Foram mais de quatro décadas de dependência química e tentativas frustradas de largar o cigarro por conta própria. A história do bombeiro civil Gilson Motta, de 65 anos, reflete a realidade de milhões de brasileiros, mas ganhou um novo rumo dentro da Clínica da Família Ilzo Motta de Mello, localizada em Paciência, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Em agosto, ele celebra uma marca histórica: quatro anos totalmente livre do tabaco. A reviravolta começou quando a filha de Gilson, que atua como agente comunitária de saúde na própria unidade, o convenceu a buscar o suporte dos profissionais do município.

Eu fumava desde os 14 anos. Já tinha tentado largar o cigarro outras vezes, mas sem sucesso. Só consegui abandonar para valer quando comecei a participar com regularidade das palestras e dos encontros do grupo de tabagismo, passei a usar adesivo de nicotina e fazer auriculoterapia”, relembra o bombeiro civil.

SUS atendeu 2,5 milhões de fumantes em 2025

Gilson faz parte de uma estatística que vem crescendo de forma expressiva ano após ano: a de brasileiros que recorreram de forma voluntária ao Sistema Único de Saúde (SUS) para abandonar o tabagismo. Em 2025, a Atenção Primária à Saúde, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), acolheu 2,5 milhões de pessoas em busca de tratamento, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde.

O montante representa um salto de 95% na comparação com 2022, período em que foram contabilizados 1,2 milhão de atendimentos na rede pública. A expansão dos serviços de acolhimento nos territórios nacionais ajuda a explicar o avanço. Entre o final de 2022 e o primeiro semestre de 2026, a rede de assistência recebeu o reforço de 21,8 mil novas equipes e serviços financiados pelo governo federal.

Essa escalada na procura coincide com o robusto investimento federal no fortalecimento da Atenção Primária. O país expandiu suas estruturas de atendimento ao saltar de 82,5 mil equipes e serviços cofinanciados em 2022 para as atuais 104,3 mil frentes de atuação em 2026.

A inserção de 21,8 mil novas equipes de Saúde da Família e de Equipes Multiprofissionais (eMulti) descentralizou o acesso, permitindo que a assistência médica e psicológica chegue mais perto da residência dos usuários. O crescimento contou ainda com a ampliação do Serviço de Especialidades em Saúde Bucal (SESB).

Força de vontade e acolhimento no SUS ajudam cariocas a vencer o vício do cigarro

Com apoio de equipes multidisciplinares nas clínicas da família do Rio, 93% dos pacientes abandonam o fumo logo no primeiro mês de tratamento em 2026

A eficácia desse modelo de atenção se reflete nos indicadores consolidados da capital. Somente no primeiro quadrimestre de 2026 (período de janeiro a abril), mais de 2,9 mil novos usuários procuraram a rede municipal de saúde para iniciar o tratamento contra o tabagismo. Desse total, um índice expressivo de aproximadamente 93% dos pacientes conseguiu parar de fumar ainda no primeiro mês de acompanhamento.

Este foi o caso de Gilson, que conseguiu interromper o hábito já no primeiro mês de acompanhamento e, atualmente, retorna à clínica da família como convidado para dar depoimentos e motivar novos pacientes. Hoje, os benefícios da decisão de parar de fumar aparecem na rotina e na saúde do bombeiro.

Ele relata melhoras significativas na qualidade do sono e na capacidade respiratória, lembrando que o tempo de deslocamento de 1h30 até o trabalho era o limite máximo que seu corpo aguentava ficar sem acender um cigarro.

Tudo depende da força de vontade de cada um, mas o apoio dos profissionais foi essencial para mim”, conta o ex-fumante.

Atendimento integral nas 240 unidades de Atenção Primária do Rio

Para amparar histórias como a de Gilson, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro disponibiliza o Programa de Controle do Tabagismo de forma totalmente gratuita em todas as suas 240 unidades de Atenção Primária, o que engloba as clínicas da família e os centros municipais de saúde espalhados por toda a cidade.

O fluxo de atendimento é desenhado para oferecer uma resposta personalizada e humanizada à dependência:

  • Acolhimento multidisciplinar: As equipes de saúde são compostas por médicos, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos e profissionais de educação física. Na primeira consulta, o cidadão passa por uma avaliação clínica detalhada para identificar o grau de dependência e traçar o plano terapêutico ideal.

  • Terapias combinadas: O tratamento oferece opções individuais ou em grupos de apoio, onde os usuários trocam experiências. Entre as principais linhas de cuidado integradas estão a auriculoterapia (técnica terapêutica que estimula pontos específicos da orelha), a reflexologia, o suporte psicológico e o acompanhamento odontológico direcionado.

