Esqueça as salas de espera brancas e o ambiente rígido dos postos de saúde. Para muitos jovens das periferias, cruzar a porta de uma unidade básica de saúde é enfrentar uma barreira invisível de olhares e julgamentos. É justamente para furar essa bolha que a Fiocruz Bahia lança o projeto PrEP na Comunidade (COmPrEP), uma iniciativa que tira a prevenção do HIV dos consultórios e a leva para as ruas, festas e pontos de encontro da juventude
O foco é cirúrgico: adolescentes e jovens de 15 a 24 anos — especialmente homens gays, travestis e mulheres trans — que hoje formam o grupo com a maior taxa de novas infecções, mas que representam apenas uma fatia irrisória (0,2%) de quem realmente acessa a Profilaxia Pré-Exposição pelos canais tradicionais.
O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) também decidiu levar informações sobre HIV à Geração Z diretamente aos canais de consumo da juventude. E escolheu o funk para chegar até adolescentes e jovens. O Unaids lançou no Brasil, neste dia 8 de abril, a estratégia “Proibidão Protegidão”.
A campanha utiliza o Spotify Canvas – ferramenta de vídeos em loop de oito segundos que acompanha a reprodução das faixas – como um espaço inédito de mídia. Hits de funkeiros conhecidos tiveram seus visuais originais substituídos por animações que promovem o uso do preservativo.
Entre as faixas que participam da iniciativa estão “Fazer Falta”, do Mc Livinho, “Vínculo Nenhum”, do Mc Davi, “Flauta”, da Mc Mari e “Lá no Meu Barraco”, do Mc Pikachu. Somadas, essas músicas atingem cerca de 300 milhões de visualizações na plataforma, o que aumenta significativamente o potencial de atingir adolescentes e jovens.
Unaids leva prevenção ao HIV a funks “proibidões” no Spotify
“Proibidão Protegidão” faz uso inédito de visualizers de hits do funk no Spotify com animações que promovem uso de preservativo

A escolha do funk como plataforma de conscientização pela Unaids responde ao alcance massivo do gênero entre a Geração Z. Ao ocupar o visual das faixas de “funk proibidão”, o programa das Nações Unidas insere a proteção em um contexto em que a sexualidade já é discutida abertamente, mas o acesso à informação para promover autonomia e escolhas sobre prevenção é deixado de lado.
A ação reafirma o compromisso da ONU em atingir as metas globais para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, adaptando a linguagem institucional às novas dinâmicas do consumo digital.
Adaptar linguagem e promover uma comunicação de prevenção do HIV baseada na autonomia e escolhas é parte da mudança necessária para uma resposta ao HIV equitativa e que atenda às necessidades específicas dos grupos, especialmente a população jovem, que segue sendo a mais afetada pelas novas infecções”, afirma Thainá Kedzierski, oficial de Comunicação e Advocacy do Unaids Brasil.
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Como vai funcionar o estudo da Fiocruz nas comunidades
Já no estudo da Fiocruz nas periferias de Salvador e São Paulo, a novidade é o uso de educadores pares. Em vez de um médico de jaleco, quem apresenta a PrEP é alguém que fala a mesma língua e vive a mesma realidade do jovem. O trabalho é coordenado pelos pesquisadores Laio Magno (Uneb/Fiocruz) e Inês Dourado (UFBA), em parceria com especialistas da USP.
Muitas vezes, o espaço do serviço de saúde não é receptivo para esses jovens, e menos ainda para populações da diversidade sexual e de gênero. Nossas pesquisas registram muito estigma”, afirma o pesquisador Laio Magno à Agência Brasil.
O recrutamento começa entre setembro e outubro de 2026, com um mapeamento prévio já realizado para identificar onde esses jovens se reúnem. O projeto, que conta com apoio do Ministério da Saúde e financiamento internacional do National Institutes of Health (NIH), vai dividir os 1,4 mil participantes em dois grupos:
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Cuidado tradicional: Acesso à PrEP via unidades de saúde padrão.
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Cuidado comunitário: Oferta mediada pelos educadores pares em locais de sociabilidade (ruas, festas e centros culturais).
O objetivo é avaliar se, ao oferecer o método preventivo em um ambiente acolhedor e sem julgamentos, as taxas de adesão e permanência no tratamento aumentam Os resultados, previstos para 2028, podem mudar definitivamente a forma como o Brasil faz saúde pública nas quebradas e periferias brasileiras.
A ideia é provar que, quando o cuidado é feito por quem entende a realidade da comunidade, a adesão ao tratamento deixa de ser um peso e vira parte da rotina de autocuidado.
Quase metade das infecções por HIV são na faixa dos 15 aos 29 anos
De acordo com o comunicado da Unaids, o projeto busca ampliar a visibilidade do tema e responder ao avanço de novas infecções entre jovens, transformando conteúdos culturais em ferramentas de utilidade pública.
Ambas as iniciativas – da Fiocruz e da Unaids – ocorrem em um contexto de concentração das novas infecções por HIV nessa população. De acordo com o Boletim Epidemiológico – HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde, 48,7% das novas infecções por HIV foram registradas em pessoas de 15 a 29 anos em 2024.
Esses dados corroboram com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), realizada pelo IBGE em 2019,que mostra que, no Brasil, o percentual de jovens de 13 a 17 anos que afirmam usar preservativo nas relações sexual caiu de 72,5% em 2009 para 59% em 2019.
Prevenção do HIV: autonomia e escolhas
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos métodos de prevenção. A partir da Mandala da Prevenção Combinada, o objetivo é buscar um impacto máximo na redução de novas infecções pelo HIV ao combinar estratégias biomédicas, comportamentais e estruturais baseadas nos direitos humanos e em evidências, considerando realidades específicas.
O SUS oferece de forma gratuita PrEP, PEP, preservativos internos e externos, lubrificantes, autoteste para HIV, além de tratamento antirretroviral para pessoas que vivem com HIV. Recentemente o SUS incorporou preservativos externos sensitivos e texturizados.
Fonte: Agência Brasil e ONU Brasil






