Milhões de brasileiros acompanharam a Copa do Mundo 2026, vibraram com vitórias, lamentaram derrotas e viveram intensamente uma rivalidade que faz parte da essência do esporte. Passado o campeonato, o clima de competição dá lugar a outro tipo de disputa. No período eleitoral, quando o debate político ganha força, as redes sociais voltam a se acirrar e conversas entre amigos e familiares tornam-se, muitas vezes, terreno para conflitos.
Embora pareçam cenários completamente diferentes, futebol e política compartilham um mecanismo comum: ambos tornam visível uma tendência humana muito mais antiga do que as redes sociais ou as campanhas eleitorais. A de transformar quem está do outro lado em alguém que deixa de ser apenas um adversário para ocupar o lugar de inimigo.
O contexto ajuda a explicar por que esse comportamento desperta tanta atenção. Segundo o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, cresce em diversos países a preocupação com a polarização do debate público impulsionada pelas redes sociais e pelo consumo de conteúdo mediado por algoritmos. O levantamento aponta que 58% dos entrevistados demonstram preocupação com a dificuldade de distinguir informações verdadeiras de falsas no ambiente digital, enquanto as plataformas assumem papel cada vez mais central na formação da opinião pública.
No Brasil, o cenário ganha ainda mais relevância. O relatório Digital 2025, da DataReportal, mostra que os brasileiros permanecem entre os povos que mais utilizam internet no mundo, com média superior a nove horas de conexão por dia. As redes sociais ocupam parte significativa desse tempo, tornando-se um dos principais espaços de informação, debate e mobilização.
Em um segundo turno marcado por divisões políticas, conversas sobre eleições podem se transformar rapidamente em conflito, na família, no trabalho e nas redes sociais. Para 78% dos brasileiros, o país vive em polarização política, com a sociedade dividida em grupos de visões opostas, segundo pesquisa Datafolha divulgada em outubro de 2026.
Por que quem pensa diferente passou a ser visto como inimigo?
Para a psicanalista e psicóloga Camila Camaratta, seria um equívoco atribuir esse comportamento apenas às plataformas digitais.
Durante algumas semanas, assistimos a um espetáculo curioso. Pessoas vibram, sofrem, comemoram e, não raro, fazem do adversário alguém tão importante quanto aquele por quem torcem. O futebol apenas torna visível um mecanismo que atravessa toda a vida social.”
Segundo a psicanalista, terminado o campeonato, a dinâmica permanece. Apenas muda o cenário em que ela acontece. “As rivalidades sobrevivem ao apito final porque cumprem uma função muito maior do que imaginamos.”
Na avaliação de Camaratta, rivalizamos menos por causa das diferenças e mais pela necessidade de construir nossa própria identidade.
Talvez não rivalizemos porque somos diferentes. Talvez precisemos das diferenças para sustentar quem acreditamos ser.”
O narcisismo das pequenas diferenças
Essa ideia dialoga diretamente com um dos conceitos mais conhecidos de Sigmund Freud. Ao desenvolver a teoria do narcisismo das pequenas diferenças, o fundador da psicanálise observou que grupos extremamente semelhantes costumam ampliar pequenas distinções justamente para preservar sua identidade. Paradoxalmente, os conflitos mais intensos nem sempre surgem entre pessoas completamente diferentes, mas entre aquelas que compartilham muito mais semelhanças do que imaginam.
Nem sempre são os muito diferentes que despertam nossas maiores hostilidades. Muitas vezes, os conflitos mais intensos surgem justamente entre aqueles que mais se parecem.”
Quando a opinião vira identidade
Neuropsicóloga explica como identidade, medo e redes sociais podem transformar uma divergência política em hostilidade
O cenário ajuda a explicar por que o encontro com quem pensa diferente pode despertar reações intensas antes mesmo de uma análise mais cuidadosa. Na Neuropsicologia, essa resposta envolve mecanismos de detecção de novidade, incerteza e possível ameaça. Mas ela não determina, por si só, intolerância.
O cérebro pode sinalizar que algo é novo ou imprevisível. O problema começa quando essa reação inicial é tratada como verdade definitiva sobre o outro”, afirma a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa.
A polarização não se limita a discordâncias sobre propostas. Em muitos casos, a posição política passa a fazer parte da identidade da pessoa, misturando-se a valores, vínculos familiares, crenças e pertencimento a grupos.
Por isso, criticar um candidato pode ser vivido como um ataque à própria história ou ao grupo com o qual a pessoa se identifica. A divergência deixa de ser sobre ideias e passa a ser interpretada como uma ameaça pessoal.
Quando o voto se torna parte de quem eu sou, discordar de mim pode parecer desrespeitar minha existência. Nesse ponto, a conversa política deixa de ser troca de ideias e passa a ativar defesa”, explica Luanda.
Por que o diferente ativa alerta
A amígdala participa da avaliação rápida de estímulos emocionalmente relevantes, incluindo rostos, expressões e sinais sociais. Estudos de neuroimagem associam a ansiedade social a maior reatividade dessa região diante de estímulos sociais percebidos como ameaçadores.
No contexto político, a incerteza não está apenas nas ideias diferentes, mas também na possibilidade de rejeição, conflito ou rompimento de vínculos. Em um ambiente de alta polarização, essa incerteza pode ser lida como risco.