  • Uso racional de medicamentos: A SMS destaca que nem todos os pacientes necessitam de suporte farmacológico. A dispensação de insumos como os adesivos transdérmicos de nicotina e outras medicações segue critérios clínicos rígidos, sendo restrita a perfis específicos que apresentam alto nível de abstinência física.

Os cidadãos residentes no município do Rio de Janeiro que desejam ingressar no Programa de Controle do Tabagismo podem consultar a localização e os contatos de todas as clínicas da família e centros municipais de saúde com suporte ativo por meio do mapeamento oficial da prefeitura.

Agenda Positiva

477 cadeiras vazias no MASP relembram óbitos diários

Para materializar essa estatística e sensibilizar a população, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) instalou uma intervenção com 477 cadeiras vazias no Vão Livre do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) no Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio).

O número faz referência direta à estimativa diária de óbitos associados ao tabagismo no Brasil. Segundo dados consolidados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país registra cerca de 174 mil mortes evitáveis por ano em decorrência de enfermidades desencadeadas pelo fumo.

O peso do tabagismo na saúde pública

A mobilização das secretarias de saúde ganha urgência diante do impacto epidemiológico e financeiro gerado pelo fumo. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabagismo é o principal fator de risco para o desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), como tumores malignos, problemas cardiovasculares crônicos, diabetes e enfisema pulmonar.

As estimativas apontam que o Brasil registra cerca de 477 mortes diárias decorrentes do fumo — o que resulta em 174 mil óbitos evitáveis por ano. Além do custo em vidas, o tratamento de pacientes Sequelados pelo fumo consome recursos públicos expressivos: para cada R$ 1 de lucro gerado pela cadeia comercial do tabaco, o Estado brasileiro despende cerca de R$ 5 em assistência médica, gerando um custo financeiro que ultrapassa os R$ 150 bilhões anuais.

Nicotinismo digital e o avanço dos dispositivos eletrônicos

As autoridades de saúde reforçam que a dependência química e psicológica foi agravada pelo avanço do chamado nicotinismo digital. Dados preliminares da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2024 indicam uma inversão na curva de queda histórica: a prevalência de adultos fumantes ou usuários de fumo no Brasil subiu para 11,6%, após um ciclo de estabilidade iniciado em 2019.

Os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), como vapes e pods, operam como a principal porta de entrada. De acordo com o Ministério da Saúde, o uso atual de dispositivos eletrônicos entre jovens de 18 a 24 anos atingiu a marca de 10,1% — o maior índice da série histórica para essa faixa etária.

O desenho tecnológico e os aditivos aromáticos mascaram o perigo, ocultando riscos imediatos como o aumento da rigidez arterial, elevação da pressão arterial, disfunções respiratórias e o desenvolvimento de lesões pulmonares severas.

São Paulo já atendeu mais de 900 mil pessoas

No Estado de São Paulo, a Política Estadual de Controle do Tabaco já prestou assistência a mais de 900 mil pessoas, divididas entre os perfis de atendimento presencial, híbrido e digital. Desse total, o público feminino representa 60% dos pacientes, enquanto os homens equivalem a 40%.

A rede paulista disponibiliza ainda a plataforma digital “Vida sem Nicotina” integrada ao aplicativo do Poupatempo, permitindo que o usuário realize o Teste de Fagerström para avaliar o grau de dependência e receba o direcionamento para o tratamento especializado nas unidades de saúde.

O ecossistema do tratamento gratuito nos municípios

O acolhimento aos usuários de tabaco e derivados de nicotina no SUS é realizado de maneira descentralizada. Para iniciar o processo, o cidadão precisa apenas se dirigir à UBS mais próxima de sua residência. As metodologias de tratamento oferecidas pelo SUS baseiam-se em protocolos oficiais e estruturados:

  • Abordagem terapêutica: O acompanhamento é conduzido por profissionais de saúde capacitados, por meio de consultas individuais ou em Grupos de Cessação do Tabagismo. As atividades coletivas — que incluem rodas de conversa e encontros educativos — saltaram de 61,9 mil em 2022 para 157,1 mil em 2025, reunindo mais de 2,1 milhões de participantes.

  • Suporte medicamentoso: Quando há indicação clínica, o tratamento é associado à dispensação gratuita de insumos essenciais para combater as crises de abstinência, tais como adesivos transdérmicos, gomas de mascar e pastilhas de reposição de nicotina, além do cloridrato de bupropiona.

  • Abordagens auxiliares: O sistema público também disponibiliza o suporte das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) como ferramentas de apoio emocional e físico ao paciente.

*Com informações do Ministério da Saúde, Inca, SES-SP e SMS-Rio.

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