O beijo costuma ser associado ao afeto, à intimidade e às relações amorosas, mas seus efeitos vão além do campo emocional. Do ponto de vista da psicologia e da neurociência, o gesto envolve reações químicas no cérebro, ativa áreas ligadas ao prazer e pode influenciar diretamente o humor, o estresse e a forma como as pessoas se conectam. Sim, existe ciência por trás do beijo, principalmente aqueles mais demorados e mais ‘ardentes’.
Na semana em que celebramos o Dia do Beijo (13 de abril), ouvimos especialistas sobre o tema. Confira!
O que diz a ciência
O beijo já foi objeto de um estudo realizado no Lafayette College, nos Estados Unidos, pelo psicólogo Wendy L. Hill e um de seus alunos, que juntos compararam os níveis de ocitocina (“hormônio do amor”) e cortisol (“hormônio do estresse”) em 15 casais de homens e mulheres enquanto se davam as mãos e conversavam e nos momentos anteriores e posteriores a um beijo.
Diferentemente do esperado, os pesquisadores observaram que o nível de ocitocina aumentou somente nos homens. Nas mulheres, houve uma queda desse hormônio após o beijo e enquanto conversavam de mãos dadas. A hipótese levantada pelos autores é a de que as mulheres provavelmente precisam de mais do que um beijo para se sentirem conectadas ao parceiro.
Para o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes, professor livre docente da Faculdade de Medicina da USP e autor do livro Neurociência do Amor (Ed. Planeta/2017), isso que dizer que, talvez elas necessitem de um clima mais romântico, diferente daquele em que o beijo aconteceu. No entanto, os níveis de cortisol, hormônio que ajuda o organismo a controlar o estresse, diminuíram em ambos os sexos, mostrando que o ato de beijar pode realmente reduzir o estresse.
Mas como acontece a química do beijo na boca?
Quando estamos perto de uma pessoa que de fato sentimos atração física e afetiva só de trocar olhares rapidamente o cérebro processa a vontade de beijar. Isso porque as imagens visuais são processadas pelos lobos occipitais e refletem para o sistema límbico, que é o circuito emocional. Dessa forma, o acúmulo de emoções que envolve os casais promove uma mudança de comportamento diferente no cérebro do homem e da mulher. E é isso que faz as bocas se encaixarem”, explica.
O médico conta que certas áreas do cérebro precisam ser “desligadas” para que outras áreas possam ser ativadas no momento que antecede o beijo. “Em especial as amígdalas nos lobos temporais, centro da “defesa” de fuga ou luta, são “desligadas” e os centros do prazer são ativados como a área tegmental ventral do cérebro masculino”, detalha.
Em especial nas mulheres, o cortex órbitofrontal lateral esquerdo, responsável pelo controle de desejos elementares, silenciam-se também. E então elas conseguem se despreocupar dos pudores e simplesmente se deixam levar pela troca de sensações do beijo.
O processo do beijo no cérebro
Um beijo é capaz de silenciar as amígdalas cerebrais, permitir a aproximação e aumentar a percepção da presença do parceiro. Os lábios e a língua têm grande representação sensorial no córtex cerebral, se comparados a outras partes do corpo.
Além disso, o beijo na boca é muito bem aceito socialmente como primeiro contato físico íntimo e, nesse momento, o prazer é explorado através do contato entre os lábios e a língua.”
Áreas encefálicas profundas, como o tronco cerebral e o tálamo, são acionadas em conjunto com o córtex parietal e a ínsula e ainda, durante o beijo, movi- mentamos 34 músculos da face e acionamos, bilateralmente, cinco dos doze nervos da cabeça.
Assim, durante o beijo, o cérebro associa o cheiro e o gosto da boca da outra pessoa a demais informações, como o som da respiração e o barulho da saliva deslizando os lábios, além de muita imaginação do que pode estar por vir”, explica o médico.
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5 curiosidades sobre como o beijo pode influenciar o bem-estar emocional
O beijo também pode ser entendido como um comportamento com impacto no bem-estar e na saúde mental. Para a psicóloga Ligia Kaori Matsumoto, do Hospital Dia M’Boi Mirim I, os efeitos positivos do beijo estão diretamente ligados ao respeito e ao consentimento.
Quando o gesto acontece de forma natural, consentida e dentro do contexto cultural e emocional de cada pessoa, ele pode contribuir para o equilíbrio emocional, fortalecer vínculos e até ajudar no enfrentamento do estresse do dia a dia”, afirma.
Mas o que, exatamente, acontece no corpo e no cérebro durante um beijo? A seguir, a especialista explica cinco curiosidades que ajudam a entender por que esse gesto pode fazer tão bem.
1. O beijo ativa áreas do cérebro ligadas ao prazer
Durante o beijo, o cérebro entra em um estado de estímulo intenso. Há liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa e prazer, que atua diretamente na melhora do humor.
Esse mecanismo ajuda o cérebro a associar o gesto a sensações positivas, o que explica por que o beijo pode gerar conforto emocional e sensação de bem-estar”, explica Ligia. Esse efeito é semelhante ao observado em outras experiências prazerosas, como ouvir música ou praticar atividades que dão satisfação.
2. Beijar pode ajudar a reduzir o estresse e a ansiedade
Além de promover prazer, o beijo também tem efeito calmante. O gesto contribui para a liberação de serotonina, neurotransmissor ligado à sensação de relaxamento, e para a redução do cortisol, hormônio relacionado ao estresse.
Segundo a psicóloga, esse conjunto de reações pode ajudar a aliviar tensões do dia a dia e reduzir sintomas de ansiedade, especialmente quando o beijo acontece em um contexto de segurança emocional e afeto.
3. O beijo ajuda a fortalecer vínculos afetivos
A liberação de ocitocina durante o beijo está diretamente relacionada à criação e ao fortalecimento de laços emocionais. Conhecida como “hormônio do amor”, ela aumenta a sensação de proximidade, confiança e conexão entre as pessoas.
Esse processo é importante para a construção de vínculos afetivos mais seguros, seja em relações amorosas, familiares ou de cuidado”
4. O beijo funciona como uma forma de comunicação não verbal
Mesmo sem palavras, o beijo transmite mensagens claras. Ele pode comunicar carinho, acolhimento, desejo, cuidado ou proteção, dependendo da relação e do momento vivido.
Muitas vezes, o beijo expressa sentimentos que não são verbalizados, funcionando como uma linguagem emocional”, explica a especialista. Por isso, o gesto tem um papel importante na dinâmica das relações humanas.
5. O significado do beijo varia de acordo com a cultura
Embora seja um gesto amplamente difundido, o beijo não tem um único significado. As interpretações variam de acordo com a cultura, o contexto social e o tipo de relação. “Essas diferenças mostram como o beijo também é um comportamento socialmente construído”. No Brasil, por exemplo:
- beijo na testa – costuma simbolizar cuidado e proteção;
- beijo no rosto – cumprimento ou amizade;
- beijo na boca – mais associado à intimidade emocional e ao desejo.
Com Assessorias



