A intolerância religiosa tem avançado globalmente e já afeta mais de dois terços da população mundial. Segundo o Relatório de Liberdade Religiosa no Mundo 2025, da ACN, graves violações foram registradas em 62 países, impactando cerca de 5,4 bilhões de pessoas.
Destes, em 24 países as violações foram classificadas como “perseguição” (a pior categoria) e em 38 como “discriminação” (a segunda categoria mais grave). Outros 24 países permanecem sob observação, o que indica que o risco de retrocessos na liberdade religiosa segue elevado para cerca de 750 milhões de pessoas.
No Brasil, a questão da intolerância religiosa permanece preocupante. De janeiro a junho de 2024, o Disque 100 — canal de denúncias do Ministério dos Direitos Humanos — registrou um aumento de mais de 80% nas denúncias contra liberdade religiosa em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.
Um grupo em particular é especialmente afetado: praticantes de religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé, são as principais vítimas de discriminação, como mostra o Relatório sobre intolerância religiosa: Brasil, América Latina e Caribe, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Os dados do Ministério de Direitos Humanos também revelam que a maior parte das vítimas de intolerância religiosa (60% do total) são mulheres. Um número crescente desses casos ocorre no ambiente de trabalho, envolvendo humilhações impostas por colegas ou superiores.
Os impactos silenciosos da discriminação no ambiente de trabalho
Casos envolvendo práticas religiosas, especialmente de matriz africana, avançam no Brasil e afetam diretamente a saúde mental dos profissionais
A psicanalista Ana Tomazelli, presidente do Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino e das Existências Múltiplas (Ipefem), alerta para o impacto profundo que essa intolerância pode ter na saúde mental dos colaboradores. O desgaste emocional causado pela intolerância religiosa afeta diretamente a saúde mental dos colaboradores, impactando nos índices de ansiedade e depressão. Muitos, ao sentir-se desrespeitados ou incompreendidos, recorrem a tratamentos de saúde mental para lidar com o estresse acumulado.
Tomazelli afirma que “a intolerância é um tipo de violência simbólica, e como tal, ela afeta a autoestima e a capacidade de concentração do colaborador”. Ela afirma que a falta de entendimento e respeito no ambiente corporativo reflete um cenário maior de preconceito na sociedade. Para muitos trabalhadores, o simples uso de símbolos religiosos ou o seguimento de práticas culturais representa um desafio que pode se tornar extenuante e levar a questões sérias de saúde mental.
Os valores religiosos não estão confinados apenas a templos ou locais específicos. Eles também fazem parte da vida cotidiana das pessoas e se manifestam através de roupas, acessórios e comportamentos”, explica Tomazelli.
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Religião, diversidade e saúde mental no trabalho
A relação entre religião e trabalho vai muito além do que se imagina. Diversos estudos confirmam que a presença de políticas de diversidade e inclusão — que abarquem não só gênero, raça e orientação sexual, mas também religião — melhora a produtividade e o bem-estar dos funcionários, mitiga riscos de processos trabalhistas, contribui para a atração e retenção de talentos, a redução de conflitos internos e menor risco jurídico para as empresas.
Tomazelli observa que as práticas religiosas, especialmente de religiões de matriz africana, enfrentam resistência que se manifesta em situações vexatórias e restrições que vão desde o uso de acessórios até a imposição de normas incompatíveis com a diversidade. Ela destaca:
Enquanto a maioria das empresas aceita o uso de terços ou japamalas, guias e outros símbolos das religiões afro-brasileiras são, muitas vezes, vetados. Isso revela um preconceito estrutural que está entrelaçado com racismo e xenofobia, e que impacta diretamente a saúde mental dos colaboradores.”
A falta de inclusão religiosa nas políticas de diversidade é uma lacuna crítica, especialmente no Brasil, onde há uma predominância histórica de uma matriz religiosa cristã. Segundo Ana Tomazelli, esse desequilíbrio afeta diretamente a saúde mental de muitos colaboradores, principalmente os de religiões menos compreendidas. A especialista enfatiza que “a conversa sobre religião no ambiente de trabalho deve ocorrer para que as empresas promovam um ambiente realmente inclusivo”.
Religião não se discute?
Desafiando a máxima de que “religião não se discute”, Ana também é co-fundadora do Ipecre – Instituto de pesquisa e estudos em Ciência da Religião, uma ONG que promove conhecimento para a garantia das liberdades religiosas e promoção da paz mundial, diz que religião é algo que se discute, sim, mas do jeito certo.
No último ano, por exemplo, o Tribunal Superior do Trabalho publicou uma reportagem especial sobre “Intolerância religiosa: consequências no trabalho”, destacando que ofensas, chacotas, impedimento de uso de símbolos religiosos e retaliações por práticas de fé configuram discriminação e podem gerar indenizações por dano moral, rescisão indireta e até responsabilização criminal
Pesquisas internacionais reforçam esse cenário. Nos Estados Unidos, levantamento da Society for Human Resource Management aponta que 52% dos trabalhadores que vivenciaram ou presenciaram episódios de incivilidade relatam impactos diretos no trabalho, com prejuízos estimados em US$ 2,1 bilhões por dia em produtividade.
Em escala global, estudo do Pew Research Center indica que mais da metade da população em 24 países considera a discriminação religiosa um problema relevante, evidenciando que o tema também afeta relações profissionais e oportunidades de carreira.
Desafios e caminhos para o respeito à diversidade religiosa
A pressão para que a prática religiosa não interfira no ambiente corporativo, embora válida, deve ser equilibrada com o direito dos colaboradores à expressão religiosa. Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que ambientes de trabalho que não acomodam a diversidade de crenças religiosas costumam apresentar maior rotatividade de colaboradores e níveis elevados de estresse entre seus membros.
Para Ana Tomazelli, é fundamental que o respeito seja bilateral: “O ambiente de trabalho não é lugar para conversão, mas também não deve ser um espaço de restrição à identidade religiosa do colaborador.” Ela acredita que as empresas precisam rever suas políticas e estabelecer protocolos que permitam uma convivência harmoniosa. Segundo a especialista, “negar o direito a símbolos religiosos sem justificativa racional e contextualizada é um ato de discriminação”.
O Brasil, sendo um dos países com uma das legislações mais amplas sobre liberdade religiosa — conforme assegura o Artigo 5º da Constituição Federal —, ainda enfrenta dificuldades para fazer valer essa proteção no dia a dia. A discriminação e a violência decorrentes da intolerância religiosa, especialmente contra religiões afro-brasileiras, precisam ser combatidas de maneira mais incisiva. Ana Tomazelli conclui com uma reflexão:
As empresas precisam se perguntar o que ganham ao proibir símbolos religiosos e o quanto poderiam ganhar promovendo o respeito à diversidade religiosa, mas eu já adianto – elas ganhariam segurança psicológica e isso significa um incremento de até 7% nos resultados financeiros da empresa.”




