A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que o Brasil tenha entre 2 e 4 milhões de pessoas com  transtorno do espectro autista (TEA).  Dados do Censo Demográfico de 2022 apontam que cerca de 2,4 milhões de pessoas foram identificadas com TEA, sendo que a maior proporção de diagnósticos foi observada entre crianças de 5 a 9 anos (com 2,6% nessa faixa etária). O último Censo Escolar registrou um aumento de 280% no número de estudantes com TEA matriculados em escolas públicas e particulares do país, apenas no período entre 2017 e 2021.

A necessidade de cuidados especiais a estas crianças amplia a relevância do tema no contexto familiar e jurídico, sobretudo no Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo. Muitas vezes a atenção é concentrada nos sintomas e nas necessidades da criança acometida com o TEA, e os pais e cuidadores são deixados de lado. No entanto, essas pessoas também têm características peculiares e enfrentam dificuldades.

Desde a descrição do transtorno do espectro autista, conhecido hoje no DSM-5 e autismo infantil, conhecido no CID-10, o psiquiatra Leo Kanner já tinha observado características inusitadas dos pais dessas crianças, como obsessividade, tendência a manutenção de rotina e dificuldades na socialização são comuns. Atualmente, observa-se que esses pais têm alguns sintomas bem parecidos com o seu próprio filho.

Hoje, a denominação desses sintomas abrandados nas famílias das pessoas com autismo recebe o nome de Fenótipo Ampliado do Autismoou seja, a pessoa apresenta algumas características que parecem bastante com o transtorno, porém não fecha todos os critérios para ser diagnosticado. “Não significa que algum pai ou alguma mãe tenha realmente este diagnóstico”, destaca a psicóloga Patrícia Lorena, que também é mãe de autista.

O processo de luta após o diagnóstico do autismo

Outro ponto interessante é que a taxa de depressão entre pais e crianças diagnosticadas com autismo é três vezes maior do que a de pais de crianças com outras deficiências como a Síndrome de Down. Por isso, a psicóloga  reforça a necessidade também de um trabalho com estas famílias, para acolher tanto os pais, quanto as crianças, a fim de encaminhar melhor os cuidados e preservar a saúde mental de quem tanto se preocupa.

Para a especialista e estudiosa do assunto, uma característica importante das genitoras e dos genitores também é o processo de luto. Quando uma criança é diagnosticada com  Síndrome de Down, essa deficiência  é uma síndrome genética, que vai acometer o nível intelectual da criança. Logo que  os pais recebem a notícia, passam pelo  processo de luto e já sabem que o pequeno  terá esse rebaixamento intelectual.

No caso dos pais das crianças com autismo, a psicóloga ressalta que o luto é praticamente interminável, porque existe uma variabilidade muito grande nesse transtorno. Por isso, a psicóloga explicou que quando esse diagnóstico é recebido, sabe-se que a criança vai ter dificuldade, mas nunca se consegue mensurar que tipo de dificuldade é essa. O pai passa por muitos profissionais até chegar no diagnóstico, logo após, ocorre o processo do luto.

Depois, surgem as dúvidas “será que meu filho vai falar?” e se isso não ocorrer, ocorre mais um processo de luto. Portanto, o pai e a mãe precisam receber uma atenção especial da equipe de saúde para lidar com esses conflitos.

Um quarto dos pais se autistas se separam

Em capítulo de livro que a escreveu juntamente com outros dois especialistas – Francisco Baptista Assumpção Junior e  José Alberto del Porto – a psicóloga Patrícia Lorena menciona uma pesquisa extensa realizada em literatura estrangeira. A conclusão foi que cerca de 25% dos pais chegam ao divórcio, uma faixa bem menor do que os pais com crianças com outra deficiência.

