O mês de janeiro ganha tons de verde-piscina para conscientizar a população sobre o câncer de colo do útero, uma doença que, embora seja amplamente prevenível, ainda figura como a terceira causa de morte por câncer entre mulheres no Brasil. No entanto, o cenário de 2026 traz um otimismo renovado com avanços tecnológicos e estratégias de saúde pública que prometem mudar o curso da doença no país.

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), para o triênio 2023-2025, estimou-se cerca de 17.010 casos novos por ano. Para reverter esse quadro, o Brasil aderiu à Estratégia Global da Organização Mundial da Saúde (OMS), com metas ambiciosas para 2030: vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com testes moleculares e tratar 90% das pacientes diagnosticadas.

Vacinas salvam: o reforço na imunização e o resgate vacinal

A vacinação contra o HPV é o pilar da prevenção primária. Disponível no SUS desde 2014 para meninos e meninas de 9 a 14 anos, a vacina quadrivalente é a arma mais eficaz para impedir a infecção antes que ela ocorra.

Quando falamos em câncer de colo do útero, estamos falando de uma doença que pode ser evitada com a vacinação contra o HPV, porque impede a infecção antes mesmo que ela aconteça”, explica a oncologista Giselle Rocha, do Grupo SOnHe.

Apesar da eficácia, o país enfrenta o desafio de retomar as coberturas vacinais, que sofreram quedas nos últimos anos. Para isso, o Programa Nacional de Imunização (PNI) realiza, até o final do primeiro semestre de 2026, um esforço de resgate vacinal para adolescentes entre 15 e 19 anos que não foram imunizados anteriormente.

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Novo rastreamento por DNA-HPV: precisão e segurança

O ano de 2026 marca uma transição histórica no SUS: a substituição gradativa do tradicional Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. Diferente da citologia, que busca alterações nas células, o novo teste identifica a presença do vírus e de seus subtipos de alto risco (especialmente o 16 e 18) antes mesmo de surgirem lesões.

Flavia Corrêa, doutora em Saúde Coletiva da Criança e da Mulher pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz), ressalta que o exame molecular é automatizado e possui 99% de segurança. “Se o resultado der negativo, há segurança de que a pessoa não tem nem terá lesão precursora ou câncer no período de cinco anos ou mais”, afirma.

Vantagens do novo modelo:

  • Periodicidade ampliada: O intervalo entre exames passa de 3 para 5 anos em caso de resultado negativo.

  • Sensibilidade: Identifica o risco real de forma mais precoce que o Papanicolau.

  • Autocoleta: Possibilita que mulheres em regiões remotas realizem a coleta, reduzindo desigualdades regionais.

A implementação começou por municípios selecionados em 12 estados e deve ser concluída em todo o território nacional até o final de 2026. É importante destacar que, onde o teste molecular ainda não chegou, o Papanicolau continua sendo o método oficial e essencial.

Profissionais do sexo ainda não estão incluídas

Como participante do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS: Atualização das Recomendações de Rastreamento e Tratamento da OMS para prevenir o câncer de colo do útero, Flavia Corrêa admitiu que os profissionais do sexo ainda não estão incluídos nos grupos de vacinação no SUS. Mas, como representam um grupo de risco maior, ela acredita na possibilidade de virem a ser incluídos na expansão da vacinação contra o HPV.

Consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Correa lembrou que a vacinação gratuita contra o HPV está disponível no SUS também para grupos prioritários como pessoas com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de abuso sexual (9 a 45 anos), além de usuários de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento antirretroviral tomado por pessoas sem HIV para prevenir a infecção.

Para mulheres na faixa de 20 a 45 anos, a vacina não está incorporada ao SUS e elas terão de recorrer ao setor privado de saúde. A partir dos 20 anos, a vacina é dividida em três doses e a decisão deve ser compartilhada entre a mulher e o profissional de saúde que a acompanha, para avaliação dos benefícios.

Câncer tem cura: a importância do diagnóstico precoce

Para as mulheres que já enfrentam a doença, a agilidade no tratamento é o que define o sucesso da cura. O Centro Regional Integrado de Oncologia (CRIO) tratou, em média, 293 pacientes no último ano e reforça que, nos estágios iniciais, a doença costuma ser silenciosa.

Nos estágios iniciais, o câncer de colo do útero geralmente não apresenta sintomas. Quando surgem, podem incluir sangramentos fora do período menstrual e dor durante as relações sexuais”, alerta a cirurgiã-oncológica Renata Justa, do CRIO.

O oncologista Leonardo Silva, especialista em tumores ginecológicos, reforça que a combinação de vacina e rastreio moderno pode aproximar o Brasil de países como a Austrália, referência mundial na redução da incidência da doença. “O Janeiro Verde-Piscina é um convite para que famílias e profissionais se engajem nessa prevenção”, conclui.

Guia prático para profissionais e pacientes

Para orientar essa transição nos métodos de rastreamento, a Fundação do Câncer lançou a versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero. A publicação detalha as novas diretrizes aprovadas pela Conitec e serve como bússola para profissionais de saúde e pacientes entenderem o novo fluxo de atendimento no SUS.

Consulte aqui o Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero.

Com Assessorias

 

 

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