O medo do futuro não é mais um sentimento exclusivo dos adultos. À medida que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, uma nova e silenciosa crise de saúde pública começa a se desenhar: a ecoansiedade infantil. O termo, que descreve a angústia crônica e o medo do colapso ambiental, ganhou os holofotes com o lançamento da campanha nacional Saúde Mental Climática, idealizada pela organização Time To Act.
A mobilização pressiona pela aprovação do Projeto de Lei 6151/25, em tramitação na Câmara dos Deputados, que visa criar uma Política Nacional de Saúde Mental Climática e estabelecer centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades.
O peso dos dados: o que diz a ciência
A preocupação de especialistas não é infundada. O impacto psicológico da crise climática na juventude já foi mensurado globalmente. Um estudo de grande escala publicado na renomada revista científica The Lancet Planetary Health revelou que 45% dos jovens entre 16 e 25 anos, em dez países pesquisados, relatam que a ansiedade climática afeta negativamente suas rotinas e o dia a dia.
No cenário nacional, o problema é ainda mais latente. Dados do Instituto Ipsos apontam que 70% da população no Brasil já sente os reflexos emocionais e psicológicos decorrentes das mudanças no meio ambiente.
Como o estresse climático se manifesta nas crianças
Diferente dos adultos, que racionalizam a crise por meio de dados econômicos ou políticos, as crianças expressam o trauma climático de forma somática e comportamental. Relatos de profissionais que atuaram na linha de frente no acolhimento de famílias vítimas de desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul, acendem o alerta.
O pedagogo Reinaldo Nascimento, especializado em emergência e trauma da Associação de Pedagogia de Emergência no Brasil, observou sintomas claros de estresse tóxico em crianças afetadas por desastres ambientais:
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Regressão de desenvolvimento: Crianças de até 10 anos voltando a chupar o dedo ou a apresentar enurese noturna (xixi na cama).
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Gatilhos auditivos e fobias: Medo severo de dar a descarga no banheiro por associar o som do fluxo de água ao barulho de tempestades e enchentes.
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Perda da percepção de segurança: A destruição ou interdição de escolas, historicamente vistas como locais seguros de acolhimento e socialização, desestrutura a referência de estabilidade do público infantil.
Desigualdade estrutural e o conceito de Saúde Única
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reforça que o nervosismo e o desespero dos pais diante das perdas materiais atuam como um forte gatilho para o adoecimento mental dos filhos. A orientação principal do órgão para conter o estresse tóxico é que os adultos mantenham a calma ao conversar com os menores, filtrando o excesso de informações catastróficas.
A vulnerabilidade à ecoansiedade não é distribuída de forma igual. Ela escancara as desigualdades estruturais e o racismo ambiental no Brasil. Enquanto comunidades indígenas veem seus territórios e modos de vida ameaçados por queimadas e desmatamento, as populações negras e periféricas sofrem desproporcionalmente com deslizamentos e enchentes em áreas sem infraestrutura adequada.
Como defende Luciana Brafman, fundadora da Time To Act e consultora da ONU, o foco em infraestrutura deve caminhar lado a lado com o suporte psicológico contínuo. “Preparar as pessoas para que fiquem resilientes é a meta. Senão, essas cidades serão reconstruídas em cima de traumas”, pontua a ativista, criticando o modelo de socorro pontual que cessa assim que os holofotes da mídia se apagam.
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O papel das empresas em meio à urgência climática
Enquanto especialistas apontam que enfrentar a ecoansiedade exige uma abordagem ampla, que vá além do suporte psicológico, empresas como a Marulho, que atuam na preservação ambiental, destacam a necessidade de ampliar o debate e buscar soluções para mitigar esse efeito crescente. Segundo Samara Oliveira, oceanógrafa, mestre em ciências e sócia da Marulho, a conexão entre saúde mental e meio ambiente precisa ser considerada na formulação de políticas públicas.
A ecoansiedade não é apenas um problema emocional, mas um reflexo da urgência climática. É necessário unir educação, apoio psicológico e ação coletiva para enfrentar os desafios ambientais e sociais que essa crise traz”, afirma. “Ações como a disseminação de informações confiáveis sobre sustentabilidade, o incentivo ao debate e a criação de espaços para acolhimento emocional são algumas das estratégias defendidas para lidar com o problema”, complementa Samara.
O enfrentamento desse cenário exige uma visão integrada que conecte a saúde humana, a saúde animal e a preservação ambiental. É o que propõe o conceito de Saúde Única (One Health). O avanço da crise climática e a degradação dos ecossistemas não apenas favorecem o surgimento de zoonoses (doenças transmitidas entre animais e humanos), como também desestabilizam os determinantes sociais da saúde. Tratar a mente sem mitigar as causas da destruição do meio ambiente é uma estratégia incompleta.
Com informações da Agência Brasil e Marulho
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