Sua decisão nas urnas vai ser tomada com serenidade ou pela ansiedade da campanha eleitoral das redes sociais? A reta final do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para o dia 25 de outubro, vem sendo considerada uma das mais intensas e fervorosas do processo eleitoral.
A expectativa pelo resultado pode ultrapassar o debate político e invadir diferentes áreas da vida cotidiana. O clima de polarização e a sobrecarga de informações intensificam o estresse e o desgaste emocional da população.
Acompanhar notícias a todo momento, discutir com familiares e amigos, antecipar cenários sobre o futuro do país e sentir dificuldade para se desconectar do assunto são situações que podem contribuir para o aumento do estresse e da ansiedade.
As redes sociais e os canais de comunicação tornaram-se o principal campo de batalha das campanhas eleitorais, tomados por uma enxurrada diária de propagandas, debates inflamados, memes e trocas de acusações entre os lados em disputa. Esse ambiente hiperativo de pré-votação coloca à prova o bem-estar psicológico da população.
Estudos recentes revelam a dimensão desse impacto: pesquisas e levantamentos veiculados em veículos como a Revista Exame e o portal Folha Vitória apontam que mais de 50% das pessoas relatam aumentos significativos em sintomas de ansiedade e estresse durante o período de polarização política e intensa propaganda digital.
Além disso, dados do Datafolha indicam que cerca de 69% dos brasileiros sentem insegurança ou ansiedade ao pensar no cenário político, enquanto 55% declaram sentir desgaste, desânimo ou tensão diante do acirramento das disputas. Vale lembrar ainda que, segundo a OMS, o Brasil lidera os índices mundiais de transtornos de ansiedade, o que torna esse cenário ainda mais delicado.
O impacto psicológico do pleito não ocorre por acaso: o Brasil lidera os índices mundiais de transtornos de ansiedade, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em um ambiente marcado pela polarização, preservar a saúde mental também exige atenção aos próprios limites.
Como proteger a saúde mental em meio à tensão política
Psicólogas analisam impactos do excesso de informações. Incerteza e os conflitos políticos podem aumentar o desgaste emocional
De acordo com Luciane Rabello, psicóloga e fundadora da TalentSphere People Solutions, essa reação diante das semanas de intensa campanha, conhecida na psicologia como “estresse eleitoral”, é uma resposta natural do organismo à sensação de falta de controle e à sobrecarga informativa:
Quando somos expostos diariamente a discussões acaloradas, feeds tomados por militância digital e incertezas sobre o resultado, nosso sistema nervoso entra em estado de alerta contínuo. Chegar à cabine de votação com a mente exausta ou agitada aumenta as chances de tomarmos decisões movidas pelo medo ou pelo impulso. Por isso, preservar o equilíbrio durante esses últimos dias de campanha é essencial para exercer a cidadania de forma consciente e lúcida”, explica a especialista
Para Karen Alves, psicóloga e neuropsicóloga, períodos de grande mobilização política podem intensificar reações emocionais porque envolvem questões que vão além da escolha de um candidato.
As eleições podem mobilizar sentimentos de esperança, medo, insegurança e preocupação com o futuro. Quando percebemos que algo importante para nós está em jogo, é natural que nossa atenção se volte para esse assunto. O problema começa quando a preocupação passa a ocupar tanto espaço que prejudica o sono, a concentração, o trabalho e as relações pessoais”, explica.
A sensação de precisar acompanhar cada atualização também pode contribuir para esse desgaste. Na tentativa de diminuir a incerteza, algumas pessoas passam horas consumindo notícias, assistindo a debates e verificando publicações nas redes sociais. Entretanto, a exposição contínua a informações nem sempre oferece a tranquilidade esperada. Ao contrário, pode alimentar a preocupação e dificultar a recuperação emocional.
Estar bem informado não significa precisar acompanhar tudo o tempo inteiro. É importante reconhecer quando o consumo de notícias deixa de contribuir para a compreensão dos acontecimentos e começa a aumentar a tensão. Fazer pausas não significa ignorar a realidade ou ser indiferente ao futuro do país. Significa cuidar das condições emocionais necessárias para lidar com ela”, afirma Karen.
Divergência política nas relações pessoais
Outro ponto de atenção é o impacto da divergência política nas relações pessoais. Em períodos eleitorais, conversas que poderiam ser espaços de troca podem se transformar em disputas marcadas pela necessidade de convencer o outro, pela dificuldade de escuta e pelo receio de que diferenças de opinião comprometam vínculos importantes.
Segundo a psicóloga, reconhecer os próprios limites é fundamental para evitar que todas as conversas se transformem em confrontos. Nem toda divergência precisa ser resolvida imediatamente, assim como nem toda provocação exige uma resposta. Saber interromper uma discussão, mudar de assunto ou estabelecer limites para determinadas conversas pode ser uma forma legítima de preservar o bem-estar e as relações.
