Segundo a Organização Mundial da Saúde, transtornos como ansiedade e depressão já são responsáveis por uma perda global de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, gerando um custo estimado de US$ 1 trilhão à economia mundial (OMS, 2022). Até antes da pesquisa, o Brasil já era considerado o país mais ansioso do mundo e o mais depressivo da América Latina, o que reforça a urgência de políticas corporativas preventivas.

O avanço da ansiedade e outros transtornos mentais como causa de afastamento do trabalho no Brasil acende um alerta cada vez mais urgente para empresas, gestores públicos e a sociedade. Dados recentes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) indicam que, somente em 2025, mais de 546 mil afastamentos foram concedidos por questões de saúde mental, dentro de um recorte superior a 4 milhões de licenças por incapacidade temporária. O número representa um crescimento de 15% em relação a 2024 e consolida esses transtornos como uma das principais causas de ausência no ambiente profissional.

No ano passado, a ansiedade foi responsável por 166.489 licenças, enquanto a depressão gerou 126.608 afastamentos, superando causas historicamente recorrentes, como fraturas. Além disso, transtornos como bipolaridade, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo também aparecem entre os principais responsáveis pelas concessões de benefício, segundo levantamento do Ministério da Previdência Social.

Neste mês de maio, um novo marco regulatório promete reformular a gestão dessa crise no setor. Entrará em vigor. a partir do dia 26, a nova redação da NR-1, a norma que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho, e que passará a ser rigorosamente fiscalizada pelos órgãos competentes. A atualização da regra traz um avanço significativo ao incorporar, de forma expressa, a obrigatoriedade da avaliação dos riscos psicossociais dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). 

Como relacionar o transtorno mental ao trabalho?

O advogado e professor de direito Igor Alves Noberto Soares, informa que na prática, as empresas brasileiras não poderão mais tratar fatores como estresse, assédio, burnout e episódios de violência no trabalho como questões periféricas ou de responsabilidade exclusiva do colaborador.

A norma impõe que tais riscos sejam mapeados, monitorados e mitigados com a mesma seriedade aplicada aos riscos físicos e de acidentes tradicionais. Também se espera que o empregador implemente políticas internas voltadas à saúde ocupacional, incluindo ações educativas, mecanismos de escuta e canais de ética adequados para relato de irregularidades. A inércia diante desses indícios pode configurar violação do dever de cuidado que rege a relação de trabalho”.

Para que um transtorno de natureza psíquica seja reconhecido como relacionado ao trabalho, o advogado esclarece que é indispensável comprovar o nexo causal entre as atividades desempenhadas e o quadro clínico apresentado. Essa relação costuma ser avaliada por meio de perícia, realizada tanto na esfera administrativa quanto judicial.

A comprovação pode se apoiar em diferentes elementos, como registros médicos e psicológicos, informações sobre o ambiente de trabalho, documentos da empresa e depoimentos de pessoas que acompanham a rotina profissional. Quando aplicável, também pode ser utilizado o registro formal do acidente ou da doença ocupacional (CAT). Quando se verifica que o empregador não adotou as medidas necessárias para preservar a saúde do trabalhador, podem surgir diferentes consequências jurídicas”, complementa.

Como controlar a saúde mental no trabalho

A psicóloga Mariana Ramos comenta que trabalhos em contextos caracterizados por sobrecarga excessiva, metas inalcançáveis, jornadas prolongadas, ausência de reconhecimento, relações interpessoais conflituosas, assédio moral, insegurança profissional e falta de autonomia favorecem de forma significativa o desenvolvimento de quadros de ansiedade, estresse crônico, síndrome de burnout e depressão.

“Quando o trabalho deixa de ser um espaço de realização e passa a ser vivido como ameaça constante, o organismo responde com sinais físicos, emocionais e cognitivos de adoecimento. Entre os sinais mais comuns estão o cansaço persistente, irritabilidade frequente, alterações no sono, dificuldade de concentração, lapsos de memória, sensação de incapacidade, queda de produtividade, isolamento social, crises de choro, desmotivação, sensação constante de alerta, além de sintomas físicos recorrentes como dores de cabeça, tensão muscular e problemas gastrointestinais”.

