Pouco antes de tirar a própria vida aos 26 anos, o mineiro Rafael Borges Amaral enviou um áudio em tom de desabafo a um amigo. O jovem de Uberlândia (MG), que trabalhava em um lava-jato e sempre fora conhecido por sua responsabilidade, não conseguia mais controlar o vício compulsivo em bets.

Rafael vendeu o próprio veículo, perdeu economias, viu o contrato do negócio ser rescindido e acumulou um endividamento que escondeu da família até o limite. Sua história passou a inspirar projetos de lei e debates na CPI das Bets no Congresso Nacional, impulsionados pela luta de sua mãe, a professora Vânia de Souza Borges, para conscientizar o país sobre a gravidade da dependência em jogos virtuais.

O drama de Rafael não é isolado. Em São Paulo, o auditor Otacílio Prates acumulou uma dívida estimada em R$ 1,5 milhão em plataformas de cassinos online sem que a família desconfiasse da extensão do problema. Antes comunicativo e alegre, Otacílio passou a apresentar isolamento social, alteração severa de humor e ansiedade constante até tirar a própria vida em dezembro de 2025.

Casos como esses evidenciam como o avanço desmedido das apostas digitais tem gerado sofrimento psíquico grave, um problema de saúde pública trazido ao centro das atenções neste Setembro Amarelo, por conta do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Especialistas defendem que é indispensável abordar o transtorno do jogo sem tabus ou julgamentos moralistas.

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti (que trata e estuda o transtorno do controle do impulso) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), explica que os pacientes que buscam ajuda por conta da ludopatia — condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar — costumam chegar aos consultórios com o humor bastante deprimido e quadros severos de ansiedade.

Há quem tenha pensamentos de morte e, no caso, os mais graves já com a ideação suicida em virtude dos prejuízos financeiros que têm. A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirma a psiquiatra.

O mecanismo biológico e o ciclo de frustração no cérebro

O impacto do vício em apostas vai além do comportamento e envolve alterações orgânicas no cérebro. O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Hospital Quali Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, explica que a expectativa de ganhar ativa o sistema de recompensa cerebral com a liberação de dopamina.

Especialista trabalhando no Rio de Janeiro, Maia ressalta que o cérebro passa a ser estimulado por esse reforço intermitente, afetando áreas responsáveis pelo controle das decisões.

O sistema de recompensa pode começar a falar mais alto do que os mecanismos de controle das decisões. A ideia suicida ocorre nos aprofundamentos de quadros depressivos e que levam a uma frustração contínua”, ressalta o médico.

Segundo o neurocirurgião, a saída desse quadro exige uma abordagem terapêutica contínua e multidisciplinar, combinando medicina, psicologia e prática de atividades físicas, além do suporte indispensável de redes de apoio como o Centro de Valorização da Vida (CVV).

Sinais de alerta e o acolhimento familiar

Muitas vezes, a pessoa que enfrenta a dependência não consegue reconhecer a gravidade da situação por conta própria e precisa da ajuda de familiares e amigos. As famílias não só testemunham o adoecimento emocional, mas também enfrentam um endividamento em cascata.

Entre os principais sinais de risco que exigem atenção imediata de parentes e pessoas próximas estão:

  • Desesperança e sensação de estar sem saída;

  • Afastamento social e isolamento das pessoas do convívio diário;

  • Aumento repentino no consumo de bebidas alcoólicas;

  • Mudanças bruscas de comportamento, insônia e crises de ansiedade;

  • Falas explícitas ou veladas relacionadas à morte ou ao desejo de sumir.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no Distrito Federal, reforça que tentativas ou pensamentos de autoextermínio representam um pedido desesperado de socorro.

A pessoa não quer necessariamente morrer, mas sente que precisa se ausentar daquela dor naquele momento. Nós fazemos o acolhimento e pedimos para trazer a família junto para pensar em estratégias que façam sentido para todos. A solução tem que ser também no âmbito coletivo”, pontua a psicóloga.

Apostas a um toque de distância e o isolamento

A facilidade de acesso às plataformas digitais é apontada pelos profissionais como um fator agregador de risco. A psiquiatra Giovanna Quinet, da Clínica Revitalis, no Rio de Janeiro, ressalta que as apostas online estão disponíveis 24 horas por dia no celular, além de estarem fortemente associadas a campanhas publicitárias no esporte e nas redes sociais, o que normaliza o hábito.

A psiquiatra pondera que nem todo apostador desenvolverá depressão ou pensamentos suicidas, mas o perigo surge quando o jogo deixa de ser recreativo e passa a ocupar o centro da vida da pessoa.

A pessoa começa apostando por entretenimento, passa a perder dinheiro, aumenta as apostas para tentar recuperar o prejuízo e esconde a dimensão do problema da família. Seguem-se dívidas, conflitos familiares, prejuízos no trabalho, vergonha e isolamento. Esse estado de desesperança aumenta o risco de comportamentos suicidas”, alerta Giovanna Quinet.

Para os especialistas, não se deve esperar o indivíduo chegar ao “fundo do poço” para buscar suporte profissional. Perguntar abertamente sobre o que a pessoa está sentindo não induz ao ato; pelo contrário, abre espaço para romper o silêncio e iniciar um tratamento adequado com acompanhamento psicológico e uso de medicações, quando necessário.

O posicionamento do setor

Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou reconhecer a relevância do debate focado na prevenção ao jogo problemático e na proteção de vulneráveis.

A entidade destacou que, com o início do mercado federal regulado no Brasil em janeiro de 2025, as empresas autorizadas passaram a cumprir diretrizes e regras rigorosas de proteção ao consumidor e publicidade responsável.

O IBJR defende que o enfrentamento do vício exige uma atuação coordenada entre órgãos públicos, reguladores, empresas e a sociedade.

Onde buscar ajuda e atendimento gratuito

Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil ou apresentando sinais de sofrimento emocional, procure ajuda imediatamente. Não fique sozinho:

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): Atendimento gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.

  • Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU): Atendimento de emergência ligando para o número 192.

  • Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo de sua residência.

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Com informações da Agência Brasil

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