O Dia da Consciência Negra (20 de novembro) reforça a importância de combater o racismo estrutural na saúde – seja ela pública ou privada. Com foco na prevenção e enfrentamento do racismo no Sistema Único de Saúde (SUS), diversas iniciativas vêm sendo realizadas no Rio de Janeiro, como o Curso de Promoção da Saúde Antirracista, que desde o início do ano vem capacitando profissionais de saúde da rede municipal.
Realizada no Centro Municipal de Saúde (CMS) Renato Rocco, no Jacarezinho, em parceria com a Fiocruz, a iniciativa tem o objetivo de levar conhecimento sobre os direitos à saúde da população negra e qualificar ainda mais o atendimento local.
Aberto para os profissionais de saúde e usuários da unidade, o curso é dividido em três ciclos temáticos, teve início em abril e se encerrou há duas semanas, no mês em que se comemora o Dia da Consciência Negra (20 de novembro).
As aulas abordam conteúdos educacionais de valorização da população negra e propõem um debate entre os participantes. Ao longo dos estudos, os alunos relembram movimentos históricos, conceitos de raça e igualdade. Da teoria à prática, o propósito é adquirir conhecimento e unir o público na luta antirracista.
Trabalhando no CMS Renato Rocco há mais de 14 anos, a agente comunitária de saúde (ACS) Priscila Barros participou de um curso antirracista na Fiocruz e, inspirada no que aprendeu por lá, propôs esse ambiente de ensino na sua própria unidade, com apoio da instituição federal.
O curso ajudou a humanizar o olhar dos nossos profissionais, porque precisamos alcançar a camada mais vulnerável de quem não acessa a saúde, como pessoas em situação de rua, que são majoritariamente negras e pardas. Então, se temos profissionais humanizados e com consciência racial, conseguimos ir até este público”, conta a ACS Priscila Barros.
A diretora do CMS Renato Rocco, Ana Cláudia Lemos, aprovou a proposta da ACS e proporcionou os meios para a implantação do curso na unidade:
O primeiro ciclo do curso é focado em saúde da população negra, então, nós falamos sobre tuberculose, que é uma doença estigmatizada e mais frequente em negros. Também abordamos violência obstétrica, a falta de acesso à informação sobre planejamento familiar, que é um direito à saúde e foi limitado para população negra durante a história”, conta Ana Cláudia.
Quem esteve na classe foi a nutricionista Kelly Gonzaga. A alimentação balanceada foi um dos assuntos de destaque no curso. Mas o que ela evidencia é a mudança perpetuada para os integrantes:
As pessoas começaram a entender melhor sua identidade cultural. E nós, profissionais da saúde, debatemos amplamente sobre o racismo. Essa foi uma contribuição que o curso trouxe para gente”, contou a nutricionista.
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O Mediversidade no curso de medicina, que é majoritariamente branco e elitista, se faz necessário e urgente como uma ação antirracista concreta. A formação médica deve se comprometer com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra”, afirma.
“Minha presença é uma forma de resistência’, diz bolsista do Mediversidade

Moradora do bairro de Zé Garoto, em São Gonçalo, Joyce da Silva, de 20 anos, é uma das contempladas com as bolsas ofertadas pelo Mediversidade. De origem humilde, a jovem conta como a medicina e a luta racial a inspiram todos os dias a seguir o sonho de ser médica.
Eu sempre digo que a Medicina me escolheu. Desde muito nova, o cuidado com o outro, a empatia e o amor pelas pessoas fazem parte de quem eu sou. Escolhi (ou fui escolhida por) uma profissão que me permite transformar esse amor em ação. A Medicina me dá a chance de aliviar dores, acolher histórias e fazer diferença na vida de alguém“, destacou a estudante, que está terminando o 3º período.Como mulher negra, entendo que minha presença na medicina já é, por si só, uma forma de resistência e representatividade. Pretendo trabalhar a diversidade racial ocupando espaços que, por muito tempo, não foram acessíveis a pessoas como eu e abrindo caminhos para que outras também possam chegar. Quero mostrar que é possível vencer, inspirar e cuidar, respeitando as histórias e realidades de cada pessoa. A medicina precisa refletir a sociedade em toda a sua pluralidade, e acredito que contribuir para isso é uma das minhas maiores missões”, afirma.
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Novembro Negro foca no racismo religioso em instituições federais
Campanha de 2025 tem como tema “Respeito, Ancestralidade e Identidade: Pelo Fim do Racismo Religioso na Saúde” e promove ações integradas de combate à discriminação no SUS
Instituições federais de saúde do Rio de Janeiro – como os institutos nacionais de Câncer (Inca) e de Traumatologia (Into) realizam o Novembro Negro 2025, com o tema “Respeito, Ancestralidade e Identidade: Pelo Fim do Racismo Religioso na Saúde”.
A campanha deste ano está alinhada ao Plano de Ação da Estratégia Antirracista e ao Plano Setorial de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio e às Discriminações no Trabalho na Saúde, reforçando o compromisso do Ministério da Saúde e de suas instituições com uma rede pública plural, inclusiva e antirracista.