Prevenir o esgotamento emocional exige um olhar atento tanto para as nossas atitudes individuais quanto para o ambiente em que estamos inseridos. A psicóloga Dra. Mariana Ramos explica um “passo a passo” essencial para viver com mais equilíbrio no trabalho:

  1. Faça um “Check-in Emocional”: reserve 5 minutinhos do seu dia para se perguntar: “Como estou me sentindo agora?”, “O que está me sobrecarregando?” e “O que posso fazer por mim hoje?”. Esse hábito treina sua autoconsciência.

  2. Aprenda a dizer “não”: fortalecer os limites pessoais é fundamental para não absorver demandas que comprometam seu bem-estar.

  3. Organize sua rotina e realize pausas conscientes: estabeleça metas realistas e evite a sobrecarga com uma gestão de tarefas consciente. Insira pequenas pausas de atenção plena ou exercícios de respiração entre uma tarefa e outra.

  4. Cuide dos pilares básicos: higiene do sono, alimentação equilibrada e prática regular de atividade física são os pilares para manter o cérebro resiliente.

  5. Busque ajuda profissional: a psicoterapia é uma grande aliada no desenvolvimento da autorregulação emocional.

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Saúde mental x trabalho: entenda por que se tornou fundamental para as empresas se atentarem ao bem-estar de seus colaboradores

Especialista comenta os impactos positivos na produtividade e desenvolvimento de empresas que passaram a se importar com a saúde mental de seus funcionários

O tema “saúde mental no trabalho” tornou-se um dos pilares corporativos mais importantes dentro das organizações e um dos principais pontos de atenção de gestores de diferentes segmentos. De acordo com a psicóloga e palestrante Ediane Ribeiro, especialista em trauma e estresse, o tema bem-estar no trabalho ganhou destaque durante a pandemia, mas, já deveria ser pauta há pelo menos três décadas no Brasil, sendo fundamental para potencializar, inclusive, a produtividade da equipe.

Precisamos tornar possível conciliar saúde mental e as atividades profissionais. Com os índices crescentes e preocupantes que vemos nos casos de Burnout e outras condições como ansiedade e depressão, a relação entre saúde mental e produtividade precisa ser pensada de forma intencional pelas empresas, pelos gestores, por instituições, equipes e clientes”, afirma.

O mundo do trabalho atual exige que as pessoas a todo momento repensem modelos de negócios e processos para se adaptarem a uma realidade cada vez mais acelerada. Com isso, tem-se altas exigências de produtividade, ao mesmo tempo em que as pessoas lidam com conflitos interpessoais, com seu estado emocional relacionado ao trabalho e com a demanda se conectar com clientes cada vez mais exigentes. Tudo isso amplifica muito a experiência de estresse no trabalho e tem reflexos no aumento do número de afastamentos por condições relacionadas à saúde mental.

É necessário que as empresas se atentem, invistam e se planejem para apoiar seus colaboradores quando pensamos em conciliar produtividade e saúde mental. Não adianta ter um profissional com produtividade invejável agora e daqui alguns meses, ele ter que ser afastado porque adoeceu. Não considerar a saúde mental dos colaboradores é um risco calculado de prejuízo não só para a vida e saúde da pessoa individualmente, mas para a empresa”, afirma.

Neste cenário, depressão, ansiedade, síndrome de burnout e outras doenças mentais que podem estar relacionadas com o trabalho custaram caro para organizações. Para se ter uma ideia, segundo dados da WHO (World Health Organization), a depressão e a ansiedade causaram uma perda de cerca US$ 1 trilhão na economia mundial.

A pesquisa também aponta que as empresas que se preocupam com o bem-estar do colaborador e promovem melhorias para tornar o ambiente corporativo saudável, conseguem perceber os ganhos com o aumento da produtividade de seus colaboradores – Para cada US$ 1 investido em ações que promovem melhorias na saúde e bem-estar mental dos colaboradores, US$ 4 são percebidos em ganhos com o aumento da produtividade -.