A divisão, porém, é sobretudo afetiva. Pesquisas sobre polarização no Brasil indicam que ela envolve identificação com um grupo e hostilidade em relação ao outro. Segundo levantamento Ipsos-Ipec citado pela Ipsos, 72% dos brasileiros se sentem incomodados com a radicalização e a polarização política.
Redes amplificam o “nós contra eles”
As redes sociais podem intensificar essa dinâmica ao dar mais alcance a conteúdos que provocam engajamento rápido, como indignação, medo e raiva. Uma análise de mais de 20 mil conversas digitais no primeiro trimestre de 2026 identificou que o debate eleitoral foi movido menos por propostas e mais por desconfiança e ceticismo.
Quando a pessoa recebe repetidamente informações alinhadas às próprias crenças, o adversário pode deixar de ser alguém com outra opinião e passar a representar uma ameaça moral. Essa simplificação reduz o espaço para o diálogo e aumenta as respostas automáticas.
Antes de responder, vale perguntar: estou reagindo ao que a pessoa disse ou à imagem que construí sobre o grupo ao qual ela pertence?”, questiona Luanda.
Desconforto não precisa virar intolerância
Sentir desconforto diante de quem pensa diferente não significa, por si só, ser intolerante. A diferença está na forma como a pessoa interpreta e age diante dessa reação.
É possível sentir apreensão em uma conversa política e, ainda assim, manter curiosidade, respeito e abertura para ouvir. O oposto ocorre quando o desconforto é convertido em rótulo, ataque ou exclusão.
O desconforto é uma informação, não uma sentença. A pergunta útil não é apenas ‘por que estou reagindo assim?’, mas também ‘quais evidências eu tenho sobre essa situação?’”, diz Luanda.
O que esse comportamento revela sobre nós mesmos
Outro mecanismo descrito pela psicanálise ajuda a compreender por que determinados debates rapidamente deixam de girar em torno de ideias para atingir as pessoas: a projeção.
Nesse processo, sentimentos, desejos ou características difíceis de reconhecer em si mesmo acabam sendo deslocados para o outro, que passa a representar tudo aquilo que se deseja combater.
Também é mais fácil localizar o mal fora de nós do que reconhecê-lo em nós. A agressividade, a ambição, a fragilidade, a insegurança ou o desejo de reconhecimento encontram um endereço conveniente: o outro.”
Segundo Camaratta, esse movimento simplifica uma realidade que é, por natureza, complexa. Em vez de lidar com ambiguidades, passamos a dividir o mundo entre quem está do lado certo e quem representa tudo aquilo que precisa ser rejeitado.
Essa leitura também encontra respaldo na teoria da psicanalista Melanie Klein. “O difícil é suportar a ambivalência: reconhecer que uma mesma pessoa reúne luz e sombra, qualidades e defeitos, generosidade e egoísmo, acertos e equívocos. A esse movimento chamamos de integração”, aponta Camila.
Para a psicanalista, é exatamente quando essa integração falha que o adversário deixa de ocupar seu lugar legítimo nas relações sociais.
O problema começa quando o outro deixa de ser adversário para tornar-se inimigo; quando já não suportamos reconhecer nele qualquer traço de humanidade ou qualquer semelhança conosco.”
O desafio não está em eliminar as diferenças
Embora o período eleitoral torne esse comportamento mais evidente, Camaratta ressalta que ele se manifesta diariamente nas relações familiares, nas empresas, nos condomínios, nas torcidas esportivas e nas redes sociais. A diferença é que, no ambiente digital, os conflitos encontram velocidade, alcance e visibilidade inéditos.
Futebol, política ou qualquer outro espaço de disputa apenas oferecem novos cenários para mecanismos psíquicos que acompanham a humanidade há séculos. As rivalidades mudam de palco, mas continuam cumprindo a mesma função: organizar pertencimentos, reforçar identidades e, muitas vezes, simplificar uma realidade que é muito mais complexa.
Para Camaratta, o desafio não está em eliminar as diferenças, mas em impedir que elas destruam a capacidade de convivência.
Talvez o maior desafio de uma democracia não seja eliminar as rivalidades, mas cultivar a capacidade de integrar em vez de cindir. Afinal, o adversário é alguém com quem disputamos ideias; o inimigo é alguém cuja existência deixamos de tolerar.”
Como sustentar uma conversa difícil
Algumas estratégias podem ajudar a reduzir a escalada do conflito:
- Nomear a reação: “estou me sentindo alerta porque o assunto é importante para mim”.
- Diferenciar sensação de fato: sentir raiva não comprova que a outra pessoa tem má intenção.
- Evitar responder a partir da imagem que se faz de um grupo inteiro.
- Fazer perguntas para entender, e não apenas para rebater.
- Reconhecer quando a conversa deixou de ser produtiva e pausá-la.
- Procurar apoio psicológico quando o medo, a raiva ou a ansiedade passarem a afetar relações e bem-estar.
Não se trata de eliminar toda reação de alerta. O objetivo é ampliar a capacidade de olhar para além dela e lembrar que quem pensa diferente não deixa de ser pessoa”, conclui Luanda.
Com Assessorias




