Com a queda nas temperaturas durante o outono e inverno, aumenta a proliferação de microrganismos causadores de infecções respiratórias como gripes e resfriados, que impactam o cotidiano e, muitas vezes, levam pessoas ao atendimento hospitalar. No entanto, é preciso estar atento quando esses quadros infecciosos ocorrem durante o ano inteiro de forma recorrente, exigindo muitas vezes o uso constante de antibiótico e até mesmo internações hospitalares.

Casos recorrentes dessas doenças típicas de dias mais frios ao longo do ano podem indicar a presença de algum erro inato de imunidade (EII) – também conhecido como imunodeficiência primária (IDP), a popular “imunidade baixa”.  No Brasil, estima-se que apenas 10% das pessoas que convivem com essa condição foram devidamente diagnosticadas, de acordo com dados da Sociedade Latino-americana de Imunologia (Lasid).

Os erros inatos de imunidade (EII) – antes chamados de imunodeficiências primárias –  são defeitos genéticos que causam danos no desenvolvimento ou na função do sistema imunológico. Essas doenças se caracterizam por serem congênitas e alterarem a resposta imune do organismo, fazendo com que ele fique vulnerável a desenvolver doenças consideradas comuns e de forma recorrente, como otites, pneumonia e sinusites.

Esses distúrbios também podem levar a infecções graves ou raras, causadas por microorganismos que geralmente não acometem pessoas saudáveis, Além disso, há maior risco de doenças autoimunes, inflamatórias e até certos tipos de câncer. O número de erros inatos da imunidade conhecidos vem crescendo muito nos últimos anos.

A cada dois anos a União Internacional de Sociedades Imunológicas (IUIS) publica a sua classificação contando quantas doenças existem no grupo dos EII. Em 2022, foi publicada a última atualização com 485 causas conhecidas de erros inatos a imunidade. Atualmente, são conhecidos mais de 500 defeitos genéticos ligados às IDPs, com prevalências que variam ao redor do mundo e de acordo com cada indivíduo.

A condição está presente na vida de muitas pessoas, mas muitos desses casos são subdiagnosticados, o que impacta diretamente na qualidade de vida e sobrevida desses pacientes. Este cenário aumenta a importância da conscientização, foco da Semana Mundial das Imunodeficiências Primárias, lembrada de 22 a 29 de abril, que este ano traz o tema “O paciente não pode esperar – apelo pelo diagnóstico precoce, tratamento oportuno e apoio às Imunodeficiências Primárias”. 

Teste do Pezinho pode detectar imunodeficiência combinada grave

imunodeficiência combinada grave – SCID (sigla em inglês de Severe Combined Immunodeficiency) – é a principal doença dentre os erros inatos da imunidade, sendo considerada uma emergência imunológica.

Quando uma pessoa nasce basicamente sem nenhuma resposta do sistema imunológico adaptativa dos linfócitos e não é realizado o diagnóstico ou tratamento, esta doença leva ao óbito antes dos 2 anos de vida. Felizmente, existe o tratamento com transplante de medula óssea: quando mais precocemente for realizado, melhores as chances de cura”, explica José Roberto Pegler, alergista e imunologista pela USP.

A triagem neonatal – conhecida popularmente no Brasil como Teste do Pezinho – , que deve ser feita entre o 3º e 5º dia de vida do bebê, ajuda de forma considerável no diagnóstico de doenças do grupo dos EII. Um deles é o TREC, que serve para diagnosticar a SCID. Já o teste KREC serve para rastrear agamaglobulinemia e vem sendo usado com maior frequência atualmente tanto na rede suplementar (convênios e clínica particular) como no SUS.

Segundo o Dr Pegler, alguns pacientes já foram diagnosticados com essa doença gravíssima foram encaminhados precocemente para transplante de medula óssea, mostrando o enorme benefício desse programa de triagem. “Os testes genéticos também estão nos ajudando muito no rastreamento das formas precisas dos EII”, acrescenta o alergista, que também faz parte da equipe da Clínica Croce.

Avanços no diagnóstico e tratamento pelo SUS

Avanços recentes na incorporação de exames para diagnóstico de erros inatos da imunidade (EII)/imunodeficiências primárias pelo Ministério da Saúde representam um marco importante. No Brasil, as imunodeficiências têm tratamento disponível tanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como na rede privada e nos planos de saúde.

A ampliação do acesso à telemedicina também tem ajudado a reduzir barreiras geográficas. Hoje, já existem centros de referência que oferecem suporte remoto, o que amplia o acesso ao especialista e reduz desigualdades regionais. Mas o principal avanço do tratamento dessa condição é o tratamento de reposição de imunoglobulina, o que modificou tanto o quadro de morbidade quanto o de mortalidade da doença

A imunoglobulina humana é um produto escasso produzido a partir do plasma de doações de sangue e é essencial no tratamento de muitos pacientes com erros inatos da imunidade, além de doenças inflamatórias, síndrome de Guillain-Barré, entre outras.

