A partida, em menos de 24 horas, de duas das maiores damas da televisão, do cinema e do teatro brasileiro — Laura Cardoso, aos 98 anos, e Glória Menezes, aos 91 anos — deixa uma lacuna irreparável na cultura nacional. Ambas faleceram de causas naturais em suas residências, cercadas pelo afeto familiar, após trajetórias marcadas por lucidez, vitalidade e uma dedicação irrestrita às artes dramáticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, declarou luto oficial por três dias.
Laura morreu dormindo em sua residência em São Paulo na noite de domingo, dia 17. Sua neta, Adriana Balleroni, explicou que a veterana estava bem e com a saúde estável. Na noite de segunda-feira, Laura apenas se sentiu mal, sua respiração foi esmorecendo e ela partiu de forma totalmente pacífica e lúcida, cercada pelo aconchego da família. Seu bisneto, Fernando Faria, reforçou que ela teve uma vida saudável até o fim e descansou dormindo, exatamente da maneira que havia revelado em entrevistas ser o seu desejo
Já Glória faleceu na tarde desta segunda-feira, dia 18, em sua residência, no Rio de Janeiro. Ela enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida em 2021, ao ser internada com Covid-19. Embora tenha superado a infecção, a doença levou seu marido, Tarcísio Meira, com quem viveu uma união de quase seis décadas. Segundo relatos de seu filho, Tarcísio Filho, e de amigos próximos, Glória demonstrou uma enorme força após a perda, recolhendo-se com a família no Rio de Janeiro, onde viveu com serenidade, cercada de carinho, mantendo a saúde estável até seus últimos dias.
8 ´ícones nonagenários ativos na cultura brasileira
A longevidade dessas veteranas reflete um fenômeno social e demográfico cada vez mais aparente: o que antes parecia um feito raro agora se torna mais comum. Atualmente, atingir a marca dos 90 anos ou ultrapassar o centenário mantendo a autonomia é uma conquista viável e progressiva no país.
A persistência no trabalho, o estímulo cognitivo e o engajamento social são marcas registradas dos artistas veteranos que continuam em atividade no Brasil:
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Nathalia Timberg (97 anos): Com mais de 90 anos de carreira, ela é atualmente a atriz brasileira mais longeva e continua em plena atividade teatral, realizando turnês com espetáculos e recitais poéticos. Mesmo utilizando cadeira de rodas para se locomover em trajetos longos, a veterana mantém a lucidez intacta e segue envolvida em grandes projetos, como A Mulher da Van, uma montagem especial criada para celebrar os seus 95 anos de vida. A atriz integrem o elenco da comédia de ação Velhos Bandidos, atuando ao lado de seus grandes amigos de longa data, Fernanda Montenegro e Ary Fontoura.
- Fernanda Montenegro (96 anos): Referência maior do teatro e cinema nacional, a atriz segue realizando leituras dramáticas, participando de produções cinematográficas e marcando presenças em eventos culturais. Em ‘Velhos Bandidos’, longa-metragem de comédia e ação dirigido por seu filho, Cláudio Torres, a grande dama da dramaturgia brasileira interpreta uma criminosa. Ela declarou que esta produção marca a sua despedida definitiva das telonas.
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Lima Duarte (96 anos): Com carreira iniciada no rádio e na inauguração da televisão brasileira, permanece ativo nas artes dramáticas e produtivo em suas reflexões sobre a vida e o teatro. Anualmente, ele lança mini-documentários artísticos em vídeo e textos reflexivos celebrando a vida, como o recente manifesto cênico intitulado “A Sorte da Lucidez”, produzido por sua equipe e familiares.
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Tony Tornado (96 anos): Pioneiro do soul e do funk no Brasil e ator marcante na TV e no cinema, o artista mantém sua vitalidade nos palcos musicais e em participações na dramaturgia. O legado do artista é o tema central de um grande musical de teatro intitulado “Tony – Uma Viagem pela Música Black do Brasil”, focado em contar a evolução do gênero musical no país através de sua história.
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Othon Bastos (93 anos): Ícone do Cinema Novo e do teatro brasileiro, mantém sua rotina de trabalho ativa com apresentações nos palcos e participações no audiovisual. Recentemente, protagonizou o aclamado monólogo ‘Não me Entrego, Não”, conquistando os principais prêmios da crítica nacional, incluindo o prestigiado Prêmio Shell de Melhor Ator, o Prêmio APTR, o Prêmio Arcanjo e o cobiçado troféu Faz Diferença.
