As lições aprendidas com os desastres climáticos recentes, especialmente as severas inundações que assolaram o Rio Grande do Sul, levaram a uma mudança na estratégia de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante da expectativa da chegada do super El Nimõ, que deve agravar a crise climática no Brasil, o governo federal anunciou nesta terça-feira (30) um plano de expansão da Força Nacional do SUS (FNSUS). O objetivo é reduzir drasticamente o tempo de resposta em situações de calamidade: a promessa é chegar a qualquer ponto do país em até 12 horas.

A medida tenta endereçar uma crítica recorrente em grandes tragédias ambientais: a demora na chegada de ajuda especializada a áreas isoladas. Com a criação de oito novas bases operacionais distribuídas estrategicamente por todas as regiões brasileiras. Haverá unidades em Porto Alegre (RS), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), além de unidades no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com implantação prevista até 2027. O primeiro deles, de acordo com a pasta, será inaugurado na quarta-feira (1º) na Bahia.

A expectativa é que profissionais de saúde, equipamentos e suporte técnico consigam iniciar ações de socorro e estabilização nas primeiras 72 horas — o chamado “tempo de ouro” para evitar agravamentos de saúde em situações de crise. As unidades serão equipadas com tecnologia de ponta, incluindo viaturas especializadas, sistemas de comunicação via satélite e drones para reconhecimento em áreas de difícil acesso. A implantação está prevista para ser concluída até 2027.

Centros de Informação em Saúde e Clima

Para evitar que o atendimento seja apenas uma reação tardia ao desastre, a estratégia inclui a criação de Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC). Na prática, esses centros devem reunir geógrafos, meteorologistas e cientistas de dados para analisar o risco antes que a tragédia ocorra.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, enfatizou que o SUS trata a crise climática como uma emergência sanitária prioritária, sendo urgente a adaptação estrutural dos serviços para proteger, sobretudo, os grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças e gestantes.

A crise na saúde pública decorrente das mudanças climáticas é, talvez, uma das faces mais dolorosas e mais evidentes para a população dos impactos das mudanças climáticas”.

Ele destacou que um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) contabilizou 120 mil mortes ao longo dos últimos 20 anos diretamente relacionadas ao aumento da temperatura média em várias regiões do país.

A mitigação é muito importante, o esforço para reduzir emissões de carbono que impactam as mudanças climáticas é muito importante e necessário, mas a adaptação dos sistemas de saúde é algo urgente”, concluiu Padilha.

El Niño e os impactos na saúde

Além da logística de socorro, o Ministério da Saúde disponibilizou novas ferramentas de monitoramento que podem ser acompanhadas pela população e gestores locais. Uma delas é o Painel Nacional de Excesso de Calor, desenvolvido com o objetivo de apoiar ações de vigilância, prevenção e resposta aos riscos associados ao calor extremo, incluindo um sistema de alerta precoce com até cinco dias de antecedência.

As projeções para 2026-2027 indicam seca prolongada e risco de incêndios na Amazônia Legal; secas severas no semiárido nordestino; estresse térmico e incêndios no Cerrado e no Pantanal; ondas de calor e chuvas variáveis no Sudeste; e chuvas intensas com risco de inundações e deslizamentos no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. As ondas de calor são apontadas como risco transversal a quase todo o território nacional.

Protocolo sobre calor extremo para pessoas idosas

Em períodos de calor extremo, o Ministério da Saúde reforça as medidas de proteção, com atenção especial a idosos, crianças, gestantes e pessoas doentes ou acamadas e também a trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de rua.

Os idosos são o grupo mais vulnerável devido à menor percepção de sede, à maior presença de doenças crônicas e ao uso de medicamentos que podem reduzir a capacidade de adaptação ao calor, aumentando o risco de desidratação, exaustão térmica e agravamento de condições pré-existentes.

Por isso, o ministério também trabalha com um protocolo específico sobre calor para idosos, com orientações que incluem:

  •  aumentar a ingestão de água e sucos naturais sem açúcar, mesmo sem sentir sede,
  • evitar bebidas alcoólicas e com alto teor de açúcar,
  • evitar exposição ao sol durante os horários mais quentes, entre 10h e 16h,
  • usar protetor solar aplicado 30 minutos antes da exposição e reaplicado a cada duas horas
  • adotar também o uso de chapéus e óculos escuros
  • manter a casa ventilada, fresca e arejada;
  • conferir se medicamentos de uso contínuo estão sendo tomados corretamente;
  • usar soro fisiológico em caso de ressecamento dos olhos ou das narinas.

Integração entre saúde, clima e território

O pacote de medidas anunciadas integra o AdaptaSUS, Plano Nacional de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas, que projeta investimentos de R$ 9,8 bilhões para aumentar a capacidade de preparação e resposta da saúde pública a eventos climáticos extremos, incluindo 27 metas e 93 ações com planejamento até 2035.