É possível ter convicções políticas e, ao mesmo tempo, reconhecer que uma conversa chegou a um ponto em que deixou de ser produtiva. Não precisamos transformar cada interação em uma tentativa de convencer alguém. Respeitar os próprios limites e os do outro não significa abrir mão das nossas ideias, mas compreender que nem toda discussão precisa continuar”, orienta a psicóloga.
Karen ressalta ainda que a expectativa pelo resultado pode levar algumas pessoas a antecipar cenários negativos e a experimentar, no presente, uma angústia relacionada a acontecimentos que ainda não ocorreram. Nesses momentos, vale diferenciar aquilo que está efetivamente acontecendo das possibilidades imaginadas e concentrar a atenção nas atividades e decisões que fazem parte do alcance individual.
6 atitudes para cuidar da saúde mental
Psicóloga orienta como atravessar os últimos dias antes da votação com mais equilíbrio
Nas últimas 48 horas antes da votação, pequenas mudanças de rotina podem ajudar a reduzir a sobrecarga: estabelecer horários para acompanhar as notícias, manter refeições e períodos de descanso, realizar atividades prazerosas e reservar momentos de convivência que não tenham a política como assunto central.
De acordo com Karen Alves, psicóloga e neuropsicóloga, a proposta não é eliminar as emoções despertadas pelas eleições, mas evitar que elas ocupem todo o espaço disponível.
- Estabeleça limites para as notícias: “Escolha horários específicos para se informar e evite verificar atualizações compulsivamente ao longo do dia”
- Faça pausas nas redes sociais: “Silencie temporariamente conteúdos ou perfis que aumentem a tensão e priorize fontes confiáveis de informação”.
- Não transforme toda conversa em um debate: “Se perceber que uma discussão está se tornando hostil ou desgastante, estabeleça limites ou encerre a conversa com respeito”.
- Volte a atenção para o presente: “Em vez de tentar antecipar todos os cenários possíveis, concentre-se nas atividades que pode realizar agora e nas decisões que estão ao seu alcance”.
- Preserve a rotina e o descanso: “Mantenha os horários de sono, alimente-se regularmente, movimente o corpo e reserve tempo para atividades que proporcionem prazer e relaxamento”.
- Permita-se sentir sem alimentar a preocupação: “Reconheça emoções como medo, raiva ou insegurança sem se cobrar por não estar tranquilo. Se o sofrimento comprometer a rotina, procure ajuda profissional”.
Não precisamos esperar que a situação política deixe de nos preocupar para cuidar de nós mesmos. Podemos acompanhar o que acontece, exercer nossa cidadania e sustentar nossas opiniões sem permanecer em estado de alerta durante todo o dia. Cuidar da saúde mental também é reconhecer que temos limites e que precisamos de momentos de descanso, independentemente do que esteja acontecendo no cenário político”, conclui Karen.
5 passos para manter a calma antes de votar
Para ajudar os leitores e eleitores a enfrentarem o pleito com mais serenidade, a psicóloga Luciane Rabello estruturou 5 passos práticos para manter a calma antes de votar:
- Faça um “detox” de telas e redes sociais antes do domingo: O excesso de postagens, vídeos de campanha e discussões em grupos de mensagens mantém o organismo sob constante descarga de cortisol (hormônio do estresse). Reduzir o tempo de tela nos dias e horas que antecedem a votação ajuda a desacelerar a mente.
- Pratique a respiração diafragmática ao se aproximar da urna: Se sentir aceleração cardíaca ou apreensão ao entrar na seção eleitoral, faça pausas conscientes: inspire pelo nariz por 4 segundos, segure o ar por 4 segundos e expire suavemente por 6 segundos. A técnica ajuda a acalmar o sistema nervoso.
- Leve a sua “colinha” em papel pronta: A tensão momentânea ou a superexposição a tantas propagandas pode causar lapsos de memória. Levar os números anotados em papel garante agilidade e diminui a pressão psicológica durante a votação.
- Foque na sua autonomia e no seu papel individual: O resultado geral da eleição depende do somatório coletivo, mas a sua escolha na urna é uma responsabilidade sua. Compreender os limites da sua atuação individual ajuda a amenizar o peso da expectativa sobre o resultado.
- Evite debates nas redes e nas filas de votação: Na reta final das campanhas, debates de última hora raramente mudam opiniões e tendem apenas a desencadear desgaste e hostilidade. Mantenha o foco em si mesmo, no seu propósito e na sua serenidade.
Ao adotar essas estratégias de autocuidado diante de semanas tão intensas de propaganda e polarização, o eleitor protege a sua saúde mental e garante um voto consciente. Afinal, cultivar a clareza cognitiva e o equilíbrio psicológico é o primeiro passo para contribuir ativamente com o futuro da sociedade”, afirma a especialista.
Com Assessorias