Atualmente, no Brasil, contamos somente com produtos por importações, portanto, dependemos de outros países. Porém, associações médicas e grupos de pacientes com imunodeficiência estão fazendo enormes esforços para que haja uma produção nacional de imunoglobulina humana”, finaliza Dr. José Roberto.

Brasil quer alcançar a produção de imunoglobulina até 2027

A produção nacional de imunoglobulina humana no Brasil está em fase de estruturação para alcançar a autossuficiência, sendo a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), a principal aposta estatal para essa finalidade. A Hemobrás tem recebido lotes de imunoglobulina produzidos a partir de plasma brasileiro, marcando passos importantes para a produção local.

A meta é que, até 2027, o Brasil alcance a produção 100% nacional de pelo menos seis hemoderivados, incluindo a imunoglobulina, que serão fornecidos ao SUS. A produção utiliza o método clássico de Cohn-Oncley, seguindo rigorosos protocolos da Farmacopeia Brasileira e Europeia para garantir a qualidade e segurança do produto.

O processo produtivo exige etapas rigorosas de inativação/remoção viral para garantir a segurança contra contaminações, com a ANVISA regulando a excepcionalidade em casos de necessidade.A consolidação da Hemobrás é fundamental para reduzir a dependência externa e garantir o fornecimento contínuo desse medicamento essencial ao SUS.

Desigualdade no acesso à imunoglobulina subcutânea

Ainda há desafios relevantes, especialmente no acesso à imunoglobulina por via subcutânea no SUS, como alerta a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Embora haja reconhecimento científico de que a imunoglobulina subcutânea e a venosa são formas equivalentes de tratamento — diferindo apenas na via de administração —, a incorporação da modalidade subcutânea ainda enfrenta resistência.

Para Ekaterini Goudouris, coordenadora do Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade da Asbai, ampliar esse acesso é essencial para garantir um cuidado mais adequado aos pacientes.

A imunoglobulina subcutânea não é um tratamento diferente, mas uma forma de administração que traz benefícios importantes. Ela permite maior autonomia, melhor tolerabilidade e é especialmente indicada para crianças, pacientes com perdas proteicas e pessoas que não conseguem permanecer longos períodos em infusão venosa, como é o caso de pacientes do espectro autista”, afirma.

Outro ponto de atenção é a desigualdade no acesso ao tratamento. Enquanto pacientes da rede privada conseguem, em geral, obter a imunoglobulina subcutânea com maior facilidade, usuários do SUS ainda enfrentam barreiras.

Não podemos manter um cenário em que existem duas realidades de acesso à saúde no Brasil. É fundamental garantir que todos os pacientes tenham acesso às melhores opções terapêuticas disponíveis”, ressalta a especialista.

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Teste do Pezinho Ampliado: diagnóstico precoce é outro grande desafio

Quanto antes diagnosticada e tratada adequadamente, menores são os riscos de comorbidades e sequelas associadas à IDP.  No entanto, além da questão terapêutica, há preocupação com o diagnóstico tardio. Por serem pouco conhecidas até mesmo pela classe médica, estima-se que de 70% a 90% dos pacientes com EII ainda não foram diagnosticados. Muitos pacientes ainda não são encaminhados para os imunologistas, especialmente em regiões do interior do país, sendo direcionados a outras especialidades que nem sempre têm familiaridade com essas doenças.

Outro ponto que preocupa os imunologistas é a demora para implementar o Teste do Pezinho Ampliado, para detectar a imunodeficiência combinada grave (SCID). Em 2021, uma lei ampliou o Programa Nacional de Triagem Neonatal, abrangendo muitas doenças, devendo ser implementado de forma gradativa.

A contagem dos TRECs, que permite identificar precocemente a SCID, faz parte da etapa 4 do processo de ampliação, cujo prazo termina este ano (2026). No entanto, apenas a cidade de São Paulo, o estado de Minas Gerais e o Distrito Federal contam com essa triagem e não estamos vendo um movimento nesse sentido em outros estados brasileiros”, alerta Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Asbai. 

Segundo ela, além de poder mudar o curso natural da doença e salvar vidas, a Triagem Neonatal Ampliada é uma importante ferramenta de economia da saúde, pois evita altos custos com complicações, internações e tratamentos onerosos.

Dificuldades no acesso ao diagnóstico precoce

Para a presidente da associação Eu Luto pela Imuno Brasil (ELPIB), Michele dos Santos, é importante proporcionar à população o apoio necessário para a identificação e cuidados adequados da IDP.

Ainda nos dias de hoje, os pacientes têm dificuldade em diagnóstico e em encontrar opções do mercado compatíveis com suas necessidades. Precisamos trabalhar para a conscientização de que a imunodeficiência primária está na realidade de uma população muito grande e necessidade de diversos acompanhamentos e cuidados para a qualidade de vida”, afirma Michele, que tem um filho que convive com essa condição.

Para o diagnóstico de erro inato da imunidade, um dos exames oferecidos é o sequenciamento de exoma, um teste genético que identifica alterações no DNA. O exame, que avalia cerca de 20 mil genes, utiliza amostra de sangue e pode diagnosticar doenças genéticas raras de forma rápida e confiável.

