Sentir ansiedade é normal na vida de qualquer pessoa. Mas quando ela é exagerada, pode ser sinal de doença. Mas ansiedade não é tudo igual. O que muita gente não sabe é que a ansiedade pode cursar junto com a depressão. É o que os psiquiatras chamam de Transtorno misto ansioso e depressivo. Eu já fui diagnosticada com essa condição, uma mistura “equilibrada” de sintomas

A Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial de Saúde – OMS descreve o transtorno misto entre as condições de ansiedade que não se encaixam em outras categorias específicas, incluindo quadros marcados por medo persistente, preocupação excessiva e tensão

Há diferentes tipos de transtornos ansiosos, classificados sob o código CID F41. Os quadros mais conhecidos são o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e o Transtorno do Pânico (ansiedade paroxística episódica), Além do transtorno misto ansioso depressivo,  que leva a sigla CID F41.2, há ainda outros transtornos do tipo, especificados ou não.

A forma mais amena da ansiedade?

Preocupação constante, dificuldade de relaxar, irritabilidade e problemas de concentração e sintomas físicos como taquicardia, falta de ar, tontura e tremores são sintomas físicos de ansiedade que podem se manifestar nas três condições (Transtorno Misto, TAG e Pânico). No entanto, a intensidade, a velocidade de início e a duração desses sintomas são completamente diferentes em cada um deles. 

A diferenciação prática de como esses quatro sintomas se comportam em cada diagnóstico ocorre da seguinte forma:

1. Transtorno do Pânico (o pico abrupto)

No Transtorno do Pânico, esses sintomas surgem em forma de um ataque de pânico completo.
    • Como acontece: O início é violento, repentino e atinge o pico de intensidade máxima em menos de 10 minutos, muitas vezes sem qualquer motivo aparente (a pessoa pode estar relaxada ou até dormindo).
    • A sensação associada: A taquicardia e a falta de ar são tão brutais que geram um medo iminente de morte, de estar enfartando ou de enlouquecer. A tontura traz a sensação real de desmaio iminente.

2. Transtorno de Ansiedade Generalizada – TAG (a tensão contínua)
No TAG, os mesmos sintomas aparecem de forma mais difusa, leve e prolongada.
    • Como acontece: Eles não vêm como um choque do nada. Eles se instalam gradualmente devido a um estado de “alerta ligado” que dura o dia todo, por meses a fio. 
    • A sensação associada: A taquicardia é aquela palpitação que vai e volta quando você pensa em um problema. Os tremores são mais sutis (como nas mãos ao segurar um papel). A falta de ar parece um “aperto no peito” ou uma dificuldade crônica de respirar fundo, associada à grande rigidez muscular no pescoço e ombros. 

3. Transtorno Misto Ansioso e Depressivo (a oscilação com desânimo)

No transtorno misto, esses sintomas físicos surgem de forma muito parecida com o TAG, mas estão obrigatoriamente atrelados a sintomas depressivos de igual peso.
    • Como acontece: Os tremores, a tontura e as palpitações aparecem em momentos de sobrecarga emocional ou crises de choro.
    • A sensação associada: Esses episódios físicos são sucedidos ou acompanhados por uma profunda falta de energia, apatia, melancolia crônica e uma sensação de vazio. O paciente pode ter crises de ansiedade esporádicas, mas o pano de fundo de sua rotina é marcado pelo desânimo e pela tristeza. 

Principais diferenças no diagnóstico

  • Se os quatro sintomas duram poucos minutos, são avassaladores e fazem você achar que vai morrer: indica Pânico.
  • Se eles são moderados, duram horas ou dias e vêm acompanhados de preocupação excessiva com o futuro: indica TAG.
  • Se eles ocorrem no meio de uma rotina marcada por tristeza profunda, falta de ar para a vida e desânimo constante: indica Transtorno Misto.

Fadiga mental pós-ansiedade

O  quadro sindrômico (uma doença clínica de ansiedade e humor que desgastou o organismo) representa uma evolução típica de sobrecarga do sistema de ansiedade, com uma progressão de sintomas biológicos e cognitivos:
  • O início (TAG): A paciente passou muito tempo em um estado crônico de alerta, com preocupações excessivas, tensão muscular e hipervigilância. O corpo operou no limite por meses ou anos. 
  • O estopim (Crises de Pânico): Quando o TAG não é controlado ou o estresse atinge um nível insustentável, o cérebro dispara “alarmes falsos” de sobrevivência. Surgem as crises de pânico (as taquicardias brutais, falta de ar e tonturas de início abrupto).
  • O desfecho atual (Transtorno Misto): Após o desgaste extremo de enfrentar o TAG e o medo do pânico, o sistema nervoso entra em exaustão. O humor cai, surge o desânimo, a apatia e a tristeza, consolidando o Transtorno Misto Ansioso e Depressivo. É um quadro de fadiga mental pós-ansiedade.

Transtorno Misto x Bipolaridade

Muita gente confunde Transtorno Misto Ansioso e Depressivo com oTranstorno Bipolar, também conhecido como bipolaridade. Mas a principal diferença entre essas duas condições está na oscilação dos quadros de humor.  O quadro ansioso-depressivo se mantém em uma linha de sofrimento constante (focado na tristeza e na preocupação) ou puxada para baixo, sem períodos de superenergia ou grandiosidade.

