Segundo o World Obesity Atlas 2025, cerca de 31% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, enquanto 68% apresentam excesso de peso. Mantidas as tendências atuais, quase metade da população adulta do país poderá conviver com obesidade até 2030, o que reforça a classificação da condição como uma doença crônica, multifatorial e biologicamente regulada.
Nesse contexto, a manutenção da perda de peso segue como um dos principais desafios clínicos. Estudos indicam que apenas 5% a 10% das pessoas conseguem sustentar resultados significativos no longo prazo sem acompanhamento contínuo.
Em meio a este cenário, a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” — medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, tirzepatida e liraglutida — ampliou o uso indiscriminado desse tipo de medicamento que, atualmente, só pode ser adquirido por meio de receita médica.
A combinação entre alta demanda, promessa de resultados rápidos e oferta irregular tem colocado esses medicamentos no centro de um debate que envolve não apenas acesso, mas segurança sanitária, agora sob vigilância mais rigorosa. A explosão na venda dos medicamentos falsificados acendeu um alerta nas autoridades de saúde brasileiras.
Na quarta-feira (29/4), a diretoria-colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) debate uma nova instrução normativa para endurecer ainda mais os requisitos técnicos e o controle sobre esses fármacos. Segundo a Anvisa, a importação de insumos para manipulação dessas substâncias atingiu níveis alarmantes em 2025, com volume suficiente para 20 milhões de doses em apenas seis meses.
Anvisa endurece regras sobre canetas emagrecedoras
Medidas tem o objetivo de conter irregularidades e garantir qualidade adequada das medicações
A Anvisa anunciou no dia 6 de abril, um conjunto de medidas para conter distorções no mercado de medicamentos injetáveis à base de agonistas de GLP-1, popularizados como canetas emagrecedoras, diante de sinais crescentes de falhas sanitárias e uso fora dos padrões regulatórios.
O pacote combina revisão de normas, reforço da fiscalização e articulação com órgãos nacionais e internacionais. Na prática, a agência busca fechar brechas que vêm permitindo a circulação de produtos manipulados sem garantia adequada de qualidade, especialmente em um cenário de alta demanda por substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida.
O crescimento acelerado desse segmento, impulsionado tanto por indicações médicas quanto pelo uso estético, tem sido acompanhado por inconsistências relevantes na cadeia de produção e distribuição. Levantamentos da própria agência mostram que o volume de insumos importados supera, com folga, o que seria esperado para o consumo nacional.
Em paralelo, inspeções recentes identificaram um padrão recorrente de não conformidades técnicas, incluindo falhas críticas em controle de qualidade e processos produtivos. Na avaliação regulatória, esse descompasso levanta suspeitas sobre a destinação e o uso desses insumos, além de ampliar o risco de circulação de produtos sem rastreabilidade ou sem validação sanitária adequada.
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Fiscalização em farmácias, clínicas e empresas importadoras
Como resposta, a Anvisa pretende intensificar inspeções em farmácias de manipulação, clínicas e empresas importadoras, com foco em identificar e interromper práticas irregulares. Entre as mudanças, está o endurecimento de medidas cautelares, incluindo a possibilidade de suspensão mais ágil de autorizações de funcionamento em situações consideradas críticas. Também estão previstas ações para reforçar o controle sobre a entrada de insumos no país e aprimorar os critérios de risco aplicados à fiscalização.
No campo regulatório, a agência deve revisar diretrizes que hoje orientam a manipulação de medicamentos, incluindo regras de boas práticas e protocolos para importação de insumos farmacêuticos. A iniciativa também prevê maior integração com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e cooperação com agências internacionais, em linha com referências como FDA e EMA, numa tentativa de harmonizar critérios técnicos e reduzir assimetrias regulatórias.