A jornada do paciente costuma ser longa até a identificação da enfermidade. Como ela se manifesta por meio de infecções que se repetem, é difícil identificar o problema como IDP sem a ajuda de um imunologista, por isso é importante promover campanhas de conscientização tanto para profissionais de saúde como para s população em geral”, afirma a médica Carolina Aranda, professora doutora de Alergia, Imunologisa Clínica e Reumatologia na Unifesp.

Atenção aos 10 sinais de alerta atualizados

Em 1993, a Fundação Jeffrey Modell e a Cruz Vermelha Americana desenvolveram os 10 sinais de alerta para o diagnóstico de imunodeficiências primárias (nome usando anteriormente aos EII).

Nessa época haviam sido identificados menos de 50 defeitos imunológicos primários. A especialidade era exercida basicamente por pediatras e havia o conceito que as imunodeficiências primárias eram doenças muito raras, acometendo 1 em cada 10.000 a 100.000 indivíduos”, comenta Anete Sevciovic Grumach, do Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade da Asbai. 

Com a evolução do conhecimento e o acesso a novas tecnologias, o número de defeitos imunológicos cresceu rapidamente, alcançando, segundo a mais recente classificação, 485 doenças que afetam primariamente o funcionamento do sistema imune e que, em sua maioria, apresentam determinantes genéticos.

Também, houve a constatação que o termo imunodeficiências não seria o mais adequado para nomear esse grupo de doenças, pois as manifestações clínicas não decorrem apenas de deficiências, mas também de uma desregulação do sistema imune, apresentando-se não somente com infecções. Nesse contexto, o termo Erros Inatos da Imunidade foi adotado para designar esse conjunto heterogêneo de doenças.

Os 10 sinais de alerta, fundamentais para o diagnóstico dos erros inatos da imunidade (EII), foram atualizados em 2023 e passaram a ficar agrupados, já que antes eram divididos entre crianças e adultos, com foco em infecções.

No entanto, há algumas imunodeficiências, justamente as mais comuns (deficiência seletiva de IgA e imunodeficiência comum variável), nas quais o defeito genético não é conhecido ainda.

Além disso, algumas doenças podem se manifestar em crianças mais velhas, adolescentes ou mesmo adultos, inclusive idosos. Dentro do grupo dos EII há aquelas muito raras e outras menos raras, de maneira que a prevalência geral é estimada em torno de 1 a cada 2.000 pessoas.

As principais manifestações clínicas são infecções, que podem ser repetidas e/ou graves, por germes comuns e/ou oportunistas, decorrentes de deficiências em diversos setores do sistema imune.

Os EII constituem um grupo de doenças que afetam primariamente a função do sistema imune. A maioria delas apresenta determinante genético conhecido e os primeiros sinais podem se manifestar já na infância. Cerca de 485 doenças fazem parte dos EII.

Ainda precisamos avançar muito no reconhecimento dos sinais de alerta para os erros inatos da imunidade. “O diagnóstico precoce faz toda a diferença na evolução da doença e na vida desses pacientes”, completa a Dra Elatrini.

Confira a lista de sinais de alerta atualizados:

1- História familiar de erro inato da imunidade ou consanguinidade;

2- Infecções com frequência aumentada para a faixa etária e/ou de curso prolongado ou não esperado e/ ou por microrganismos não usuais ou oportunistas;

3 – Diarreia crônica de início precoce;

4 – Quadros alérgicos graves;

5- Eventos adversos não usuais a vacinas atenuadas (BCG, febre amarela, rotavírus, tetra viral);

6 -Características sindrômicas;

7- Déficit do crescimento;

8- Febre recorrente ou persistente, sem identificação de agente infeccioso ou malignidade;

9- Manifestações precoces e/ou combinadas de autoimunidade, em especial citopenias ou endocrinopatias;

10- Malignidades precoces, incomuns e/ou recorrentes.

Sinais de alerta para erros inatos da imunidade

A imunologista Carolina Prando, diretora de Medicina Translacional do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, também chama a atenção para sinais que os pais e responsáveis devem ficar atentos e que podem indicar uma imunodeficiência:

  • Quatro ou mais otites (infecções de ouvido) em um ano.
  • Duas ou mais sinusites em um ano.
  • Dois ou mais meses com antibiótico com pouco efeito.
  • Duas ou mais pneumonias em um ano.
  • Atraso no crescimento ou ganho de peso.
  • Abcessos — bolsas de pus — de repetição de pele ou órgãos.
  • Estomatites de repetição ou sapinho na boca por mais de dois meses.
  • Necessidade de antibiótico intravenoso para tratar infecções.
  • Uma infecção sistêmica grave, como meningite, sepse ou osteomielite em um ano.
  • Infecções intestinais crônicas.
  • Diagnóstico de asma grave.
  • Reação adversa à vacina BCG e/ou infecção por micobactéria.
  • Histórico de infecções de repetição ou diagnóstico de imunodeficiência na família.

 Os sintomas podem ser identificados no infográfico abaixo:

Com Assessorias

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