O Brasil passará a produzir de forma 100% nacional uma das terapias mais inovadoras do mundo contra o câncer. O tratamento com CAR-T Cell, que chega a custar até US$ 400 mil (cerca de R$ 2 milhões) por paciente no exterior, será oferecido de forma totalmente gratuita na rede pública brasileira.

O Sistema Único de Saúde (SUS) deu um passo histórico rumo à soberania tecnológica e à democratização do tratamento oncológico avançado com o lançamento, no Rio de Janeiro, do Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Esse centro tecnológico dá ao Brasil a certeza de que a gente não é menor do que ninguém, de que a gente não é menos competitivo do que ninguém. Basta a gente ousar, ter coragem e fazer”, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a cerimônia de lançamento neste sábado (23/5).

Inicialmente, a tecnologia vai beneficiar diretamente pacientes que enfrentam leucemia, linfoma e mieloma que não responderam aos tratamentos convencionais.  Para os pacientes, a iniciativa representa a linha que divide a finitude e o recomeço.

Paulo Peregrino, que foi curado de um câncer gravíssimo após participar de uma pesquisa precursora com células CAR-T realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Butantan, esteve presente no evento e compartilhou a sua experiência.

O fato de eu ter essa chance foi Deus e a ciência, porque aconteceu exatamente no momento em que eu precisava. Ter a chance de conseguir ser selecionado e ter o tratamento que tive pelo SUS foi uma coisa absolutamente fantástica”, relatou Peregrino, lembrando que jamais teria condições de arcar com os custos do tratamento na rede privada.

Como funciona a terapia e o inédito “ataque triplo”

Considerada uma das maiores revoluções recentes da medicina personalizada, a terapia CAR-T Cell  consiste em retirar as células de defesa do próprio paciente (os linfócitos T), modificá-las geneticamente em laboratório para que aprendam a reconhecer a doença e, depois, reintroduzi-las no organismo. Uma vez reprogramadas, essas células passam a rastrear e eliminar o câncer de forma extremamente precisa.

O grande diferencial do modelo adotado pela Fiocruz é a tecnologia duoCAR-T triespecífico, transferida da empresa americana Caring Cross. Diferente das versões comerciais existentes no exterior, que focam em apenas um alvo celular, a versão brasileira reconhece e ataca simultaneamente três alvos diferentes nas células cancerígenas. Essa abordagem tripla torna a eliminação do tumor muito mais eficaz e reduz drasticamente as chances de recidiva (retorno da doença).

O maior obstáculo para a redução do preço desse tratamento era a necessidade de importar os vetores lentivirais — os insumos vitais para a modificação genética das células. Com o novo centro, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) assume a fabricação própria desses vetores, eliminando a dependência externa e abrindo caminho para que o Brasil se torne exportador desse insumo para a América Latina.

Foco no paciente: produção perto de quem precisa e chance de cura

Alinhado a um modelo de atenção humanizado, o projeto da Fiocruz traz uma inovação logística essencial para aproximar a tecnologia de ponta dos leitos hospitalares. A produção ocorrerá em laboratórios modulares instalados em contêineres, que podem ser montados diretamente nas proximidades dos centros de oncologia. Isso elimina custos complexos de transporte interestadual de material biológico congelado, agiliza o tempo de resposta e descentraliza o acesso para diversas regiões do país.

A primeira unidade modular já está instalada no Rio de Janeiro. Os primeiros lotes piloto para engenharia da terapia celular serão produzidos até julho, e o início dos estudos clínicos com pacientes reais está previsto para o segundo semestre deste ano. Todo o processo será acompanhado de perto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a obtenção do registro definitivo de segurança e eficácia.

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Mais inovação com investimento de R$ 330 milhões

A nova unidade da Fiocruz recebeu investimento de R$ 330 milhões, fruto do Programa para Ampliação e Modernização de Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS) — vinculado ao Novo PAC. O Ministério da Saúde também mantém ativos outros R$ 100 milhões em investimentos para a linha de produção de células CAR-T no Hemocentro de Ribeirão Preto (SP), expandindo a capacidade nacional de pesquisa.

Além do centro de terapia celular, foi inaugurada no Rio a sede exclusiva do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), uma macroestrutura de 15 mil metros quadrados que recebeu investimentos de R$ 370 milhões. O espaço funcionará como um hub de inovação focado no desenvolvimento de vacinas, biofármacos, reativos e métodos de diagnóstico para doenças prioritárias do SUS, atuando em parceria com universidades e o setor privado.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou o compromisso social dessas entregas tecnológicas. “Graças à capacidade de produção nacional e ao SUS, as pessoas poderão receber esse tratamento gratuitamente, como um direito. Não estamos falando apenas de uma grande indústria de produção tecnológica. Estamos falando de uma instituição que combina inovação, escala e acesso para salvar vidas”, defendeu o ministro.

Programa Caminhos da Saúde entrega 43 veículos para o Rio de Janeiro

Aproveitando a agenda de anúncios na Fiocruz, o governo federal realizou a entrega dos primeiros veículos do programa Agora Tem Especialistas – Caminhos da Saúde voltados para o estado do Rio de Janeiro. Foram repassados mais de R$ 24,2 milhões em investimentos para a entrega de 40 micro-ônibus, duas vans e uma ambulância para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), beneficiando 39 municípios fluminenses.

O objetivo principal da frota é assegurar o deslocamento gratuito, seguro e humanizado de pacientes que residem no interior e precisam viajar mais de 50 quilômetros para realizar exames especializados, consultas, cirurgias eletivas ou sessões contínuas de radioterapia e hemodiálise.

O programa prevê a distribuição de 3,3 mil veículos em todo o território nacional, com um orçamento que ultrapassa R$ 1,4 bilhão. Esta é a primeira vez que o governo federal assume o custeio direto do transporte sanitário de pacientes e seus acompanhantes, visando reduzir as desigualdades regionais e acabar com as barreiras geográficas que, muitas vezes, interrompem tratamentos vitais.

Carteira Nacional de Sanitaristas

A solenidade também foi marcada por um momento de forte valorização profissional. O Ministério da Saúde realizou a entrega da Carteira Nacional de Sanitaristas aos profissionais Gulnar Azevedo Silva e Gilney Costa Santos, além de uma homenagem em memória ao icônico médico sanitarista Antônio Sérgio da Silva Arouca (1948-2003), recebida por suas filhas.

De acordo com o Ministério da Saúde, a regulamentação da profissão é tida como um marco estratégico para dar maior densidade técnica, segurança institucional e reconhecimento à categoria que planeja as respostas aos desafios sanitários do país.

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Fonte: Ministério da Saúde

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