Outro eixo relevante é a ampliação do monitoramento de eventos adversos, com busca ativa em hospitais e serviços de emergência, estratégia que sinaliza preocupação não apenas com a qualidade dos produtos, mas também com os desfechos clínicos associados ao seu uso. Além das ações técnicas, o plano inclui estratégias de comunicação para alertar a população sobre os riscos do uso indiscriminado dessas substâncias, especialmente fora do acompanhamento médico.
Sociedades médicas apoiam uso racional e seguro de medicamentos
Em razão dos riscos à saúde da população, a Anvisa vem tomando uma série de medidas para coibir o comércio ilegal, que inclui versões manipuladas sem autorização. A agência também criou grupos de trabalho para dar suporte à atuação da autarquia no controle sanitário e garantir a segurança de pacientes.
Também este mês, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), junto à própria Anvisa, assinaram uma carta de intenção com o objetivo de promover o uso racional e seguro de canetas emagrecedoras.
A proposta é prevenir riscos sanitários associados a produtos e práticas irregulares, além de zelar pela saúde da população brasileira.
A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas”, informou a agência.
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Endocrinologista reforça alerta para uso indiscriminado
Para a endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma: O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, os riscos do uso sem indicação médica das canetas emagrecedoras acendem um sinal de alerta.
A automedicação e o consumo motivado por fins estéticos podem trazer riscos metabólicos e efeitos adversos”, ressalta. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais.”
A especialista reforça que o tratamento não deve se apoiar exclusivamente no uso de medicamentos. “A prevenção e o combate à obesidade requerem estratégias multifacetadas que envolvem desde a educação nutricional, incentivo à cultura de hábitos saudáveis e atividades físicas, até a conscientização sobre o check-up regular.
Além disso, o tratamento da obesidade pode ser mais eficaz e preciso ao recorrer aos benefícios da medicina multiômica, que aproveita dados específicos dos indivíduos, coletados através de resultados de exames de imagem, bioquímica, análises genéticas e metabólicas para adaptar os procedimentos médicos às necessidades únicas de cada paciente”, finaliza Alessandra Rascovski.
Benefícios, efeitos colaterais e o perigo da pancreatite
As canetas emagrecedoras atuam em três frentes: controle da glicose, retardo do esvaziamento gástrico (prolongando a saciedade) e redução do apetite via sistema nervoso central. Os resultados podem chegar a uma perda de peso de até 25%, dependendo da substância e do estilo de vida do paciente.
No entanto, os efeitos colaterais não devem ser ignorados. Embora náuseas e vômitos sejam comuns em parte dos usuários, o uso indiscriminado eleva o risco de complicações graves, como a pancreatite.
O retardo do esvaziamento gástrico pode fazer com que o líquido biliar fique parado por mais tempo na vesícula, facilitando a formação de cálculos que podem obstruir o pâncreas.
Os 4 pilares para o uso seguro
Para garantir que o tratamento seja um aliado e não um inimigo da saúde, especialistas destacam quatro pontos fundamentais:
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Procedência: Utilizar produtos de fabricantes legais com registro na Anvisa.
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Prescrição: O uso deve ser indicado e acompanhado por um médico registrado.
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Compra segura: Adquirir apenas em farmácias e drogarias licenciadas.
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Dosagem: Seguir rigorosamente a orientação médica, sem ajustes por conta própria.
Sinal de alerta: Se o paciente apresentar dor intensa na parte superior do abdômen que não melhora, deve buscar auxílio médico imediato, pois este é o principal sintoma indicativo de inflamação no pâncreas.
Como denunciar
A Vigilância Sanitária também recomenda que qualquer suspeita de irregularidade envolvendo medicamentos seja comunicada aos canais oficiais de denúncia ou às autoridades sanitárias, contribuindo para a fiscalização e proteção da saúde da população.
Para acionar a Vigilância Sanitária estadual no Rio de Janeiro, o contato é via Ouvidoria 0800 025 5525 e, ainda, há outros canais disponíveis no site https://www.saude.rj.gov.
Com Assessorias

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