Enquanto a busca internacional por alternativas terapêuticas para o especialista em aviação Lito Sousa mobiliza a internet, a ciência brasileira avança em uma descoberta inédita que pode transformar o combate à Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Uma força-tarefa descobriu que compostos extraídos da Moringa oleífera — conhecida popularmente como acácia-branca — possuem o potencial de desagregar as proteínas priônicas já acumuladas no cérebro.

A pesquisa nacional, conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal de Goiás (UFG), identificou duas substâncias específicas presentes no extrato da planta: o ácido clorogênico e o ácido neoclorogênico.

Em testes in vitro, os componentes não apenas inibiram a capacidade de conversão das proteínas normais em patogênicas, mas também demonstraram a propriedade única de desfazer os aglomerados que causam a morte neuronal, como revela a Profa. Dra. Tuane Vieira, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, que lidera o estudo.

O extrato da planta inibiu essa capacidade que a proteína errada tem de converter a proteína certa. Depois, a gente ligou essa proteína a umas bolinhas magnéticas para pescar quais as moléculas do extrato capazes de interagir com essa proteína e no final chegamos a dois compostos, o ácido clorogênico e o ácido neoclorogênico“, explica.

O diferencial da ciência nacional em relação aos testes nos EUA

A descoberta brasileira ganha destaque frente às opções medicinais investigadas no exterior. As duas principais substâncias experimentais testadas nos Estados Unidos — desenvolvidas pela Ionis Pharmaceuticals e pelo Broad Institute (vinculado a Harvard) — utilizam oligonucleotídeos para reduzir a produção de proteínas normais.

O foco dos testes americanos é bloquear a “matéria-prima” utilizável pelos príons para tentar desacelerar a evolução do quadro, sem capacidade de eliminar os depósitos tóxicos existentes. A alternativa brasileira com os compostos da acácia-branca, por sua vez, apresenta a vantagem teórica de atuar diretamente na eliminação dos estoques de príons já instalados nos neurônios.

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), o projeto avança para ensaios em células humanas e busca parcerias internacionais com a França para testes em animais. Os pesquisadores reforçam que o estudo está em fase inicial e requer rigorosos protocolos de biossegurança antes de qualquer teste em pacientes.

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Diagnóstico no Brasil e o papel do teste RT-QuIC

A confirmação definitiva da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) em vida é outro desafio enfrentado pela medicina no país. O exame considerado padrão-ouro global é o RT-QuIC (Real-Time Quaking-Induced Conversion), que detecta se amostras do líquido cefalorraquidiano (líquor) do paciente são capazes de induzir a transformação de proteínas normais em príons patogênicos.

No Brasil, o teste RT-QuIC é realizado exclusivamente no laboratório do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, por exigir infraestrutura de alto nível de biossegurança. Atualmente, o protocolo do Sistema Único de Saúde (SUS) apoia-se prioritariamente em exames de ressonância magnética e marcadores genéricos no líquor.

Pesquisadores defendem a revisão das diretrizes do Ministério da Saúde para integrar o teste RT-QuIC à rede pública nacional, garantindo diagnósticos conclusivos em até cinco dias úteis para orientar com rapidez as famílias e os cuidados paliativos.

O “efeito dominó” e a rápida progressão clínica

Diagnosticado recentemente, Lito Sousa, de 58 anos, permanece consciente em estrutura de home care, mas já apresenta limitações graves de mobilidade e perda parcial da visão. A família mantém esforços diplomáticos e contatos diretos para viabilizar sua inclusão em pesquisas científicas e programas de uso compassivo no exterior.

O avanço rápido da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)  compromete as funções motoras, cognitivas e visuais. A agressividade da DCJ, observada no quadro de Lito Sousa é explicada pela forma como os príons alterados agem. O acúmulo gera uma reação em cadeia avassaladora que destrói o tecido cerebral:

O vírus se utiliza da maquinária da célula para se replicar e isso causa um estresse. A gente tenta entender se esse estresse tem relação com o acúmulo dessas proteínas. Quando essa forma alterada encontra uma proteína com a forma certa, ela muda essa proteína certa para a forma errada. Aí vira um efeito dominó. Isso vai se aglomerando, o que leva à morte dos neurônios e consequentemente à neurodegeneração”, detalha Tuane Vieira.

Com informações da Agência Brasil

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