Nenhum dos dois lados é forte o suficiente sozinho para fechar um diagnóstico isolado (como depressão maior ou pânico).  Os principais sintomas são angústia diária, desânimo, desesperança, insônia por preocupação, tensão muscular permanente e medo antecipatório do futuro.

Já a bipolaridade é marcada pela alternância obrigatória entre estados de depressão e episódios de euforia ou extrema irritabilidade (mania ou hipomania). Elaafeta o mecanismo cerebral de regulação da energia e do humor. Ela exige a identificação de pelo menos dois estados distintos de humor em épocas diferentes da vida:

No polo depressivo, a pessoa sente tristeza profunda, prostração, fadiga extrema e lentidão de movimentos. Já no Polo de Ativação (Mania ou Hipomania), o paciente apresenta humor eufórico ou explosivo. O pensamento acelera, a pessoa fala muito rápido, gasta dinheiro de forma compulsiva, tem ideias de grandeza e perde a necessidade de dormir sem se sentir cansada no dia seguinte.

Característica Transtorno Ansioso Depressivo Bipolaridade (Transtorno Bipolar)
Flutuação de Humor Estável no polo negativo (tristeza crônica + ansiedade). Oscila em polos opostos (Depressão \(\leftrightarrow \) Mania/Hipomania).
Fase de Ativação Não possui. Presente (Aceleração, euforia, impulsividade, menor necessidade de sono).
Origem dos Sintomas Resposta crônica ao estresse e preocupação com o futuro. Base biológica e genética altamente hereditária (70% a 90%).
Efeito de Antidepressivos Costumam reduzir a ansiedade e estabilizar o humor. Podem causar “virada maníaca”, piorando a agitação ou desencadeando crises.
Base do Tratamento Antidepressivos comuns + Psicoterapia. Estabilizadores de humor (ex: Lítio) e Antipsicóticos.
⚠️ Atenção ao diagnóstico errôneo: Como pacientes bipolares passam a maior parte do tempo na fase de depressão, eles frequentemente são diagnosticados incorretamente com depressão comum ou transtornos ansiosos. Tomar antidepressivos sem o acompanhamento de um estabilizador de humor pode ser perigoso para quem é bipolar, pois agrava a irritabilidade e acelera as crises.

Direitos e INSS

Levantamento do Ministério da Previdência Social aponta que depressão e ansiedade foram responsáveis por 149,3 mil benefícios por incapacidade temporária, no Brasil, em 2023 – no extrato relacionado às principais causas de afastamento do trabalho. Neste cenário, dados da Fundação Getúlio Vargas, no ano anterior, revelaram que 63% dos profissionais com algum transtorno mental não receberam apoio de suas lideranças para lidarem com o problema e que 48% acreditam que as empresas pouco ou nada se preocupam com o bem-estar dos trabalhadores.

Quadros de ansiedade severa estão entre os fatores de saúde mental mais prevalentes para o afastamento de trabalhadores. Por ordem, eles são causados por:

  1. transtorno misto ansioso e depressivo;
  2. episódios depressivos;
  3. episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos;
  4. ansiedade generalizada; 
  5. transtorno depressivo recorrente;
  6. episódio atual grave sem sintomas psicóticos; e
  7. episódio depressivo moderado.
Os transtornos mentais batem recordes anuais no Brasil e já representam uma das principais causas de concessão de auxílio por incapacidade temporária.  Segundo dados oficiais do Ministério da Previdência Social e levantamentos da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), as concessões de auxílio-doença por motivos psiquiátricos seguem uma hierarquia de prevalência.
É uma causa extremamente frequente em consultórios, mas muitas vezes os médicos peritos ou assistentes tendem a enquadrar o trabalhador nos códigos puros de Ansiedade ou de Depressão quando os sintomas de um dos lados se tornam mais graves e incapacitantes No ranking geral de afastamentos do INSS, quando analisamos apenas a categoria de saúde mental, o Transtorno Misto divide espaço com diagnósticos mais específicos que geram um volume maior de benefícios concedidos.
Transtornos ansiosos isolados (como o TAG – CID F41.1) lideram os afastamentos de saúde mental, registrando números recordes com mais de 150 mil concessões anuais. Já os episódios depressivos (CID F32 e F33) aparecem logo em seguida como a segunda maior causa psiquiátrica.

Por que o número de afastamentos explodiu?

Estudos e especialistas apontam que o crescimento de mais de 130% nas licenças por transtornos mentais nos últimos anos reflete uma combinação de fatores: 
  • Cobrança por metas excessivas e jornadas exaustivas.
  • Sequelas emocionais e estresse pós-pandemia.
  • Crescimento dos diagnósticos de esgotamento profissional profissional (Síndrome de Burnout). 

O Diagnóstico não garante o Benefício

Para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o código da doença (CID) não dita o afastamento, mas sim a comprovação de que os sintomas geram incapacidade laborativa. Um paciente com o CID F41.2 pode ter o auxílio negado se não demonstrar na perícia médica o impacto real da doença em suas funções do dia a dia.

Concedido pelo INSS, o benefício por incapacidade temporária se destina às pessoas que precisam se ausentar por mais de 15 dias do trabalho por motivo de doença.  mas para que sejam reconhecidos e devidamente indenizados com o benefício do Instituto Nacional de Seguridade Social  é preciso passar por perícia médica caso a ansiedade incapacite o paciente para a função. Pedidos podem ser feitos pelo portal ou aplicativo Meu INSS.

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