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Stênio Garcia (94 anos): Com uma trajetória vasta na televisão e no teatro, o ator mantém a rotina de cuidados com o corpo e continua aberto a novos projetos de atuação. Ativo e com plena lucidez, o ator tem focado em produções cinematográficas, no mercado literário e em desabafos públicos contra o etarismo no meio artístico. O ator é o tema central de uma biografia inédita escrita pelo autor Cacau Hygino, que revisita os seus mais de 70 anos de carreira na dramaturgia e reconta bastidores e polêmicas de sua trajetória artística
- Rosamaria Murtinho (93 anos): Consagrada por personagens memoráveis na televisão e nos palcos, a atriz mantém presença constante no debate cultural, em leituras de textos e projetos dramatúrgicos. Recentemente, brilho nos palcos com o espetáculo ‘Uma vida em cores’, que celebra a coragem de envelhecer. Na peça teatral é inspirada na vida da designer e ícone da moda Iris Apfel. ela divide o palco com sua neta da vida real, Sofia Mendonça
- Ary Fontoura (93 anos): Além dos trabalhos na televisão e no teatro, reinventou sua comunicação com o público e tornou-se um fenômeno de produtividade e vitalidade nas redes sociais. Com mais de 7 milhões de seguidores no Instagramm Ary virou um fenômeno ao postar esquetes de humor diárias, dicas de receitas e seus vídeos virais treinando na academia, onde incentiva pessoas de todas as idades a começarem a se exercitar. No Prêmio Ibest, o ator levou o cobiçado troféu de “Protagonista Influenciador” devido ao enorme impacto de seus conteúdos na internet.
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Resiliência e o cuidado constante diante dos desafios da saúde
Enquanto muitos veteranos conseguem manter rotinas intensas de trabalho e vida social, o envelhecimento também impõe desafios delicados que exigem suporte familiar e assistência médica contínua. Esse contraponto mostra que a longevidade com qualidade de vida não significa ausência total de enfermidades, mas sim a capacidade de enfrentá-las com dignidade e afeto.
Um exemplo dessa realidade é o ator Mauro Mendonça, de 95 anos, casado há mais de seis décadas com a atriz Rosamaria Murtinho. Recentemente, no Dia dos Pais, a família compartilhou um registro emocionante do artista no hospital, cercado pelos filhos e pela esposa. A imagem simboliza a importância da rede de apoio familiar, da medicina preventiva e do acompanhamento geriátrico contínuo no manejo de condições de saúde mais complexas durante a terceira idade.
Como viver mais e com qualidade de vida?
Para a médica Fernanda Damiani, médica geriatra da São Bernardo Saúde e da Samp, o envelhecimento é um processo natural e individualizado.
Viver mais e com saúde hoje é possível graças aos avanços da medicina preventiva, que permitem um acesso mais fácil a exames diagnósticos. Esses exames ajudam a detectar doenças ainda no início, o que aumenta muito as chances de tratamento e cura. Além disso, as pessoas estão mais atentas aos cuidados com suas doenças e condições de saúde, o que promove uma melhor qualidade de vida, mais autonomia e, consequentemente, uma maior longevidade”, avalia a especialista.
A médica alerta que a busca por uma terceira idade saudável deve começar cedo com hábitos consolidados:
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Alimentação saudável e variada: Consumo frequente de frutas, verduras, grãos integrais e proteínas magras para fortalecer o organismo e manter a nutrição adequada.
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Prática de atividade física regular: A manutenção dos exercícios preserva a função do coração e atua na prevenção de doenças crônicas.
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Livre do tabagismo: Abandonar o cigarro reduz expressivamente os riscos de complicações cardiovasculares, respiratórias e diferentes tipos de câncer.
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Conexão com a natureza: O contato regular com ambientes naturais reduz os níveis de estresse, melhora a saúde mental e garante a qualidade do sono.
Fernanda Damiani reforça ainda que a longevidade exige políticas públicas eficazes: “Governos, sociedade civil e setor privado devem trabalhar juntos para garantir uma melhor qualidade de vida para os idosos, assegurando seus direitos e promovendo um envelhecimento digno e saudável para todos.”
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O legado inesquecível de Laura Cardoso e Glória Menezes
Laura Cardoso: do rádio ao pioneirismo na TV
Laurinda de Jesus Cardoso começou sua jornada profissional na década de 1940, ainda adolescente, atuando em radionovelas. Pioneira da televisão brasileira, esteve entre as primeiras contratadas da TV Tupi e protagonizou momentos históricos do teleteatro e das telenovelas nacionais. Com uma carreira prolífica de mais de sete décadas, a atriz participou de dezenas de produções icônicas na TV Globo e no cinema.
Nos últimos anos, mesmo ao se aproximar dos 100 anos, Laura manteve-se apaixonada pelo ofício. Em 2024, gravou o depoimento do projeto Tributo, da plataforma de streaming Globoplay, e em 2025 atuou no curta-metragem Dona Rosinha. Familiares destacaram que, em seus momentos finais, ela preservava o bom humor, a lucidez e o desejo incansável de atuar, ressaltando que “o artista não quer ser poupado, quer trabalhar”.
Glória Menezes: elegância, superação e amor à arte
Com mais de 60 anos dedicados à atuação, Glória Menezes marcou a história da teledramaturgia ao lado de seu eterno companheiro, Tarcísio Meira. Sua estreia ocorreu nos teleteatros do final dos anos 1950, consolidando-se posteriormente como uma das maiores protagonistas da televisão em novelas marcantes.
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