Ao chegar ao local de votação no primeiro turno das eleições, no Rio de Janeiro, a escritora, mestre em psicanálise e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, Maria Paula Teperino, se deparou com dois degraus no caminho até a urna. Usuária de cadeira de rodas motorizada, ela precisou de ajuda para transpor as barreiras, apesar de o local constar como acessível para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.
Depois de votar, Maria Paula publicou um vídeo em seu perfil no Instagram para contar o que havia acontecido. Na gravação, explica que havia um degrau antes da mesa dos mesários e outro no acesso à urna e que, para passar pelos dois, precisou desligar a cadeira e contar com a ajuda de outras pessoas. “Eu fui exercer o meu direito de votar e o fiz, mas com barreiras.”
Segundo Maria Paula, os próprios mesários disseram que já haviam sinalizado anteriormente que a sala apresentava problemas de acesso. Ela conta ainda que a sala em frente poderia ter recebido a seção sem impor o mesmo obstáculo, pois não havia degrau. A ocorrência foi registrada em ata a pedido da eleitora, que pretende procurar o Tribunal Regional Eleitoral antes do segundo turno a fim de evitar que a situação se repita.

O relato foi publicado no Instagram: ver publicação.
Acessibilidade para além dos números
A situação ocorre poucos dias depois de 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, período em que ganharam espaço informações sobre os avanços da acessibilidade nas eleições de 2026.
Segundo o Manual do Eleitor: acessibilidade amplia autonomia de pessoas com deficiência nas Eleições 2026, do Tribunal Superior Eleitoral, o número de eleitores com deficiência cresceu 42% em relação às eleições gerais de 2022, acompanhado pela ampliação das seções classificadas como acessíveis. Confira os dados divulgados pelo TSE.
Os números apontam avanços, mas casos como o vivido por Maria Paula demostram que a classificação formal de um local como acessível nem sempre corresponde à realidade de quem chega para votar e precisa exercer esse direito com autonomia. A experiência toca diretamente uma questão que Maria Paula acompanha há anos, tanto no ativismo quanto na psicanálise.
Em seu primeiro livro, Não Desvie o Olhar — A invisibilização das pessoas com deficiência sob o ponto de vista da psicanálise, publicado pela Editora Appris, Teperino investiga justamente os mecanismos que fazem com que pessoas com deficiência e suas pautas permaneçam invisibilizadas mesmo diante de avanços legais e institucionais.
A barreira encontrada no último domingo dá contorno concreto a esta discussão: o acesso estava previsto no cadastro, mas não se confirmou no percurso até a urna. Apesar do ocorrido, ela fez questão de destacar que conseguiu votar. “Foi chato. Mas votei, e isso foi o mais importante.” A pergunta, no entanto, permanece: a festa da democracia é acessível para todos?
“O que não pode é o eleitor chegar para votar e se deparar com uma barreira”
Confira a transcrição integral do vídeo*
Por Maria Paula Teperino*
Oi, gente. Eu fui exercer o meu direito de votar e o fiz, mas com barreiras. O local que eu voto é um local que consta no TRE da 4ª região aqui do Rio de Janeiro como um local acessível para pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida. Pois bem, a sala onde eu fui votar tem um degrau para chegar no mesário e mais um degrau para chegar na urna.
Eu estava com cadeira motorizada, tive que desligar, precisei de dois homens para subir o primeiro degrau e depois para subir o outro para a urna. E todos os mesários foram uníssonos em dizer que eles tinham avisado que ali não poderia ser colocada uma zona eleitoral. porque tinha barreira, mas mesmo assim foi.
Então, TRE da 4ª região, se vocês não sabem, mas são obrigados a saber, vá buscar quem possa lhes informar. Porque o que não pode é o eleitor chegar para votar e se deparar com uma barreira. Poxa, a gente tem mais de 2 milhões de pessoas com deficiência cadastradas como pessoa com deficiência Aplicação, a gente tem mais de 2 milhões de pessoas com deficiência,
E mais uma série de pessoas que eventualmente estão com alguma dificuldade de locomoção. E encontrar degrau no meio do caminho em 2026, realmente é de uma falta de senso que eu nunca vi. Então, eu te peço para divulgar esse vídeo o máximo possível para chegar até o TRE.
E a mesária foi super atenciosa e perguntou se eu queria que constasse em ata. Eu disse que sim. Ela tomou a termo que eu falei e está lá. Vamos ver, né? Vamos ver, né?
*Maria Paula Teperino é Mestre em psicanálise, psicóloga, escritora e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência.
*Vídeo publicado no Instagram em 4 de outubro de 2026