A iniciativa faz parte das políticas institucionais de promoção da equidade racial e da humanização do cuidado no SUS, alinhadas à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), que orienta práticas de combate à discriminação em serviços de saúde.
A programação “Saúde sem Racismo Religioso” propõe reflexões sobre o respeito à ancestralidade, à diversidade religiosa e à identidade dos pacientes, especialmente aqueles ligados a tradições afro-brasileiras. A proposta é a de ampliar o debate sobre como o racismo religioso se manifesta em espaços de atendimento público e estimular uma cultura institucional de acolhimento e equidade.
Na abertura da programação, na sede do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a superintendente do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, Cida Diogo, parabenizou as equipes envolvidas na construção do Novembro Negro e ressaltou a importância da união e da memória histórica na luta pela igualdade racial e pela liberdade religiosa.
Essa iniciativa é resultado de coragem e disposição para mexer com corações e mentes sobre uma questão que é tão cara para o nosso povo. Que as atividades do Novembro Negro nos inspirem a continuar lutando por políticas que garantam cidadania e direitos à população negra, em especial o direito à liberdade religiosa”, declarou.
A programação do Novembro Negro segue ao longo de todo o mês, com debates, rodas de conversa, apresentações culturais e atividades educativas voltadas à valorização da ancestralidade e ao combate a todas as formas de discriminação no âmbito da saúde pública.
‘Falar de saúde é falar de corpo, mente e espiritualidade’, diz diretor do Inca
A cerimônia de abertura da programação no Inca, no dia 7, contou com apresentação de dados do Dossiê Crimes Raciais 2020, do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP), que apontam uma média de mais de 70 vítimas de discriminação racial por mês no estado.
Segundo o levantamento, 58,2% das vítimas são mulheres e 42,9% não conheciam seus agressores. Quatro em cada dez casos ocorreram em espaços públicos, sendo a Zona Oeste a região com o maior número de ocorrências.
Esses números evidenciam que o racismo, inclusive o religioso, é um fenômeno estrutural e institucional, exigindo respostas firmes e contínuas das políticas públicas e do sistema de integridade do Estado.
Para o diretor-geral do INCA, Roberto Gil, destacou que falar de saúde é também reconhecer a espiritualidade como parte do cuidado integral:
Falar de saúde é falar de corpo, mente e espiritualidade. É reconhecer que o cuidado não cabe em um único molde, que nossas crenças, saberes e tradições também são fontes de cura e resistência. Saúde sem racismo religioso é um chamado à empatia, à escuta e à reparação. É garantir que cada pessoa seja acolhida com respeito, seja qual for a sua fé ou forma de viver a espiritualidade”, afirmou.
Into foca no enfrentamento ao racismo religioso na saúde
Entre os dias 11 e 13 de novembro, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro, realizou atividades culturais e educativas voltadas à promoção de uma saúde livre de racismo. A iniciativa integra a agenda nacional da Consciência Negra e é realizada em parceria com a Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (SAES) e o GT de Diversidade dos Institutos Federais.
É fundamental que todos tenham acesso à saúde sem discriminação. No INTO, trabalhamos para que o atendimento seja inclusivo e respeitoso, independente de raça, religião ou identidade. O Novembro Negro é a oportunidade de refletirmos sobre como podemos, enquanto sociedade, garantir um sistema de saúde mais justo e igualitário para todos”, afirma Aydee Valério, coordenadora do Comitê de Diversidade, Equidade e Inclusão (Codei) do INTO.
Além dos debates, o Novembro Negro no INTO incluiu ações culturais que reforçam o diálogo entre saúde, identidade e pertencimento. Um destaque foi a exibição do documentário “Sorriso Negro”, no auditório do Instituto. O filme aborda o impacto do racismo religioso no sistema de saúde e a importância da humanização no atendimento. Após a sessão, haverá debate com profissionais e convidados.
O racismo religioso é uma realidade que precisa ser enfrentada com urgência. Construir um ambiente de respeito a todas as crenças é parte do nosso compromisso com a saúde pública. O Novembro Negro reforça essa mensagem e nos convida à ação”, destaca Michelly Coutinho, chefe da área de Política Nacional de Humanização, uma das personagens do documentário.
A programação foi marcada por palestras e rodas de conversa sobre temas como Saúde sem Racismo Religioso – Respeito à Ancestralidade e Identidade, Masculinidade e Racismo e Aquilomba SUS. Os debates reuniram profissionais de saúde, gestores e pesquisadores que discutem caminhos práticos para combater discriminações sutis no cotidiano hospitalar.
Entre as atividades, destacam-se a oficina de bonecas Abayomi — arte tradicional africana feita de retalhos de tecido e símbolo de resistência —, voltada a crianças e adolescentes em tratamento, e a roda de samba Ossos do Ofício, formada por servidores e pacientes da instituição, que celebra a cultura negra e o convívio comunitário.
Com Assessorias