Conciliar saúde mental no trabalho e produtividade é a questão central que precisa ser enfrentada de forma intencional no contexto corporativo. Para garantir esse equilíbrio, as empresas podem adotar diversas estratégias. Para Ediane, antes de tudo é essencial definir o que significa produtividade de forma clara para todos os envolvidos. Produtividade não deve ser restrita a uma métrica única e numérica, que leva as pessoas a sobrecarga e exaustão.

É importante pensar no alcance de resultados com qualidade e otimização de recursos dentro de parâmetros reais e é importante que a empresa tenha formas de analisar a produtividade relacional, que é o impacto que uma determinada pessoa exerce positivamente no desempenho de uma equipe como um todo. É preciso olhar para os colaboradores como pessoas com necessidades psicológicas e sociais além das necessidades objetivas e não como um commodity que vale apenas por um número que produz”, reforça Ediane.

Estratégias que as empresas podem adotar

Entre as estratégias que podem ser adotadas pelas empresas, a especialista destaca:

● Avaliar as condições de trabalho, informações disponíveis e recursos oferecidos para garantir que sejam compatíveis com a produtividade esperada;

● Fomentar a segurança psicológica nas equipes, permitindo que os membros se expressem, corram riscos, façam aprendizados e admitam erros com mais tranquilidade;

● Capacitar líderes e colaboradores sobre saúde mental, para reconhecerem sinais de estresse e terem ferramentas para fomentar relações colaborativas, suporte e apoio nas equipes;

● Investir em transparência e confiabilidade. Ambientes em que as pessoas não podem confiar na veracidade das informações ou as políticas institucionais não são claras são comprovadamente ambientes de maior carga de estresse e potencialmente mais adoecedores;

● Investir em experiências que aumentem a autoconsciência dos colaboradores sobre o tema, como workshops e palestras;

● Implementar políticas de prevenção e manejo do estresse, incentivando pausas regulares e limitando horas excessivas de trabalho;

● Cultivar uma cultura de cooperação e colaboração em vez de competição acirrada.

Os fatores que podem prejudicar a saúde mental dos colaboradores são diversos e devem ser cuidadosamente observados pela gestão. Carga de trabalho incompatível com os recursos disponíveis, condições inadequadas de trabalho, ambiente de insegurança psicológica, assédio moral ou sexual, falta de autonomia e clareza sobre as diretrizes da empresa, entre outros, podem impactar negativamente a saúde mental dos colaboradores.

Quando pensamos na produtividade em momentos de alta demanda, estratégias como incluir atividades de relaxamento, cuidar da nutrição, do sono e pedir ajuda de familiares e amigos podem ajudar a atravessar esses períodos. No entanto, se a alta demanda é constante, a especialista enfatiza que as mudanças no ambiente são essenciais e recomenda que os gestores revisem seus planos de ação e promovam ambientes com uma cultura de saúde mental positiva para evitar sobrecargas e danos à saúde dos colaboradores a médio e longo prazo.

A especialista afirma ainda que atualmente o entendimento sobre o tema precisa ser de domínio de todos: gestores, colaboradores e clientes; pois quão mais precoce a identificação dos primeiros sinais, melhores as chances de recuperação. “Sinais como alterações de humor, isolamento, mudanças no desempenho, aumento do absenteísmo e dificuldade para tomar decisões, são algumas das características que devem ser levadas em conta e acender um alerta para o gestor”, diz Ribeiro.

Aos profissionais, a psicóloga sugere uma constante auto observação e ressalta a importância de buscar ajuda. “É essencial que o próprio profissional desenvolva o hábito da auto observação e, ao perceber os indicadores mencionados anteriormente ou observar mudanças na qualidade de vida fora do trabalho, como alterações na alimentação, no sono e nas suas relações pessoais, ele possa buscar auxílio da empresa, das pessoas ao seu redor ou de um profissional especializado quando for o caso.”, finaliza.

Com Assessorias

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