O Brasil tem registrado recordes de frio em 2026, conforme dados de órgãos e empresas de monitoramento meteorológico. O Rio de Janeiro, por exemplo, vive seu inverno mais rigoroso às vésperas da chegada da primavera. O que muita gente não sabe é que o inverno pode afetar não apenas o organismo, com o agravamento de problemas respiratórios, por exemplo, mas também a saúde mental.

As baixas temperaturas podem contribuir para a piora ou o surgimento de diversos problemas, como o Transtorno Afetivo Sazonal (TAS), um tipo de depressão maior ligado às mudanças de estação e mais comum no outono e inverno. Embora atinja homens e mulheres, sua prevalência é maior na população feminina. A condição costuma ocorrer com maior frequência em países cuja estação gelada é mais intensa, com clima extremamente frio e úmido, onde há menos luz solar e dias mais curtos.

Segundo a pesquisa publicada no “Journal of Affective Disorders”, a exposição à luz solar pode aumentar os níveis de serotonina, melhorando o humor e a energia. Os estudos ainda indicam que condições climáticas, como a quantidade de luz solar, temperatura e precipitação, podem afetar significativamente o bem-estar emocional. Enquanto altas temperaturas podem aumentar os níveis de agressão e irritabilidade, temperaturas mais baixas podem levar a uma diminuição da energia.

Segundo explica a neuropsicóloga da Clínica Maia, Katherine M. De Paula Machado, a falta de luz é o fator mais importante para o desenvolvimento desse tipo de depressão, porque interfere no ritmo circadiano (ciclo biológico relacionado ao sono) podendo causar alterações nos níveis de serotonina, um neurotransmissor e neuromodulador essencial, afetando o humor. Também interfere na produção de melatonina, hormônio secretado pelo cérebro durante a noite, que também possui um papel determinante no sistema circadiano.

Com a diminuição da luz solar no inverno, as pessoas permanecem no padrão noturno, o que causa sonolência, cansaço, irritação, tristeza e fome maior do que o normal. Além disso, a ausência do sol atrapalha a fixação da vitamina D, que atua na produção de hormônios que ajudam a combater a depressão”, destaca.

Contudo, a especialista ressalta que mesmo com as alterações do clima, o nosso relógio biológico está programado para se adaptar às mudanças inerentes às estações do ano. Mas o que acontece é que pessoas que desenvolvem a depressão sazonal são justamente aquelas que têm dificuldade em se ajustar a essas transformações climáticas.

Diagnosticamos esse padrão sazonal se houver recorrência do episódio depressivo numa altura específica do ano, assim como a sua remissão completa após a estação. Em outras palavras, nesse tipo de depressão, assim que o clima frio vai embora, ela vai junto com ele”, esclarece Katherine.

Segundo a psicóloga Marina Gomes Tranzillo, coordenadora técnica do Hospital Saúde Premium, especializado em saúde mental, localizado em Capela do Alto (SP), o tempo gelado pode impactar a saúde mental por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e comportamentais. Ela explica que, nos meses mais frios, a menor exposição à luz solar reduz a produção de substâncias importantes para o equilíbrio do humor, como a serotonina e a melatonina.

Além disso, as pessoas tendem a permanecer mais tempo em ambientes fechados, diminuir atividades físicas e o contato social, fatores que contribuem para o isolamento e para a piora do bem-estar emocional. “Muitas pessoas relatam menor disposição, maior sonolência e redução da motivação para realizar atividades que normalmente proporcionam prazer. Em indivíduos vulneráveis, essas mudanças podem favorecer o aparecimento ou o agravamento de transtornos mentais já existentes”, informa a coordenadora.

Segundo Aline Alves Ferreira, responsável pela Clínica Escola de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, as alterações de clima intensificam as emoções. “Embora as condições climáticas não levem alguém a desenvolver algum transtorno emocional, podem servir como um gatilho adicional para alguém que já está em risco”, pontua a profissional.

A especialista explica que a maioria das pessoas com esse tipo de depressão apresenta sintomas como tristeza, sonolência e aumento do apetite durante os meses de outono e inverno, mas nenhum sintoma na primavera e no verão. “Isso mostra que a luz solar desempenha um papel crucial em regular nosso relógio biológico e humor,” destaca Aline.

Problemas mais comuns e sintomas

De acordo com a especialista, entre os problemas mais comuns na estação estão ansiedade e depressão, aumento da sensação de solidão, alterações no sono, redução da energia física e mental, além de estresse elevado. Em alguns casos, principalmente em países onde há grande redução da luminosidade, pode ocorrer, ainda, o Transtorno Afetivo Sazonal (TAS).