Embora a família  permaneça junta, provavelmente por causa da grande dificuldade de encontrar atendimento, um dos pais tem que parar de trabalhar para ficar a cargo dos cuidados da criança, e o outro tende a trabalhar  mais. Assim, muitos casais permanecem juntos por causa dessas dificuldades, porém o casamento e a união vão se tornando cada vez mais quebradiças. Passam por inúmeras insatisfações conjugais, podendo até levar a transtornos de humor e a conflitos”.

Divórcio com filhos autistas exige decisões mais conscientes e humanizadas

Advogada destaca os desafios jurídicos e emocionais da separação em famílias com crianças no TEA e defende o divórcio humanizado como caminho para preservar o bem-estar dos filhos

Com o aumento dos diagnósticos de autismo e a crescente discussão sobre saúde emocional nas famílias, o divórcio envolvendo filhos neurodivergentes ganha novos contornos e exige abordagens mais cuidadosas, Aproveitando a campanha Abril Azul sobre conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a advogada Caroline Serbaro, especialista em divórcio humanizado, chama atenção para a importância de decisões mais conscientes durante a separação.

Quando há filhos autistas envolvidos, o processo de separação ultrapassa as questões legais tradicionais e exige um olhar integrado entre direito e psicologia. Segundo Caroline Serbaro, a definição da guarda, por exemplo, precisa considerar rotinas estruturadas, acompanhamento terapêutico contínuo e o nível de adaptação da criança a mudanças.

Em casos de autismo, não estamos falando apenas de divisão de responsabilidades, mas de garantir estabilidade emocional e previsibilidade para a criança. Mudanças bruscas podem gerar impactos significativos”, explica a especialista.

Outro ponto sensível são os conflitos entre os pais em relação ao tratamento. Divergências sobre terapias, medicação e abordagens educacionais podem intensificar disputas judiciais e prejudicar diretamente o desenvolvimento da criança.

Além disso, o impacto emocional do divórcio tende a ser ainda mais profundo em crianças no espectro, que tendem a ter maior dificuldade de compreender e processar rupturas familiares.

Diante desse cenário, o conceito de divórcio humanizado surge como alternativa para reduzir danos. A abordagem prioriza o diálogo, a mediação e a reconstrução emocional das partes envolvidas, buscando soluções mais equilibradas, responsáveis e conscientes.

Quando trazemos a mediação temos um  olhar mais empático. A maior prova de amor que você pode dar aos seus filhos é respeitar a mãe e o pai deles”, reforça Caroline.

Os diferentes perfis de autistas

O número de diagnósticos de autismo aumentou vertiginosamente, mas ainda há muito a ser descoberto. Pesquisas sobre as causas e características do transtorno do espectro do autismo (TEA) são hoje um tema primordial da área de neurodesenvolvimento. 

Esta condição de desenvolvimento neurológico apresenta dificuldades de comunicação e interação social. Uma atitude muito frequente em pessoas que apresentam essa condição são comportamentos ou interesses repetitivos e restritos. Mas o TEA envolve, na verdade, uma condição multifatorial, uma relação ainda desconhecida entre fatores genéticos e ambientais.

O transtorno pode apresentar diferentes graus: desde o TEA de alto funcionamento, caracterizado por dificuldades de interação social, mas sem prejuízos cognitivos; até distúrbios mais severos, marcados não só por problemas de socialização, mas também por dificuldades de comunicação e comportamentos repetitivos.

A gravidade e a apresentação em cada indivíduo é variável e o transtorno não tem cura, no entanto o diagnóstico e a intervenção precoces podem amenizar sintomas e ampliar a qualidade de vida. O estigma em cima dessa doença ainda é um dos desafios de quem convive de perto com o problema e a escassez de tratamentos e de profissionais é algo que segue sendo frequente”, diz Patrícia Lorena.

De acordo com a psicóloga, há diversos tipos de autismo, com características que exigem atenção.

  • autistas que falam e autistas que nunca vão falar;
  • autistas com inteligência acima da média, dentro ou muito abaixo;
  • autistas com comorbidades de epilepsia;
  • autistas que são brilhantes em algumas áreas e outros tem uma dificuldade enorme nas atividades da vida diária.
  • autistas com nível cognitivo preservado, mas acometidos por depressão e ansiedade.

