir significativamente o impacto do AVC em nossa sociedade”, conclui Sheila.

Palavra de Especialista

O aumento dos casos de AVC até 2050: uma perspectiva de saúde global

Por Carlos Roberto Caron*

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é reconhecido mundialmente como uma das principais causas de morte e incapacidade. Estudos recentes apontam para uma preocupante tendência: espera-se que o número de casos de AVC aumente em 50% até o ano de 2050, com média de 9,7 milhões de óbitos ao ano.

Vários fatores contribuem para essa projeção, os quais devem ser examinados atentamente para que possamos entender as razões por trás deste aumento e buscar soluções eficazes para mitigá-lo. No Brasil, o AVC é uma das principais causas de morte, tendo ocorrido um total de 101.965 óbitos em 2019 e 102.812 óbitos em 2020. O AVC é, igualmente, uma das mais importantes causas de incapacidade no país.

Apesar de sua gravidade, é fundamental saber que o rápido atendimento do paciente com AVC permite o emprego de tratamentos que possibilitam o retorno a uma vida normal ou com menos sequelas, principalmente com o uso de medicação trombolítica.

Um dos fatores determinantes para o aumento dos casos de AVC é o envelhecimento da população global. À medida que as pessoas vivem mais, graças aos avanços médicos e melhores condições de vida, aumenta-se o número de indivíduos na faixa etária de maior risco para o AVC. O envelhecimento está associado a diversas alterações vasculares que tornam o organismo mais suscetível a eventos cerebrovasculares.

Da mesma forma, o aumento da prevalência de doenças crônicas, tais como hipertensão, diabetes e obesidade, são fatores de risco diretos para o AVC. Estilos de vida sedentários, dietas pouco saudáveis e outros hábitos nocivos estão crescendo em muitas regiões, impulsionando a incidência dessas condições. O ritmo acelerado de urbanização, que causa declínio nas atividades físicas e uma crescente dependência de dietas processadas, também contribui para o aumento no risco de AVC.

O tabagismo é um outro grande problema. Apesar das campanhas antitabagismo, em algumas regiões, especialmente em países em desenvolvimento, o uso do tabaco continua a crescer, representando um relevante fator de risco para o AVC.

Deve-se ainda considerar que, apesar dos avanços tecnológicos da medicina, o acesso a cuidados de saúde de qualidade continua a ser desigual em muitas regiões do mundo. Pessoas em áreas desfavorecidas ou em países com sistemas de saúde menos robustos tendem a ter menor acesso a tratamentos preventivos e intervenções para o AVC. Além disso, muitos indivíduos não estão cientes dos fatores de risco do AVC ou não têm acesso à informação e recursos para prevenção. Isso reforça a necessidade de intensificar os esforços educacionais e campanhas de conscientização.

Diante desse cenário, torna-se imperativo que governos, organizações de saúde e comunidades, em conjunto, trabalhem para abordar as causas subjacentes do aumento previsto nos casos de AVC. Estratégias de prevenção, melhorias no acesso à saúde, campanhas educativas e a promoção de estilos de vida saudáveis são essenciais para reverter essa tendência e garantir um futuro mais saudável para as próximas gerações.

Professor de Neurologia da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (Fempar).

*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.

 

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