Com a população global envelhecendo rapidamente, as doenças neurodegenerativas — como Alzheimer e Parkinson — tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Segundo projeções do IBGE, até 2050 o Brasil poderá ter mais de 65 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 30% da população do país.

Celebrado em 22 de julho, o Dia Mundial do Cérebro convida a uma reflexão urgente sobre a saúde pública: como garantir que o aumento da expectativa de vida seja acompanhado pela preservação da autonomia e da cognição?

Cuidar da mente vai muito além de fazer palavras cruzadas ou exercícios isolados de memória. A ciência demonstra que as escolhas diárias — como dormir bem, praticar atividades físicas, manter uma alimentação equilibrada e cultivar conexões sociais — têm impacto direto na estrutura e no funcionamento cerebral.

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e especialistas da área reforçam que prevenir condições neurológicas, além de ampliar o acesso ao diagnóstico e tratamento precoces, é fundamental para garantir qualidade de vida em todas as idades.

O peso dos hábitos no envelhecimento saudável

Embora o envelhecimento seja um processo biológico natural, a perda das funções cognitivas não é inevitável. A adoção de hábitos saudáveis ajuda a proteger o cérebro, estimula o desempenho cognitivo e reduz o risco de acidente vascular cerebral (AVC), demência e outras condições. Controlar a pressão arterial, os níveis de glicemia e colesterol, além de banir o tabagismo, são passos cruciais nessa proteção.

Para o neurologista Marcos Lange, membro da Comissão de Estilo de Vida da ABN, a combinação de diferentes fatores é o que garante a máxima proteção.

Os hábitos com melhor respaldo científico são: atividade física regular, sono adequado, alimentação saudável, controle dos fatores de risco vasculares, estímulo cognitivo e vínculos sociais consolidados”, pontua o médico.

Muitas vezes, os danos à saúde cerebral ocorrem de forma silenciosa. Dormir pouco, passar longas horas sentado, negligenciar doenças como hipertensão, diabetes ou apneia do sono, o excesso de telas, o consumo frequente de ultraprocessados, o tabagismo e o isolamento social comprometem gradualmente as conexões neurais.

“A curto prazo, ao mudar esses hábitos, a pessoa ganha mais energia, melhor sono, clareza mental e melhora do humor. A longo prazo, os benefícios incluem a redução drástica do risco de AVC, demência, depressão e declínio cognitivo”, destaca Lange.

Diagnóstico precoce e o respaldo da ciência

Estima-se que cerca de um terço dos casos de Alzheimer no mundo esteja associado a fatores de risco modificáveis. Segundo a neurologista Larissy Degani, que integra a equipe de Prescrição Médica da Prati-Donaduzzi, os fatores modificáveis exigem atenção contínua.

“O processo de envelhecimento do corpo não acontece da mesma forma para todos. Hipertensão, diabetes, consumo excessivo de álcool, má alimentação e sono de baixa qualidade aceleram o comprometimento cognitivo. Modificar esses fatores é a melhor ferramenta preventiva de que dispomos”, explica a médica.

A eficácia desse estilo de vida integrativo é comprovada por evidências científicas. O emblemático estudo FINGER, publicado na revista científica The Lancet, acompanhou idosos com risco acrescido de demência submetidos a intervenções em nutrição, exercícios físicos, treino cognitivo e controle vascular.

Após dois anos, os participantes apresentaram uma pontuação cognitiva global 25% superior à do grupo de controle, além de um ganho de 83% nas funções executivas e de 150% na velocidade de processamento.

Para doenças que ainda não possuem cura, como o Alzheimer e o Parkinson, o diagnóstico precoce possibilita intervenções terapêuticas — como o uso de memantina, galantamina e moduladores de sintomas neuropsiquiátricos — que retardam a progressão dos sintomas.

Quanto mais cedo ocorrem o diagnóstico e o início do tratamento, maiores são as chances de manter a autonomia do paciente”, conclui a Dra. Larissy.

Saúde cerebral ao longo de toda a vida

Para o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes, professor livre-docente da USP, a proteção do cérebro não deve ocorrer apenas na velhice ou quando os sintomas aparecem, mas sim ser tratada como uma política pública continuada, desde a infância.

Durante muito tempo, esperamos a doença surgir para começar a cuidar do cérebro. Precisamos inverter essa lógica. A saúde cerebral deve estar presente na escola, na Unidade Básica de Saúde (UBS), no ambiente de trabalho e na família”, defende o especialista.

1. Na infância: identificação e intervenção precoce

Identificar precocemente sinais de Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, atrasos no desenvolvimento e dificuldades de aprendizagem evita prejuízos na vida adulta.

  • Sinais de alerta: atraso na fala, dificuldade no contato visual ou de interação social, sensibilidade extrema a estímulos, hiperatividade, queda no rendimento escolar e falta de coordenação motora.

2. Na vida adulta: prevenção de transtornos emocionais

Em um mundo hiperconectado, a sobrecarga mental favorece quadros de ansiedade, depressão e burnout.

  • Sinais de alerta: tristeza ou ansiedade persistentes, esgotamento físico e mental, alterações do sono, perda de concentração e isolamento social.

  • Cuidado: segundo o neurocientista, a proteção exige olhar para a rotina de trabalho, manter redes de apoio e criar ambientes mais saudáveis.

3. Na terceira idade: atenção às causas reversíveis de perda de memória

Alterações cognitivas, quedas e mudanças bruscas de comportamento não devem ser banalizadas como “coisas da idade”.

  • Sinais de alerta: lapsos de memória que afetam a rotina diária, incontinência urinária, alteração na marcha e instabilidade do humor.

  • Atenção: “Nem toda perda de memória é Alzheimer. Algumas condições, como a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN), podem ser tratadas e até reversíveis quando diagnosticadas a tempo”, pondera Fernando Gomes.

Cuidar do cérebro ao longo de todas as fases da vida é a única estratégia capaz de garantir que o aumento da longevidade humana seja acompanhado de funcionalidade, dignidade e bem-estar.

Com Assessorias

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