 

Quando procurar um psiquiatra ou psicólogo?

Especialista em autismo, a psicóloga Patrícia Lorena explica que existem vários tipos de autismo e que os sinais podem variar. Até os 2 anos, as crianças possuem todos os marcos do desenvolvimento socioemocional. A partir dessa idade, algumas começam a ter uma regressão do seu desenvolvimento.

psicóloga indica a busca de um psiquiatra, que solicitará exames para descartar hipóteses orgânicas. Esse profissional é o que estuda o desenvolvimento humano infantil a partir da construção cognitiva da criança.

Já o psicólogo com experiência em infância e autismo poderá fazer uma avaliação psicológica do desenvolvimento infantil, comparando aquilo que a criança deveria fazer em determinada idade e o que ela, de fato, faz.

Principais sinais do autismo

Com a ampliação da conscientização do transtorno do espectro autista divulgado pelas mídias, os pais podem ficar em dúvidas em relação ao momento certo de procurar esses profissionais. Por isso, Patricia citou os principais sinais que as crianças, desde cedo, manifestam:

Aos 9 meses, as crianças passam por um marco social, sendo assim, o bebê é capaz de seguir aquilo que você aponta e entender por quê você aponta. Portanto, um dos primeiros sinais é a dificuldade em iniciar a atenção compartilhada. Outro fator nesse mesmo período é a imitação. Um bebê aos 9 meses imita sistematicamente, seja repetindo sons ou gestos, quando a criança não faz isso, passa a ser um sinal de atenção aos pais.

De 1 ano a 1 ano e 6 meses, as crianças procuram objetos escondidos, já o bebê que apresenta sintomas do espectro autista apresenta essa dificuldade, desviando o foco para não procurar.

Até os 2 anos esses são os sinais, no entanto, o principal é o atraso de fala. Sendo assim, nessa fase é imprescindível procurar um profissional, pois é o período onde deve haver desenvolvimento da linguagem e da comunicação funcional.

A forma com que a criança brinca também é um fator importante de prestar atenção. As crianças com autismo tendem a fazer brincadeiras repetitivas, estereotipadas e não funcionais, explorando apenas parte dos brinquedos, pois elas não possuem competência imaginativa.

Outros sinais a partir dos 2 anos são: não atender quando chamada pelo nome, andar na ponta dos pés, começar a enfileirar objetos, apresentar indícios de desintegração sensorial e tapar os ouvidos diante de alguns barulhos.

A trajetória da psicóloga que é mãe de autista

Aos 19 anos, Patricia ingressou na Universidade Presbiteriana Mackenzie para estudar Psicologia, período em que pensava até em trabalhar com adultos na área da psicanálise. No entanto, outra causa a escolheu; aos 35 anos, quando sua filha nasceu, foi diagnosticada com autismo em uma época em que as informações sobre a doença não existiam como hoje.

Desde os primeiros meses, a mãe já havia percebido alguns sinais, e logo começou a difícil jornada atrás do diagnóstico. Somente por volta dos 5 anos Patrícia conseguiu a certeza de saber o que era. Especialista no assunto e mãe de autista, hoje ela trabalha diretamente com crianças nessas condições.

Patrícia trabalha junto a sua colega Rosângela Batista na Clínica Mundo Neuropsi, que fica na cidade de São Paulo, próximo à Parada Inglesa, um sonho dividido por ambas as amigas que visa atender crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. “Essas crianças são as melhores pessoas que eu já conheci aos meus 51 anos”.

Patrícia comentou que se sente muito privilegiada em trabalhar com os autistas, justamente por serem pessoas “sem maldade”. O que lhe empolga e faz seguir seu trabalho com muita felicidade é ver uma criança evoluindo, e junto a isso, os seus pais orgulhosos em acompanharem cada passo.

 

Com Assessorias

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