Embora menos frequente no Brasil devido à nossa localização geográfica, algumas pessoas também podem apresentar sintomas semelhantes durante o inverno”, frisa a psicóloga.

Segundo a especialista, sentir menos disposição em alguns dias frios é uma reação relativamente comum. No entanto, o alerta surge quando essa mudança se torna persistente e intensa, passando a comprometer a rotina, o trabalho, os relacionamentos ou o prazer em viver.

Os sintomas mais comuns são tristeza persistente ou sensação de vazio, desânimo e perda de interesse por atividades antes prazerosas, cansaço excessivo e falta de energia, alterações no sono, como dormir muito ou dificuldade para dormir, mudanças no apetite, irritabilidade, aumento da ansiedade, isolamento social, dificuldade de concentração e queda no desempenho no trabalho ou nos estudos.

Sintomas que aparecem sempre em um determinado período do ano, como humor depressivo, irritabilidade, ansiedade, diminuição da libido, baixa autoestima, desconcentração, sentimentos de culpa, fadiga, insônia ou sonolência excessiva, alteração no padrão alimentar (principalmente compulsão alimentar), no peso (normalmente aumento de peso), ideias de morte ou de suicídio representam um sinal de alerta.
Esses sintomas surgem no outono/inverno e desaparecem na primavera. E se a doença não for devidamente diagnosticada e controlada, a evolução desses sinais pode trazer uma condição bastante debilitante ao paciente e, nesses casos, a remissão dos sintomas na estação seguinte se torna parcial. Ou seja, em parte, o problema deixa de ser sazonal devido ao agravamento do quadro”, aponta a neuropsicóloga.

Atendimento profissional

Se esses sinais forem intensos, persistirem por mais de duas semanas ou causarem prejuízo significativo, é recomendado buscar atendimento profissional. De acordo com Marina, o tratamento dependerá da intensidade dos sintomas e das necessidades de cada pessoa. Em muitos casos, a psicoterapia é suficiente para ajudar o paciente a compreender os fatores envolvidos, desenvolver estratégias de enfrentamento e reorganizar sua rotina. Quando necessário, o psiquiatra também poderá indicar o uso de medicação.

Também é fundamental investigar se existem outros fatores contribuindo para os sintomas, como problemas hormonais, deficiência de vitamina D, alterações do sono ou situações de estresse, pois nem toda tristeza ou desânimo no inverno está relacionada exclusivamente ao frio. Cabe ressaltar, ainda, que cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física, independentemente da época do ano”, conclui a especialista.

Terapia de luz pode ser um dos recursos

Encontrar uma adaptação às variações climáticas é possível através de estratégias comportamentais e de modificação do ambiente. Por exemplo, o uso de terapia de luz para combater o TAS ou o ajuste de sistemas de ar-condicionado e desumidificadores pode ajudar a controlar os efeitos do clima no humor. Reconhecer e entender esses efeitos pode melhorar a capacidade de gerenciar o bem-estar emocional em face das inevitáveis mudanças climáticas.

Adotar práticas conscientes para ajustar-se a essas mudanças não só pode melhorar o humor individual, mas também contribuir para um ambiente social mais harmonioso. “Se você suspeita que pode ser sensível às mudanças climáticas, é importante entender que não pode mudar o clima, mas pode tomar medidas para amenizar seus efeitos no seu bem-estar, consultando um profissional de saúde”, finaliza a psicóloga.

Segundo a a neuropsicóloga Katherine M. De Paula Machado, o tratamento é individualizado e conta com recursos variados que vão desde o uso de medicamentos, até dieta, técnicas de relaxamento e atividade física, usados isoladamente ou em combinação. Outra ferramenta eficaz e bastante utilizada é a fototerapia (tratamento com luz artificial).

Assim como em outros tipos de depressão, a psicoterapia também é um forte recurso terapêutico utilizado no controle da doença, visando o bem-estar e a qualidade de vida do paciente. Ela previne, muitas vezes, a recaída da doença, principalmente quando associada à fototerapia.

É que a fototerapia contempla as vulnerabilidades fisiológicas do paciente, e a psicoterapia, por sua vez, foca nas questões emocionais, como pensamentos, comportamentos disfuncionais ou reatividade ao clima. E, assim sendo, é importante entender que ter um bom diagnóstico é fundamental, então, se preciso, não hesite, busque ajuda”, completa a profissional.

Com Assessorias

 

 

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