Em 2026, o Ministério da Saúde mobilizou R$ 16,3 milhões para resposta a emergências, sendo R$ 12,7 milhões destinados a desastres. Abaixo, as ações executadas desde a implementação do plano:

Entre os novos mecanismos de vigilância, destacam-se:

  • Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC): Implantados nas cinco regiões, estes centros integrarão dados meteorológicos, epidemiológicos e socioeconômicos para monitorar riscos em tempo real. O primeiro centro será inaugurado na Bahia.
  • Painel Nacional de Calor Extremo: Uma nova ferramenta digital que fornece previsões de risco para todos os 5.570 municípios brasileiros com até cinco dias de antecedência, cruzando dados de temperatura com indicadores de vulnerabilidade social. A ideia é emitir alertas antecipados para que idosos e pessoas com doenças crônicas possam se proteger antes das ondas de calor.
  • Sala de Situação Nacional de Emergências Climáticas em Saúde — integra dados epidemiológicos, ambientais, meteorológicos e assistenciais para monitorar riscos e coordenar respostas com estados e municípios. Em operação.
  • Monitoramento da qualidade do ar: O sistema Vigiar já oferece um histórico e estimativas sobre o impacto da poluição na saúde respiratória dos brasileiros.
  • Painel Vigiar – Poluição Atmosférica e Saúde Humana — monitora impactos da poluição do ar na saúde com série histórica de 2010 a 2024 e estimativas de mortalidade associada. Em operação.
  • Sistema de Informações Ambientais Integradas à Saúde (SISAM) — reúne dados históricos e previsões de qualidade do ar para apoiar a vigilância em saúde. Em operação.
  • Informes de Monitoramento de Incêndios Florestais — análises semanais sobre focos de calor e exposição da população durante o período de queimadas. Em operação sazonal.
  • Guia de Mudanças Climáticas e Saúde para Profissionais de Saúde — orienta prevenção e manejo clínico, com foco em calor extremo. Disponível em diferentes formatos.
  • Nota Técnica nº 18/2023 – Ondas de Calor — estabelece diretrizes para prevenção e resposta a eventos de calor extremo. Em vigor.
  • Guia de Vigilância Popular em Saúde e Emergências Climáticas — integra conhecimento científico e saberes tradicionais para resposta comunitária. Disponível.
  • Planos Estaduais de Adaptação do Setor Saúde — Bahia, Pará e Piauí concluíram os planos; Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Maranhão e Rio de Janeiro estão em elaboração; demais estados em fase inicial.

PET-Saúde Clima: preparação acadêmica e comunitária

O investimento também alcança a educação e a pesquisa.  Outra ação anunciada é a seleção de projetos para a 13ª edição do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), com foco no enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas. Com investimento de R$ 266 milhões e 12,6 mil bolsas distribuídas em todos os estados, esta é a maior edição da história do programa.

Dos 197 projetos selecionados, 39 serão desenvolvidos na Amazônia Legal, o equivalente a 20% do total. O Rio Grande do Sul foi o estado com maior número de propostas submetidas. Os projetos integram universidades, profissionais de saúde e comunidades na construção de soluções para os desafios climáticos, com atenção especial às regiões mais afetadas por eventos extremos.

Como antecipar riscos e responder de forma mais rápida

A proposta inclui antecipar riscos climáticos e emitir alertas; preparar serviços de saúde resilientes; proteger a população, sobretudo em regiões mais vulneráveis; e fortalecer a capacidade do SUS de responder e reconstruir territórios afetados.

O programa tem como base cinco frentes com o objetivo de antecipar riscos e responder de forma mais rápida:

  1. coordenação (sala de situação, articulação com estados, municípios e Defesa Civil);
  2. fortalecimento da capacidade de saúde (equipes mobilizadas e reforço a territórios isolados);
  3. comunicação (orientações claras para gestores, profissionais de saúde e população);
  4. vigilância e alertas (monitoramento de riscos climáticos, sanitários e epidemiológicos); e
  5. reforço de insumos (medicamentos, vacinas, água segura e estrutura para resposta rápida).

O que muda para você?

O desafio prático do governo federal será a efetiva montagem dessas bases e a coordenação real com os estados e municípios, que são os entes que estão na linha de frente quando a chuva cai ou o calor aperta. O fortalecimento desta rede é fundamental, pois quando olhamos para a crise climática sob a perspectiva da Saúde Única (One Health).

Entendemos que a proteção da saúde humana em tempos de desastre é indissociável da preservação do meio ambiente e do monitoramento das condições climáticas. É uma abordagem que conecta o clima local, o risco de zoonoses e a infraestrutura sanitária necessária para proteger a comunidade.

Para acompanhar os alertas e as orientações de proteção em sua região, acesse os canais oficiais do Ministério da Saúde: Portal da Saúde – Mudanças Climáticas. Saiba mais:

Com informações do Ministério da Saúde

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