Suicídio, a gênese do problema: como identificar um comportamento suicida

 

O psiquiatra Jorge Jaber realizou ação em Copacabana para chamar atenção para o problema (Foto: Isabela Kassow - Divulgação)

O psiquiatra Jorge Jaber realizou ação em Copacabana para chamar atenção para o problema (Foto: Isabela Kassow – Divulgação)

O problema é grave e merece toda a atenção. Mas como explicar a tendência ao suicídio? Segundo o psiquiatra Jorge Jaber, a gênese do problema pode estar em fatores psicológicos, sociais, biológicos, culturais e ambientais. Alguns comportamentos suicidas podem ser conceituados em ideação suicida, pela comunicação verbal e não verbal, planejamento e tentativa de suicídio e o suicídio propriamente dito. “Sendo o suicídio um fenômeno complexo, de causas múltiplas, sua ocorrência não pode ser atribuída a uma única característica ou evento estressor”, explica.

De acordo com conceitos extraídos da American Psychiatric Association, na intenção suicida existe a expectativa subjetiva e desejo que um ato auto lesivo resulte em morte. Já a ideação suicida representa pensamentos de ser agente de sua própria morte. “Pode variar de gravidade, dependendo do plano de suicídio e do grau de intenção suicida”, explica o especialista.

A tentativa de suicídio é caracterizada como o comportamento auto lesivo com consequências não fatais, acompanhado de evidências de que a pessoa pretendia morrer. Na tentativa abortada de suicídio, o comportamento é potencialmente auto lesivo, com evidências de que a pessoa pretendia morrer, mas a tentativa foi interrompida antes do dano ocorrido. A letalidade do comportamento suicida é a ameaça objetiva para a vida associada a um método ou ação suicida. O suicídio propriamente dito significa a morte provocada com evidências de que a pessoa pretendia morrer.

Como avaliar o paciente?

A entrevista clínica continua sendo a melhor estratégia para avaliar o risco de comportamentos suicidas, sendo importante o estabelecimento de um vínculo baseado em confiança e colaboração. Cabe aos profissionais avaliar o risco individual para comportamentos suicidas. Essa avaliação deve ser baseada nos fatores de risco e nos fatores de proteção estimados durante a entrevista. “Devemos levar em conta: comportamento suicida, transtornos psiquiátricos, situação psicossocial, vulnerabilidade e capacidade de enfrentamento individual, história médica pregressa, e história familiar”, explica Jorge Jaber.

Na avaliação do risco de suicídio é preciso determinar a presença de pensamentos suicidas, incluindo conteúdo e duração desses pensamentos. O profissional deve questionar a cerca da formulação de um plano, incluindo método, lugar, hora, e acesso a esse método. É preciso ainda identificar a letalidade do plano e o desejo ou não de ser resgatado. Após a avaliação de risco, o profissional deve direcionar a intervenção de acordo com a gravidade apresentada. “Pode haver a coexistência de desejos e atitudes antagônicas, devendo-se estar atento para a ambivalência em pacientes suicidas. A avaliação inclui o questionamento direto quanto à intenção, ideação e plano suicida”, ressalta.

Qual o tratamento mais adequado?

Para a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente, deverá ser considerada a condição clínica do paciente, sua capacidade de prover o auto cuidado, compreender riscos e benefícios das abordagens terapêuticas e cooperar com o tratamento instituído. De acordo com a OMS, os paciente devem ser classificados em:

baixo risco- pensamentos suicidas ocasionais, sem planos. Orienta-se fornecer suporte emocional e encaminhamento profissional especializado, trabalhando os sentimentos suicidas e propiciando um processo de reflexão

. médio risco- pensamentos e planos, sem caráter imediato. Encaminhamento ao profissional especializado, trabalhando sentimentos suicidas, e fortalecendo o desejo de viver.  Família e amigos devem ser contactados.

alto risco- plano definido e meios de execução, com caráter imediato. Fornecer acompanhamento em tempo integral até que se providencie a hospitalização, que deve ser imediata. Meios de suicídio em posse do paciente, devem ser removidos. Família deve ser contactada.

Outras indicações de hospitalização incluem fatores baseados na doença, como gravidade dos sintomas, comportamento violento,  demanda de intervenções recebidas, como observação constante ou avaliação diagnóstica. Pacientes que não conseguem se manter seguros em ambientes menos restritivos ou que tem suporte social inadequado também devem ser avaliados quanto à necessidade de internação.

A ABP lançou uma cartilha para profissionais de imprensa que explica como identificar o comportamento suicida (Reprodução de Internet)

A ABP lançou uma cartilha para profissionais de imprensa que explica como identificar o comportamento suicida (Reprodução de Internet)

Quais os principais fatores de risco?

Conforme a Associação Brasileira de Psiquiatria, há diversas maneiras de prever e impedir o ato suicida. Os dois principais sinais de alerta são tentativa prévia de suicídio e presença de doença mental. A primeira delas é o fator preditivo isolado mais importante. Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar suicídio novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado previamente.

De acordo com especialistas, quase todos os suicidas tinham uma doença mental, muitas vezes, não diagnosticada ou não tratada de forma adequada. Os transtornos mentais mais comuns incluem depressão; transtorno bipolar; alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas; alguns transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja, quanto mais diagnósticos, maior o risco.

Outros fatores de risco também devem ser considerados, como o sentimento de desesperança, desamparo e desespero; doenças clínicas graves, como câncer, Aids ou doenças degenerativas; maus tratos na infância, como abuso físico e sexual; dentre outros. Entre os principais motivos que levam à execução da própria vida está o história familiar de suicídio. Desesperança, baixa auto estima, solidão, perdas interpessoais e impulsividade também podem ocasionar o problema.

Doenças físicas, como dor crônica, cirurgia recente, doença crônica ou em estágio terminal podem desencadear a ideação suicida, bem como abuso e experiências adversas na infância. Outro fator de risco é o estado civil. O risco é maior entre aqueles que nunca casaram, assim como quem mora sozinho. A ocupação também deve ser considerando, sendo maior o risco entre desempregados.

Que fatores podem ser protetores para se evitar o suicídio?

Suporte social, vínculo familiar, gestação, maternidade e até a religiosidade podem ser fundamentais para se evitar a vontade de dar fim à própria vida. Acesso restrito a meios que possibilitem o suicídio e e até habilidades na resolução de problemas e conflitos são outros bons indicadores. Estilo de vida saudável com pessoas que não fazem uso de drogas ou álcool de forma inadequada e manutenção de uma boa alimentação, bons padrões de sono, prática de exercício físico e vida ativa também contribuem.

Fonte: Clínica Jorge Jaber, com redação

Post atualizado em 11 de setembro, às 20h.

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